
O brilho das águas apagou-se, e perdeu-se a forma dos barcos. A parede fronteira foi sendo carregada para longe. O chão desceu gradativamente, em suave abismo. Os alamos desmancharam-se. O céu perdeu seus limites.
Cada minuto teve sua importância na imperceptível transformação da noite. E a cidade que estive amando com pensamento e ternura desapareceu dos meus olhos, com todos os seus pormenores apagados.
Ficou essa névoa, esta cinza, este uniforme panorama de areia. E com igual espontaneidade e desinteresse, quando é que foste amada, Amsterdão?
Com esquadros imaginários, com lápis imaginários, pus-me a traçar vagos desenhos nesse fino papel imenso, da noite desdobrada: pontes sobre os séculos, sobre os oceanos, entre as idéias… Meus esquemas afogavam-se na impalpável matéria da noite. Certamente, se dormisse, não teria sonho mais fluido, mais fugidio, mais deslembrado.
Pela madrugada, a cidade começou a voltar: delinearam-se as ruas, lá embaixo, muito longe… Ouvi ou imaginei campainhas de invisíveis cavalos, acolchoados em névoa?
Regressaram os barcos, e sua sombra descia pela água dos canais, pouco a pouco cintilantes.
As paredes das casas foram reconstituídas, com suas janelas, e as janelas com suas cortinas arregaçadas sobre um jarro de flores.
Vassouras, espanadores, os mil utensílios de limpeza que são uma das glórias sadias da Holanda começaram a espalhar nuvens, a secar o orvalho, a bater os tapetes da Aurora, a brunir a claridade do sol. Aéreas mãos se apressavam, nesse trabalho diáfano; e meus olhos assistiam àquele desenrolar de cores, e àquela construção festiva da pura manhã de domingo.
Quando tudo estava pronto, uma janela abriu-se, diante de mim, e duas raparigas, de saia de lã e touca branca, sentaram-se de perfil, simetricamente, com os planos, a composição, a placidez de um quadro antigo.
E eu te agradecia, Amsterdão, essa espécie de amor correspondido: a alegria trazida aos meus olhos, depois da vazia contemplação da noite.
Foi quando a música se elevou, a música da eterna infância… Porque o realejo parara sob a minha janela, e começara a cantar e chorar a sua incansável melodia…
Um realejo grande como um altar-mor. Um realejo barroco, dourado, com flores, colunas; todas as curvas delirantes do seu estilo.
E de todas as janelas começou a chover, sobre essa música, um turbilhão de moedinhas de prata, que brilhavam ao sol como escamas ao vento.
(São Paulo, O Estado de São Paulo, 15 de março de 1953) in Meireles, Cecília – Obras em prosa – Crônicas de viagem 2 – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999 – p. 145/146
Amsterdam street along the Singel River by Eduard Alexander Hilverdink (Dutch painter, 1846-1891)
Read Full Post »