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Archive for março \29\UTC 2011

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que

qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria. Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”. Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia. Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria. Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu nao vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam. No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez. Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte”com ela ia se repetir com meu coração batendo. E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra. Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. As vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados. Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler! E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer. Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo. Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. As vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.” (Felicidade Clandestina. In Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro, Rocco, 1998.)

Ilustração de J. Guillin: Reinações de Narizinho, 1930.


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“Então quero que você venha para deitar comigo no meu quarto novo, para ver minha paisagem além da janela, que agora é outra, quero inaugurar meu novo estar-dentro-de-mim ao teu lado, aqui, sob este teto curvo e quebrado, entre estas paredes cobertas de guirlandas de rosas desbotadas. Vem para que eu possa acender incenso do Nepal, velas da Suécia na beirada da janela, fechar charos de haxixe marroquino, abrir armários, mostrar fotografias, contar dos meus muitos ou poucos passados, futuros, possíveis ou presentes impossíveis. Dos meus muitos ou nenhuns eus. Vem para que eu possa recuperar sorrisos, pintar teu olho escuro com kol, salpicar tua cara com purpurina dourada, rezar, gritar, cantar, fazer qualquer coisa, desde que você venha, para que meu coração não permaneça esse poço frio sem lua refletida. Porque nada mais sou além de chamar você agora, porque não tenho medo e não estou sozinho, porque não, porque sim, vem e me leva outra vez para aquele país distante onde as coisas eram tão reais e um pouco assustadoras dentro da sua ameaça constante, mas onde existe um verde imaginado, encantado, perdido. Vem, então, e me leva de volta para o lado de lá do oceano de onde viemos os dois.” Caio Fernando Abreu – Do Livro Ovelhas Negras – Conto: Luxo e purpurina.

The Kiss, Edvard Munch, 1897
Oil on canvas

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A paixão cega pelo senhor e por seus interesses não deixava de exprimir também a certeza inquebrantável de que cada ato exige sua recompensa ou punição, o sentimento de justiça, sólido como um muro e duro como como uma pedra, que era próprio do homem medieval. O sentimento de justiça ainda era três quartos pagão. Consistia em uma sede de vingança. A igreja tentara temperar as modalidades de punição, insistindo na mansuetude, na paz e na clemência, ao mesmo tempo que exasperava a sede de justiça, acrescentando-lhe o horror ao pecado. Para o espírito violento, o pecado passa a ser aquilo que o inimigo faz. A ânsia por justiça chegou ao seu ponto máximo impusionada tanto pela noção bárbara de “olho por olho, dente por dente” como pelo horror religioso ao pecado; ao mesmo tempo, o dever do Estado de punir severamente parecia uma necessidade urgente3. No fim da Idade Média, torna-se crônico o sentimento de insegurança, o medo de que, a cada crise, exige das autoridades um reinado de terror. A idéia de que alguém possa se redimir de seus crimes aos poucos perde lugar, para se tornar um resquício quase idílico de uma boa índole antiga, à medida que se arraigava fortemente o conceito de que um crime era ao mesmo tempo uma ameaça para a sociedade e uma violência à majestade divina. O fim da Idade Média foi a época de ouro da justiça severa e da crueldade judiciária. Ninguém duvidava um instante que um criminoso merecia sua pena; todos ficavam profundamente satisfeitos quando o próprio príncipe ditava uma sentença. Volta e meia, o governo se lançava em campanhas de justiça severa, ora contra bruxas e feiticeiros, ora contra a sodomia.

O que menos impressiona na crueldade judiciária do fim da Idade Média é menos a perversidade doentia que a alegria animalesca e embrutecida do povo, a atmosfera de quermesse. As pessoas de Mons compraram o líder de de um bando de ladrões a bom preço, para ter o prazer de esquartejá-lo, “com que o povo ficou mais feliz do que se o corpo de um santo tivesse ressucitado” (“dont le peuple fust plus joyeulux que si un noveau corps sainct estoit ressuscité). Durante a prisão de Maximiliano em Bruges, em 1488, a bancada de tortura foi instalada na praça central, sobre uma plataforma elevada, para que o rei pudesse vê-la; e o povo parece não se fartar de ver as torturas aplicadas aos magistrados suspeitos de traição, clamando para que a execução fosse retardada, a fim de desfrutar de novos tormentos.

A mistura de crença e desejo de vingança podia levar a extremos nada cristãos, como prova o hábito vigente na França e na Inglaterra, de negar ao condenado à morte não só o viático, mas também o direito de confissão: não se tratava de salvar-lhes a alma, mas sim de agravar a agonia diante da certeza das penas infernais. Em 1311 o papa Clemente V instituíra que se permitisse o sacramento da penitência. Philippe de Mézières insistiu mais de uma vez no ponto, primeiro junto a Carlos V da França, depois junto a Carlos VI. Mas o chanceler Pierre d´Orgemont, que Mèzières chama de  “forte cevelle”, mais difícil de mover que uma pedra de moinho, dizia-se contra, e Carlos V, rei sábio e pacífico, decidiu que, enquanto ele estivesse vivo, o hábito não seria mudado. Foi só quando a voz de Jean Gerson juntou-se a de Mézièrs que foi promulgado o edito real de 12 de fevereiro de 1397, permitindo a confissão dos condenados. Em Paris, Pierre de Craon, a quem se devia a decisão, mandou erguer uma cruz de pedras perto do cadafalso, onde os franciscanos poderiam assistir os criminosos arrependidos. Ainda assim o o antigo hábito não desapareceu da moral popular: pouco depois de 1500, o bispo de Paris, Etienne Ponchier, foi forçado a reeditar o estatuto de Clemente V.” (O Outono da Idade Média – Estudo sobre as formas de vida e de pensamento nos séculos XIV e XV na França e nos Países Baixos – Johan Huizinga – COSACNAIFY – 2010 – p. 33-34)

(The Torture on the Wheel, a painting by Jean Baptiste Bonnart.)

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Lyrics & Music By: The Corrs

All alone, staring on
Watching her life go by
When her days are grey
And her nights are black
Different shades of mundane
And the one-eyed furry toy that lies upon the bed
Has often heard her cry
And heard her whisper out a name long forgiven
But not forgotten

You’re forgiven, not forgotten,
You’re forgiven, not forgotten,
You’re forgiven, not forgotten,
You’re not forgotten

A bleeding heart torn apart
Left on an icy grave
In their room where they once lay
Face to face
Nothing could get in their way
But now the memories of the man are haunting her days
And the craving never fades
She’s still dreaming of the man long forgiven
But not forgotten

You’re forgiven, not forgotten,
You’re forgiven, not forgotten,
You’re forgiven, not forgotten,
You’re not forgotten

Still alone, staring on
Wishing her life goodbye
As she goes searching for the man long forgiven
But not forgotten

You’re forgiven, not forgotten,
You’re forgiven, not forgotten,
You’re forgiven, not forgotten,
You’re forgiven, not forgotten,
You’re forgiven, not forgotten,
You’re forgiven, not forgotten,
You’re forgiven, not forgotten,
You’re forgiven, not forgotten,
You’re not forgotten,
You’re not forgotten,
No, you’re not forgotten.

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Ariadne (1888) – Smithsonian American Art Museum – Washington DC – Wyatt Eaton, (1849 –1896)  foi um pintor canadense que se notabilizou por fazer retratos. Foi também um dos fundadores da  Society of American Artists (Sociedade de Artistas americanos)

Em homenagem à manhã de leitura dos mitos gregos com a minha filhinha.

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