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Archive for setembro \29\UTC 2010

” – Então?

 – E se não houver vida eterna? E se a morte for realmente o fim de todas as coisas?: Terão abandonado tudo por nada. Terão sido enganadas.

Waddington refletiu um instante.

 – Não sei. Não sei se importa que seja ou não uma ilusão aquilo que elas aspiram. Suas vidas são belas em si mesmas. Às vezes penso que a única coisa que torna possível viver sem repugnância neste mundo é a beleza que de quando em quando os homens criam do caos. Os quadros que pintam, as músicas que compõem, os livros que escrevem, e a vida que levam. E, de tudo isto, o que encerra a maior beleza é uma vida bela. Essa é que é a perfeita obra de arte.

Kitty suspirou. O que ele dizia parecia-lhe injusto. Ela desejava mais.

 – Já esteve num concerto sinfônico? – continuo ele.

 – Sim – respondeu ela com um sorriso – Não entendo nada de música, mas gosto muito.

 – Cada membro da orquestra toca o seu pequeno instrumento, e que sabe ele das complicadas harmonias que se desenrolam no ar indiferente? A ele só interessa a sua pequenina parte. No entanto, ele sabe que a sinfonia é bela, e mesmo que não haja ninguém para ouví-la, ainda é bela, e ele se sente contente em tocar a sua parte.

 – No outro dia você falou no Tao – disse Kitty depois de uma pausa. – Diga-me o que é.

Waddington relanceou os olhos, hesitou um instante, e depois respondeu com um breve sorriso irônico.

 – É o Caminho e o Caminhante. É a estrada por onde todos os seres caminham, e que contudo não foi construída por nenhum ser, porque ela própria é o ser. É tudo e nada. Todas as coisas surgem desse caminho, a ele se adaptam, e a ele voltam finalmente. É um quadrado sem ângulos, um som  que os ouvidos humanos não percebem , uma imagem sem forma. É uma rede imensa, e embora suas malhas sejam tão grandes como o mar, nada deixam passar. É o santuário onde todas as coisas encontram refúgio. Não está em parte alguma, mas podemos vê-lo sem olhar pela janela. Deseje não desejar, ensina ele, e deixe todas as coisas seguirem o seu curso. Aquele que se humilha será preservado na sua inteireza. Aquele que se curva será endireitado. A derrota é a base do triunfo, e o triunfo é a tocaia da derrota; mas quem poderá dizer quando é chegado o momento decisivo? Aquele que se empenha em buscar a ternura pode tornar-se igual a uma criancinha. A brandura traz vitória àquele que ataca e segura àquele que se defende. Poderoso é quem vence a si mesmo.

 – Isso significa alguma coisa?

 – Às vezes, depois de meia dúzia de uísques e de olhar para as estrelas, penso que sim.”

(trecho de O Véu Pintado – Somerset Maugham)

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"Como era o primeiro quadro dele que eu via, sempre lembro mais do que os outros, mesmo daqueles que acompanhei da primeira pincelada até os retoques finais.
Uma mulher estava na frente de uma mesa, olhando para um espelho na parede, de forma que era vista de perfil. Usava um rico casaquinho de cetim amarelo debruado de arminho branco e um elegante laço de cinco pontas no cabelo. Uma janela iluminava-a pela esquerda e a luz batia no rosto dela e traçava a delicada curva de sua testa e nariz. Ela estava colocando um colar de pérolas no pescoço, com as pontas par cima,, as mãos suspensas no ar. Distraída consigo mesma no espelho, não parecia perceber que alguém a olhava. Atrás dela, numa parede branca, havia um velho mapa e, em primeiro plano, no escuro, a mesa com a carta, o pincel de pó de arroz e as outras coisas que eu havia limpado.
Gostaria de usar o casaquinho e as pérolas. Queria conhecer o homem que a pintara daquele jeito.
Pensei em mim mesma, olhando o meu reflexo no espelho e me envergonhei.
Maria Thins parecia satisfeita de estar contemplando o quadro comigo. Era estranho olhá-lo tendo as coisas em volta. Por causa da limpeza, eu conhecia todos os objetos na mesa e a relação entre eles: a carta no canto, o pincel casualmente ao lado da tigela de estanho, o pano azul amontoado em volta do pote escuro. Tudo parecia exatamente igual, sóo que mais limpo e mais nítido. As coisas pareciam fazer pouco da minha limpeza.
Então, vi uma diferença. Prendi a respiração.
– O que foi, menina?
– No quadro, a cadeira ao lado da mulher não tem o encosto com cabeças de leão – notei.
– Não. Havia um alaúde sobre a cadeira mas ele muda muita coisa. Não pinta exatamente o que vê, mas o que combina. Diga, menina, acha que o quadro está pronto?
Olhei-a. A pergunta devia ser um truque, mas eu não podia imaginar nenhuma mudança para melhor.
– Não está? – hesitei.
Maria Thins riu. – Ele está trabalhando há três meses. Imagino que vá ficar ainda mais dois. Vai mudar as coisas, você vai ver. – Olhou em volta. – Terminou sua limpeza, não?" (Chevalier, Tracy – Moça com brinco de pérola – Bertrand Brasil – Rio de Janeiro – 2010) 
 

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NÃO SEI QUAL O CAMINHO – se o que passa

Por onde entre o arvoredo o atalho vai,

Se o que é a estrada extensa, que se traça

Como um vinco na terra, de onde sai.

 

Não sei, não sei. Porque ou atalho ou estrada

São terra, e o que importa é como andar;

Nem pesa muito a estrada ir dar a nada,

Nem ao atalho a nada ir a dar.

 

 

Vale só o quem anda, que é quem vive.

Assim, adulto do que quis fazer,

Vou caminhando para o que já tive

Sabendo bem o que não poderei ter.

 

23-9-1934

Paul_Cornoyer-Plaza_After_Rain_ (Pessoa, Fernando in Poesia 1931-1935 e não datada Companhia das Letras – 2009)

 

 

 

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Paul Cornoyer [American Impressionist Painter, 1864-1923] – Spring in Normandy and Plaza after rain

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An excerpt from chapter 5 of John Piper’s “The Dangerous Duty of Delight.” –

“Love is costly.  It always involves some kind of self-denial in this world. ‘He who loves his life loses it, and he who hates his life in this world will keep it to life eternal’ (John 12:25). Love costs you your life in this world.  But in the world to come the joys of eternal life are more than sufficient reward.  Christian Hedonism insists that the eternal gain outweighs temporary pain.  It affirms that there are rare and wonderful species of joy that flourish only in the rainy atmosphere of suffering. ‘The soul would have no rainbow if the eye had no tears.’ “

*a native American proverb.

Em tradução livre:

“O amor tem um alto preço. Ele sempre envolve algum tipo de negação neste mundo.’Aquele que amar a sua vida perdê-la-á e aquele que odiar a sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna’ (João 12:25) O amor a sua vida  neste mundo. Mas no mundo que virá, as alegrias da vida eterna serão recompensas mais do que suficientes. O hedonismo cristão  prega que o ganho eterno superará a dor temporária. Ele afirma que há raras e maravilhosas espécies de alegrias as quais florescem  somente na atmosfera chuvavosa do sofrimento. ‘Não haverá arco-íris para a alma se nos olhos não houverem lágrimas.’”

provérbio nativo americano

(cena do filme Partition)

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Loving Arms 


If you could see me now 
The one who said that she’s rather roam 
The one who said she’d rather be alone 
If you could only see me now 

If I could hold you now
Just for a moment, if I could really make you mine
Just for a while, turn back the hands of time
If I could only hold you now

I’ve been too long in the wind
Too long in the rain
Taking any comfort that I can
Looking back and longing for
The freedom of my chains
And lying in your loving arms again

If you could hear me now
Singing somewhere through the lonely nights
Dreaming of the arms that held me tight
If you could only hear me now


I can almost feel your loving arms again

YouTube – Etta James Lovin’ Arms

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Sorri – Djavan

Sorri

Djavan

 

Composição: Charles Chaplin/G.Parson/J. Turner – versão: Braguinha 

Sorri
Quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos, vazios
Sorri
Quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador
Sorri
Quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados, doridos
Sorri
Vai mentindo a tua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz

 http://www.youtube.com/watch?v=e1KY0iHR1XU&feature=related

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And I love you so.
The people ask me how,
How I’ve lived till now.
I tell them I don’t know.

I guess they understand
How lonely life has been.
But life began again
The day you took my hand.

And, yes, I know how lonely life can be.
The shadows follow me, and the night won’t set me free.
But I don’t let the evening get me down
Now that you’re around me.



And you love me, too.
Your thoughts are just for me;
You set my spirit free.
I’m happy that you do.

The book of life is brief
And once a page is read,
All but love is dead.
That is my belief.

And, yes, I know how loveless life can be.
The shadows follow me, and the night won’t set me free.
But I don’t let the evening bring me down
Now that you’re around me.

And I love you so.
The people ask me how,
How I’ve lived till now.
I tell them, "i don’t know." 

YouTube – Don McLean – And I Love You So with lyrics (HD)
 

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