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Arquivo da categoria ‘Citações’

“…deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim dum jeito completamente insuspeitado, assim como se fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver nascer uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e derrubar as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente, você não crescia se eu a mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você precisava de muito espaço, claro, claro que eu compro uma revista pra você, eu sei, é bom ler durante a viagem, embora eu prefira ficar olhando pela janela e pensando coisas, estas mesmas coisas que estou tentando dizer a você sem conseguir, …”

(Abreu, Caio Fernando, 1948-1996 -Fragmentos: 8 histórias e um conto inédito. – Porto Alegre: L&PM, 2008. p. 93-94)

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Crença

Para nada importa a existência ou não das coisas

“Mas todos vós, que tendes algumas noções, mesmo incertas, de metafísica, conheceis o grande princípio de Kant. Este ultraprofundo filósofo estabeleceu que para nada importa a existência ou não existência das coisas – e só importa a crença ou não crença que os homens têm nas coisas. Assim, é perfeitamente indiferente que Cristo, como Cristo, existisse realmente numa província romana que se chamava Judeia – o que importa, e importou para a transformação do Mundo, foi que os homens acreditassem na existência de Cristo.”

Eça de Queiroz                                                                                          Cartas de Paris

(in Citações e Pensamentos de Eça de Queiroz/ Paulo Neves da Silva (org.) – São Paulo: Leya, 2011 p. 106)

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“…Mesmo na Europa, pudor de sentimento & pudor corporal tinham significados diferentes entre os diferentes grupos: ricos ou pobres, homens ou mulheres.

(Pietro Santi Bartoli (1635-1700)-’thermae Agrippae (hot baths of Agrippa)’-etching and engraving-1699 in Romane Magnitudinis Monumenta )

O banho, por exemplo. Ele gozou de grande prestígio entre as civilizações antigas e estava associado ao prazer: vide as termas romanas. Durante o Império, os banhos públicos multiplicaram-se e muitos se tornaram locais de prostituição. Eram chamados “banhos bordéis”, onde as “filhas do banho” ofereciam os seus serviços. Os primeiros cristãos, indignados com a má frequentação, consideravam que uma mulher que fosse aos banhos poderia ser repudiada. O código Justianiano deu respaldo à ação. Concílio após concílio, tentava-se acabar com eles. Proibido aos religiosos, sobretudo quando jovens, abster-se de banho se tornou sinônimo de santidade. Santa Agnes privou-se deles toda a vida. Ordens monásticas os proibiam aos seus monges. O batismo cristão, antes uma cerimônia comunitária de imersão, transformou-se numa simples aspersão.

Contudo, é importante lembrar que, apesar dos prazeres oferecidos pela água, gestos de pudor estavam sempre presentes. Durante a Idade Média, homens e mulheres não se banhavam juntos, salvo nos prostíbulos. Ambos cobriam as partes pudendas. Eles, com um tipo de calção. Elas, com um vestido fino e comprido. Regulamentos austeros coibiam horários e orientavam o uso das estufas. Era terminantemente proibido, por exemplo, que homens entrassem nos banhos femininos e vice-versa. Não faltavam ilustrações – em miniaturas e gravuras – sobre o voyerismo, capaz de quebrar as severas regras que controlavam tais espaços.

Segundo alguns autores, enquanto nossos índios davam exemplo de higiene, banhando-se nos rios, os europeus eram perseguidos pelas leis das reformas católica e protestante que lhes interditavam nadar nus. A visão de rapazes dentro dos rios, mergulhando e nadando em trajes de Adão, causava escândalo, quando não penalidades e multas.

A nudez e a poligamia dos índios ajudavam a demonizar sua imagem. Considerados não civilizados, a tentativa dos jesuítas em cobri-los resultou, muitas vezes, em situações cômicas, como a relatada por padre Anchieta:

“Os índios da terra de ordinário andam nus e quando muito vestem alguma roupa de algodão ou pano baixo e nisto usam de primores a seu modo, porque um dia saem  com gorro, carapuça ou chapéu na cabeça e o mais nu; outro dia saem com seus sapatos ou botas e o mais nu [...] e se vão passear somente com o gorro na cabeça sem outra roupa e lhes parece que vão assim mui galantes.” (Histórias íntimas - Mary del Priore: sexualidade e erotismo na história do Brasil – São Paulo: Editora Planeta do Brail, 2011 – p. 19/20)

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Acabei de ler o delicioso livro de Jane Austen – A Abadia de Northanger.  A narrativa deste livro menos conhecido do que Razão e Sensibilidade e Orgulho e preconceito é interessante, pois a autora interage com o leitor em vários momentos durante o curso da estória. E esses momentos em que a autora dá a sua opinião são carregados de comentários irônicos e divertidos. Lembrou-me muito dos comentários de Machado de Assis em seus romances.

Muito me chamou a atenção a noção de velocidade (e principalmente o tempo que era necessário para chegar de Tetbury a Bath, seja essa distância de 35 ou 40 quilômetros.). Segue esse trecho em particular:

“… Ele tirou o relógio do bolso e disse:

- Quanto tempo acha que levamos para vir de Tetbury para cá, Srta. Morland?

- Não sei a distância – respondeu Catherine.

James lhe disse que eram trinta e cinco quilômetros.

- Trinta e cinco! – exclamou Thorpe. – São quarenta, no mínimo!

Morland protestou e convocou a autoridade de mapas, donos de estalagens e tabuletas de estrada. Mas seu amigo desprezou tudo isso, pois tinha uma maneira mais segura de calcular a distância.

-Sei que só podem ser quarenta quilômetros – disse ele – pelo tempo que levamos. É uma e meia da tarde agora. Saímos da estalagem em Tetbury no momento em que o relógio da cidade marcava onze horas. E eu desafio qualquer homem na Inglaterra a obrigar o meu cavalo a correr menos de dezesseis quilômetros por hora estando atrelado; isso dá exatamente quarenta.

-Você esqueceu uma hora – disse Morland. – Eram apenas dez quando saímos de Tetbury.

-Absurdo! Eram onze, dou-lhe minha palavra! Contei cada badalada. Esse seu irmão consegue me tirar do sério, Srta. Morland. Olhe só para o meu cavalo. Já viu animal mais adequado para a velocidade em toda a sua vida? – perguntou Thorpe enquanto o criado montava no cabriolé e levava-o dali. – Um puro sangue! Ora levar três horas e meia para atravessar apenas trinta e cinco quilômetros! Olhe para aquela criatura e veja se isso é possível.” (Austen, Jane -A Abadia de Northanger – Rio de Janeiro: BestBolso, 2011 p. 42/43)

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“Tú no me conoces todavía bien, mi amor. Tú ignoras la profundidad de mi vínculo contigo.

Dame tiempo, dámelo, para hacerte un poco feliz. Tenme paciencia,espera a ver y a oír lo que tú eres para mí”

(trecho de Correspondência de Gabriela Mistral – poetisa chilena – a Doris Dana, sua secretária e companheira em 22 de abril de 1949)

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O brilho das águas apagou-se, e perdeu-se a forma dos barcos. A parede fronteira foi sendo carregada para longe. O chão desceu gradativamente, em suave abismo. Os alamos desmancharam-se. O céu perdeu seus limites.

Cada minuto teve sua importância na imperceptível transformação da noite. E a cidade que estive amando com pensamento e ternura desapareceu dos meus olhos, com todos os seus pormenores apagados.

Ficou essa névoa, esta cinza, este uniforme panorama de areia. E com igual espontaneidade e desinteresse, quando é que foste amada, Amsterdão?

Com esquadros imaginários, com lápis imaginários, pus-me a traçar vagos desenhos nesse fino papel imenso, da noite desdobrada: pontes sobre os séculos, sobre os oceanos, entre as idéias… Meus esquemas afogavam-se na impalpável matéria da noite. Certamente, se dormisse, não teria sonho mais fluido, mais fugidio, mais deslembrado.

Pela madrugada, a cidade começou a voltar: delinearam-se as ruas, lá embaixo, muito longe… Ouvi ou imaginei campainhas de invisíveis cavalos, acolchoados em névoa?

Regressaram os barcos, e sua sombra descia pela água dos canais, pouco a pouco cintilantes.

As paredes das casas foram reconstituídas, com suas janelas, e as janelas com suas cortinas arregaçadas sobre um jarro de flores.

Vassouras, espanadores, os mil utensílios de limpeza que são uma das glórias sadias da Holanda começaram a espalhar nuvens, a secar o orvalho, a bater os tapetes da Aurora, a brunir a claridade do sol. Aéreas mãos se apressavam, nesse trabalho diáfano; e meus olhos assistiam àquele desenrolar de cores, e àquela construção festiva da pura manhã de domingo.

Quando tudo estava pronto, uma janela abriu-se, diante de mim, e duas raparigas, de saia de lã e touca branca, sentaram-se de perfil, simetricamente, com os planos, a composição, a placidez de um quadro antigo.

E eu te agradecia, Amsterdão, essa espécie de amor correspondido: a alegria trazida aos meus olhos, depois da vazia contemplação da noite.

Foi quando a música se elevou, a música da eterna infância… Porque o realejo parara sob a minha janela, e começara a cantar e chorar a sua incansável melodia…

Um realejo grande como um altar-mor. Um realejo barroco, dourado, com flores, colunas; todas as curvas delirantes do seu estilo.

E de todas as janelas começou a chover, sobre essa música, um turbilhão de moedinhas de prata, que brilhavam ao sol como escamas ao vento.

(São Paulo, O Estado de São Paulo, 15 de março de 1953) in Meireles, Cecília – Obras em prosa – Crônicas de viagem 2 – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999 – p. 145/146

Amsterdam street along the Singel River by Eduard Alexander Hilverdink  (Dutch painter, 1846-1891)

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Ciúme

 

“Amor é bibelô de louça. Ciúme é a consciência de que o objeto amado não é posse: bibelôs quebram fácil. Por isso, o amor dói, está cheio de incertezas. Discreto tocar de dedos, suave encontro de olhares: coisa deliciosa, sem dúvida. E é por isso mesmo, por ser tão discreto, por ser tão suave, que o amor se recusa a segurar. Amar é ter um pássaro pousado no dedo.” Rubem Alves in Do universo à jabuticaba – São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2010 – p. 109

(Portrait of a boy with a spaniel, a robin on his left hand, a bow and arrows at his feet by Nicolaes Maes, also known as Nicolaes Maas (January 1634 – November 24, 1693 (buried)) was a Dutch Golden Age painter of genre and portraits)

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“Quando, Lídia, vier o nosso outono

Com o inverno que há nele, reservemos
Um pensamento, não para a futura
Primavera, que é de outrem,
Nem para o estio, de quem somos mortos,
Senão para o que fica do que passa
O amarelo atual que as folhas vivem
E as torna diferentes.”

 

“Sofro, Lídia, do medo do destino.

A leve pedra que um momento ergue

As lisas rodas do meu carro, aterra
Meu coração.

Tudo quanto me ameace de mudar-me
Para melhor que seja, odeio e fujo.

Deixem-me os deuses minha vida sempre
Sem renovar
Meus dias, mas que um passe e outro passe
Ficando eu sempre quase o mesmo, indo
Para a velhice como um dia entra
No anoitecer.”

 

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“Por trás da torre o luar

Faz a torre uma outra torre.

A voz alegre a cantar

É-me triste de a escutar,

Pois sei que quem canta morre.

Tenho pena de sentir

Porque sentir é pensar.

 

A torre é negra e esplendente.

A lua oculta por ela

É um halo de luz ausente

Meu coração é dormente:

Cisma sentado à janela.

Tenho pena de pensar

Porque quem pensa não sente.”

Fernando Pessoa (13/06/1934)

(in Pessoa, Fernando – Poesia 1931-1935 e não datada – Companhia das Letras – 2009 – p. 281)

Em homenagem ao aniversário de Fernando António de Nogueira Pessoa em seu  123º aniversário de nascimento.

(Foto de Charlie Riedel - Lua cheia nasce atrás de torre em arte déco da antiga cidade de Kansas, nos EUA)

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Sempre desprezei as coisas mornas, as coisas que não provocam ódio nem paixão, as coisas definidas como mais ou menos, um filme mais ou menos ,um livro mais ou menos.
Tudo perda de tempo.


Viver tem que ser perturbador, é preciso que nossos anjos e demônios sejam despertados, e com eles sua raiva, seu orgulho, seu asco, sua adoração ou seu desprezo.
O que não faz você mover um músculo, o que não faz você estremecer, suar, desatinar, não merece fazer parte da sua biografia.”

 

 

(Martha Medeiros em O divã)

(cenas do filme The Notebook – 2004 – O diário de uma paixão no Brasil)

“I want all of you, forever, you and me, every day.” (Eu quero você toda, eternamente, você e eu, todos os dias.”) Noah (to Allie) in the movie The notebook – 2004

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