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Archive for novembro \30\UTC 2010

“Amamos como amam as crianças! Eu te amo porque me amas, ou “amo-te porque necessito de ti”, assim como brilhantemente sacou Erich Fromm em seu recomendável A arte de amar. Amamos uma parte escolhida do outro, e ignoramos o resto. Projetamos os nossos melhores sentimentos, as nossas maiores expectativas numa pequena parte visível (quase sempre nosso reflexo no espelho) do ser amado. Só que este ser amado é um todo, e como um todo ele vive e reage ao nosso amor fracionado. Diante da reação de uma outra parte desconhecida e não amada do “ser amado”, ficamos perplexos, arrasados, morremos um pouco e às vezes totalmente.

Aconteceu comigo. Foi  meu primeiro grande amor. Surgiu de forma mágica, e cresceu avassaladoramente, junto com o meu envolvimento na política estudantil, era o ano de 1968. Foi um relacionamento tumultuado como era aquele tempo, romântico e intenso tal Romeu e Julieta, cheio de heroísmo. Fui preso e conheci meu primeiro inferno.

Com 19 anos e cheio de purezas, fui para a Ilha das Flores, “pagar” parte do meu karma. Sofria com a tortura, da qual já ouvira falar, mas na carne era outra coisa. Sofria pelos companheiros presos e muito mais torturados. Sofria pelos que estavam ainda livres mas acuados e sofria só de pensar em vê-los ali. Mas sofria principalmente por ela,  tão sozinha, tão dependente do nosso amor, ela cujo café da manhã eram nossos beijos, e nosso sexo inaugural. Como sobreviveria? Ela não era da estirpe das guerreiras como as meninas do Movimento, ela era princesa, pele clara, delicada, tratada a pão-de-ló. Antes de sair da Ilha escrevi-lhe uma carta de amor e esperança (revolucionárias, é claro) no melhor estilo Che Guevara “hay que endurecer, pero sin perder La ternura jamás”. Pensei que seria solto naquele dia. Mas não, era uma transferência para outro quartel. No camburão, encapuzado e algemado, ouvi uma conversa que eu iria para a P.E. da Tijuca (Rio). Eu já sabia que lá era barra pesada e que teria que ficar nu para a revista e talvez mais uma sessão de “interrogatórios”. Entrei em pânico. E se eles descobrissem a carta Iam querer saber quem era ela, poderiam até achar que por ser minha namorada (a gente na época dizia cheio de liberdade revolucionária “minha mulher”) poderia fazer parte do esquema. Tentei rasgar a carta e jogar pelo respiro do camburão, não deu certo. Aí só me restou uma saída para preservar o meu amor das garras dos tiranos – comer a carta. Dois dias depois fui libertado. Saí com o coração pulando na frente, cercado pelos amigos e escoltado pelos meus verdadeiros heróis – meu pai e minha mãe. Mas o meu pensamento estava lá, nela, na minha Julieta. Resumo: ao tentar falar com ela pelo telefone, senti que havia algo errado. Todos tentaram me dissuadir. Revoltado insisti, fui ofendido pelos pais dela. Até que finalmente uma das amigas que estavam na minha casa trancou-se comigo e, constrangida até a medula, me revelou como a minha amada sofreu nos dois primeiros dias da minha prisão. E contou-me também ter sido chamada para um programa com ela e dois rapazes na noite do terceiro dia. Contou-me então como a minha amada beijou e abraçou o garotão feliz da vida, enquanto ela, pasma no banco de trás, tentava manter o outro da dupla à distância.

Por alguns instantes não entendi ou não ouvi parte da narrativa, dizem que eu fiquei catatônico,  honestamente não me lembro, são tantos anos… Nos dias que se seguiram me equilibrei entre o ódio e o desejo meio mórbido de saber o porquê. Eu pensava, delirava: primeiro eu mato, depois faço perguntas, ou pergunto antes e atiro depois? Por mais absurdo que possa parecer à mente civilizada que está fora do ringue, eu passava as noites imaginando – a minha doce amada – pendurada no pau-de-arara, com as partes pudendas inchadas e chocadas. Eu a imaginava encapuzada, andando nua pelos corredores úmidos, sendo puxada por uma cordinha como um cachorro, que nem eu fui. Mas ao mesmo tempo eu tinha medo de encontrá-la, tinha medo da resposta, tinha medo de que a resposta pudesse me ferir ainda mais, ou então explicar tudo, desmentir tudo, o que seria também terrível, pois eu já a havia condenado e executado pelo menos três vezes por noite, e como se passaram dois meses isso dava uma média de 180 execuções mentais. Um dia encontrei com ela, arrastei-a até a garagem de um prédio e perguntei: “Por quê?” Como suicida que engole o frasco inteiro de comprimidos. Chorando ela me respondeu finalmente: “Não sei, juro por Deus que não sei!” Por mais incrível e irônico que possa parecer ela estava me plagiando, essa era a minha fala predileta diante da tortura dos interrogatórios. Deixei-a chorando na garagem e, aparentemente vivo, caminhei de volta para casa.

Hoje, cada vez que ouço histórias parecidas (e já ouvi centenas, talvez chegue à casa do milhar)compreendo perfeitamente as emoções em ebulição. Não estranho o “desejo de matar” I,II,III do Charles Bronson que existe dentro de cada um de nós.

Afinal, o que aconteceu por trás dos bastidores daquela “vil traição” juvenil? Estaria a Amada mentindo, ao dizer “não sei, não sei, não sei” como um robô enguiçado? Ou teria sido um caso típico de dupla personalidade como as novelas de TV ou dos compêndios psiquiátricos? Apesar de não ter certeza de nada em relação ao misterioso, desconhecido ser humano, acho que a minha amada realmente não sabia, porque ela não sabia sobre si mesma, eu não (sabia) conhecia ela toda, e ambos. A pessoa que eu amava na verdade não existia, eu amava uma personagem. Ela resolveu aceitar o papel. Por algum tempo ela acreditou tanto no papel que se confundiu com ele, ela acreditou naquilo que eu dizia estar vendo nela, acreditou nas falas que eu lhe pedia para dizer, nos gestos, no cenário, foi estimulada pelos meus beijos-aplausos, e se fez prisioneira aparentemente feliz daquele esquete. Com a minha saída rápida de cena, ela ficou perdida no palco. Sem direção, procurou no baú outra fantasia e outro papel, e encontrou outro ator para contracenar, pena que foi um fracasso de público e de crítica. Acho que foi isso.” (GOLDKORN, Roberto B. O. in O PODER DA VINGANÇA Mortos e feridos do amor Ed. Nova Fronteira – Rio de Janeiro – 1995 p. 135/139)

(Narciso de Michelangelo Merisi da Caravaggio – 1594/1596- atualmente na Galleria Nazionale d’Arte Antica)

 

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SONNET 116

Let me not to the marriage of true minds
Admit impediments. Love is not love
Which alters when it alteration finds,
Or bends with the remover to remove:
O no! it is an ever-fixed mark
That looks on tempests and is never shaken;
It is the star to every wandering bark,
Whose worth’s unknown, although his height be taken.
Love’s not Time’s fool, though rosy lips and cheeks
Within his bending sickle’s compass come:
Love alters not with his brief hours and weeks,
But bears it out even to the edge of doom.
If this be error and upon me proved,
I never writ, nor no man ever loved.

 


 

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Já conheço os passos dessa estrada
Sei que não vai dar em nada
Seus segredos sei de cor
Já conheço as pedras do caminho,
E sei também que ali sozinho,
Eu vou ficar tanto pior
E o que é que eu posso contra o encanto,
Desse amor que eu nego tanto
Evito tanto e que, no entanto,
Volta sempre a enfeitiçar
Com seus mesmos tristes, velhos fatos,
Que num álbum de retratos
Eu teimo em colecionar

Lá vou eu de novo como um tolo,
Procurar o desconsolo,
Que cansei de conhecer
Novos dias tristes, noites claras,
Versos, cartas, minha cara
Ainda volto a lhe escrever
Pra lhe dizer que isso é pecado,
Eu trago o peito tão marcado
De lembranças do passado e você sabe a razão
Vou colecionar mais um soneto,
Outro retrato em branco e preto
A maltratar meu coração

 

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Solidão

A solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais.”

Arthur Schopenhauer  

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STILL

The Commodores
(Lionel Richie)

Lady, Morning’s just a moment away
And I’m without you once again
You laughed at me
You said you didn’t needed me
I wonder if you need me now

So many dreams that flew away
So many words we didn’t say
Two people lost in a storm
Where did we go?
Where’d we go?

We lost what we both had found
You know we let each other down
But then most of all
I Do Love You
Still!

We played the games that people play
We made our mistakes along the way
Somehow I know deep in my heart
You needed me
‘Cause I needed you so desperatly!
We were too blind to see
But then most of all
I Do Love You
Still!

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