Eu e meu marido estamos a semanas da nossa viagem ao Chile. O destino foi escolhido em virtude do nosso amor aos vinhos e a minha grande admiração pelo poeta chileno Pablo Neruda.
Estou tão empolgada com a preparação das coisas de viagem que ontem ele me dizia que parece que estou mais feliz com a preparação do que com a viagem em si. Não é bem assim, claro. Gosto de aproveitar as coisas na sua plenitude e, principalmente, detesto viajar arrebanhada. Por mais cômodos e fáceis que sejam esses pacotes turísticos sempre me sinto meio “tocada” como gado, sabe? E esses city tour me parecem meio pasteurizados. Gosto de ver a realidade como ela é. Gosto de escolher meus destinos e acima de tudo, gosto da liberdade e das surpresas que se apresentam para os que se mostram receptivos à elas.
Bom, a preparação incluiu a atualização da carteira de identidade. É preciso ter uma identidade com menos de 10 anos para entrar nos países integrantes do Mercosul. É uma incomodação necessária, mas preciso confessar que foi bem mais fácil que eu pensei que seria. O sistema (em Curitiba) está todo informatizado, não é preciso mais sujar os dedos com tinta pois uma leitora ótica lê as digitais e a foto é tirada ali mesmo. Disseram que a nova identidade chega em 5 dias. Ótima surpresa.
Mas, como eu ia dizendo antes, detesto viajar arrebanhada. Assim, comprei um guia visual da Folha de São Paulo e estou fazendo o nosso próprio roteiro. Além do guia há informações em abundância na internet, blogs contam as suas experiências e eu mergulhei fundo na busca pela Santiago que quero conhecer.
Já escolhi três Viñas para visitar, mas confesso que é difícil, pois são todas tão lindas nas fotos dos sites… Gostaria de conhecer mais, mas assim ficaríamos borrachos a viagem inteira… Tracei 3 objetivos para essa viagem: vinhos, Neruda e neve.
O primeiro objetivo já está planificado. Escolhi viñas da região do Valle do Maipo, em Pirque: uma pequena e artesanal e duas maiores e mais conhecidas. Mas quero conhecer as viñas da região do Vale de Colchagua também. A minha única frustração foi descobrir que o trem del vino está temporariamente sem fazer passeios, pois gostaria muito de fazer o passeio entre Santa Cruz e San Fernando. Minha esperança é descobrir lá que o trem voltou a fazer o passeio. Preciso fazer o roteiro da visita às Viñas de Colchagua ainda.
O segundo objetivo é a peregrinação pelas casas de Pablo Neruda. É um sonho antigo conhecer a casa de Isla Negra (não é em uma ilha como eu imaginava!!!!). Isla Negra é um pequeno povoado de pescadores a quase 100km de Valparaíso. O poeta fala da compra de Isla Negra assim:
Pensei entregar-me a meu trabalho literário com mais dedicação e mais força. O contato com a Espanha tinha me fortificado e amadurecido. As horas amargas de minha poesia deviam terminar. O subjetivismo melancólico de meus 20 poemas de Amor ou a comoção dolorosa de Residencia em la Tierra chegavam ao fim. Pareceu-me encontrar um veio enterrado, não sob as rochas subterrâneas mas sob as folhas dos livros. Pode a poesia servir aos nossos semelhantes? Pode acompanhar as lutas dos homens? Já tinha caminhado bastante pelo terreno do irracional e do negativo. Devia deter-me e buscar o caminho do humanismo, banido da literatura contemporânea mas enraizado profundamente nas aspirações do ser humano.
Comecei a trabalhar em meu Canto general.
Para isto precisava de um lugar de trabalho. Encontrei uma casa de pedra defronte do
mar num lugar desconhecido para todo o mundo, chamado Isla Negra. Dom Eladio Sobrino, o proprietário, um velho socialista espanhol, capitão de navio, estava construindo-a para a sua família, mas quis vender. Como compraria? Ofereci o projeto do meu livro Canto general mas fui rechaçado pela Editora Ercilla, que então publicava as minhas obras. Com ajuda de outros editores, que pagaram diretamente ao proprietário, pude finalmente comprar, no ano de 1939, minha casa de trabalho em Isla Negra.
A idéia de um poema central que agrupasse as incidências históricas, as condições geográficas, a vida de nossos povos, apresentava-se a mim como uma tarefa urgente. A costa selvagem da Isla Negra, com o tumultuoso movimento oceânico, permitia que eu me entregasse com paixão à empresa de meu novo canto.” Neruda, Pablo - Confesso que he vivido- Memórias – Difel difusão editorial – São Paulo – 1983 p. 139)
Exitem mais duas casas, uma em Santiago conhecida como La Chascona (em português seria a descabelada – é uma homenagem do poeta à sua terceira mulher – Matilde Urrutia – que lá viveu um ano enquanto era sua amante) e La Sebastiana, em Valparaíso. Neruda separou-se da esposa e casou-se com ela em 1966. O livro cem sonetos de amor é dedicado à Matilde, que, me parece, foi o grande amor de Neruda. Ele fala da sua mulher, carinhosamente em suas memórias assim:
Matilde Urrutia, minha mulher.
Minha mulher é da província como eu. Nasceu em uma cidade do Sul, Chillán, famosa de maneira feliz por sua cerâmica camponesa e de maneira desgraçada pelos seus terríveis terremotos. Ao falar-lhe disse tudo em meus Cem sonetos de amor.
Talvez esses versos definam o que ela significa para mim. A terra e a vida nos reuniu.
Ainda que isto não interesse a ninguém, somos felizes. Dividimos nosso tempo comum em longas temporadas na solitária costa do Chile. Não no verão porque o litoral, ressequido pelo sol, mostra-se então amarelo e desértico; mas no inverno sim, quando uma estranha floração se veste com as chuvas e o frio, de verde e amarelo, de azul e purpúreo. Algumas vezes subimos do selvagem e solitário oceano para a trepidante cidade de Santiago, na qual juntos padecemos com a complicada existência dos demais.
Matilde canta com voz poderosa as minhas canções.
Dedico-lhe tudo quer escrevo e tudo que tenho. Não é muito mas ela está contente.
Diviso-a agora como afunda os sapatos minúsculos no barro do jardim e depois também afunda suas mãos minúsculas na profundidade da planta.
Da terra, com pés e mãos e olhos e voz, trouxe para mim todas as raízes, todas as flores, todos os frutos fragrantes da felicidade.” (op cit. p. 277/278)
Minha irmã disse que a melhor parte da viagem é planejar. É verdade. Sonhar com esse futuro feliz, de descobertas e encontros com a diversidade de cultura e realidade é fantástico! Estou muito animada estudando o Chile e montando o nosso roteiro.
Soneto XLVIII
Dois amantes ditosos fazem um só pão,
uma só gota de lua na erva,
deixam andando duas sombras que se reúnem,
deixam um só sol vazio numa cama.
De todas as verdades escolheram o dia:
não se ataram com fios senão com um aroma,
e não despedaçaram a paz nem as palavras.
A ventura é uma torre transparente.
O ar, o vinho vão com os dois amantes,
a noite lhes oferta suas ditosas pétalas,
têm direito a todos os cravos.
Dois amantes felizes não têm fim nem morte,
nascem e morrem muitas vezes enquanto vivem.
têm da natureza a eternidade.”
Como falta planificar as visitas a La Sebastiana e La Chascona vou ficando por aqui. Volto com as impressões do planejamento das outras casas de Neruda e do Valle Nevado.





