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Archive for abril \29\UTC 2011

Sem dúvida que foi o único idílio
Esse que seu obscuro curso teve
Naquele nosso exílio
Em que nenhum de nós esteve.

Nem faltou não haver tu nem eu
Nem até esse idílio, enfim…
Era amplo e claro o alheio céu,
E tu sem ti, e eu sem mim.

E assim, irmãos no que não pode haver,
Gémeos em nada, mão em mão, sorrindo,
Olhávamos o rio a ser não ser
Crianças do advindo…

Depois passou ou um século ou o mundo…
E, hoje, encontrando-nos nas ruas que há,
Não nos lembramos desse exílio ao fundo
Do qual nossa alma está.

Nem sei se passo por quem és na rua
Nem se passo por mim que em mim sou preso…
Éden no Exílio! Eu fiz a espada nua
Erguer-se e o fiz defeso.

19 – 11 – 1933In Poesia 1931-1935 e não datada , Companhia das Letras, Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2009 p. 220/221

(Albrecht Durer -Adam and Eve  1507 – Oil on panel. Museo del Prado, Madrid, Spain)

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Outra vez

Outra Vez

Composição : Isolda interpretado por Maria Bethânia

Você foi…
O maior dos meus casos
De todos os abraços
O que eu nunca esqueci

Você foi…
Dos amores que eu tive
O mais complicado
E o mais simples pra mim

Você foi…
O maior dos meus erros
A mais estranha história
Que alguém já escreveu

E é por essas e outras
Que a minha saudade
Faz lembrar
De tudo outra vez.

Você foi…
A mentira sincera
Brincadeira mais séria
Que me aconteceu

Você foi…
O caso mais antigo
E o amor mais amigo
Que me apareceu

Das lembranças
Que eu trago na vida
Você é a saudade
Que eu gosto de ter
Só assim!
Sinto você bem perto de mim
Outra vez…

Me esqueci!
De tentar te esquecer
Resolvi!
Te querer, por querer
Decidi te lembrar
Quantas vezes
Eu tenha vontade
Sem nada perder…

Ah!
Você foi!
Toda a felicidade
Você foi a maldade
Que só me fez bem
Você foi!
O melhor dos meus planos
E o maior dos enganos
Que eu pude fazer…

Das lembranças
Que eu trago na vida
Você é a saudade
Que eu gosto de ter
Só assim!
Sinto você bem perto de mim
Outra vez…

George Frederick Watts RA (1817-1904),Orpheus and Euridice.Óleo sobre tela, 56 x 76 cm.

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Custódio ficou um momento a olhar Afonso, com uma face desconsolada e a caixa de rapé aberta na mão; a irreligião daquele velho fidalgo, senhor de quase toda a freguesia, era uma das suas dores:

– A cartilha, sim, meu senhor, ainda que V. Exª. o diga assim como esse modo escarnica… A cartilha. Mas já não quero falar na cartilha… Há outras coisas. E se o digo tantas vezes, sr. Afonso da Maia, é pelo amor que tenho ao menino.

E recomeçou a discussão, que voltava sempre ao café, quando Custódio jantava na quinta.

O bom homem achava horroroso que  naquela idade um tão lindo moço, herdeiro duma casa tão grande, com futuras responsabilidades na sociedade, não soubesse a sua doutrina. E narrou logo ao Vilaça a história de d. Cecília Macedo: esta virtuosa senhora, mulher do escrivão, tendo passado diante do portão da quinta, avistara o Carlinhos, chamara-o, carinhosa e amiga de crianças como era, e pedira-lhe que lhe dissesse o ato de contrição. E que respondeu o menino? Que nunca em tal ouvira falar! Estas coisas entristeciam. E o sr. Afonso da Maia achava-lhe graça, ria-se! Ora ali estava o Vilaça, que podia dizer se era o caso para jubilar. Não, o sr. Afonso da Maia tinha muito saber, e correra muito mundo; mas duma coisa não podia convencer, a ele pobre padre que nem mesmo O Porto vira ainda, é que houvesse felicidade e bom comportamento na vida sem a moral do catecismo.

E Afonso da Maia respondia com bom humor:

– Então que lhe ensinava você, abade, se eu lhe entregasse o rapaz? Que se não deve roubar o dinheiro das algibeiras, nem mentir, nem maltratar os inferiores, porque isso é contra os mandamentos da lei de Deus, e leva ao inferno, hein? É isso?…

– Há mais alguma coisa…

– Bem sei. Mas tudo isso que você lhe ensinaria que não se deve fazer, por ser um pecado que ofende a Deus, já sabe ele que não se deve praticar, porque é indigno dum cavalheiro e dum homem de bem…

– Mas meu senhor…

– Ouça, abade. Toda a diferença é essa. Eu quero que o rapaz seja virtuoso por amor da virtude e honrado por amor da honra; mas não por medo às caldeiras de Pero Botelho, nem com o engodo de ir para o reino dos céu…

E acrescentou sorrindo:

– Mas o verdadeiro dever de homens de bem, abade, é quando vem, depois de semanas de chuva, um dia destes, ir respirar pelos campos e não estar aqui a discutir moral. Portanto arriba! e se o Vilaça não está muito cansado, vamos dar aí um giro pelas fazendas…

O abade suspirou como um santo que vê a negra impiedade dos tempos e Belzebu arrebatando as melhores reses do rebanho; depois olhou a chávena e sorveu com delícias o resto do seu café.” (QUEIRÓS, Eça de – Os Maias – Ateliê Cultural – 2001 p. 46-47)

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O culto dos nove heróis é uma das formas mais interessantes do ideal cavaleiresco que se encontra no final da Idade Média. Mostra claramente esse período que engloba o fim do medieval e o início do renascentismo. Há a exaltação dos ideais cavaleiresco, que, supostamente, regiam a moral da nobreza medieval. Era, digamos, o ideal perseguido (nunca alcançado), como se fosse uma fuga da realidade do caos incoerente das guerras e da política dos soberanos medievais. Então os altos ideais cavaleirescos, formados por belas vestimentas e sentimentos elevados foram elevados a um valor ético.

O que me chamou a atenção no culto dos nove é a reunião de três tríades de cavaleiros: três pagãos, três judeus e três cristãos.  São eles: Heitor de Tróia, Júlio César e Alexandre, o Grande; Josué, Davi e Judas Macabeu; Arthur da Bretanha, Carlos Magno e Godofredo de Bouillon. É o misto perfeito entre a reverência à Antiguidade, a religiosidade e ideal cristão da cavalaria.

Todos os nove tem ascendência nobre: Heitor é filho de Príamo, rei de Tróia. Júlio César nasceu em Roma no seio de uma antiga família de patrícios chamada Iulius. A sua ascendência, de acordo com a lenda, chegava a Iulus, filho do príncipe troiano Eneias e neto da deus Vênus. Alexandre III, o Magno ou o Grande  foi um príncipe e rei da Macdônia;era filho do Rei Filipe II e de Olímpia de Épiro.

Os heróis judeus são bíblicos. Josué também chamado Oséias ou Joshua foi o sucessor de Moisés.  Filho de Num da Tribo de Efraim, Josué foi ajudante de Moisés durante o êxodo dos israelitas do Egito e os 40 anos pelo deserto do Sinai. Depois da morte de Moisés, Josué liderou o povo de Israel na conquista das cidades-estados da terra de Canaã. E foi responsável por conduzir os israelitas à Terra Prometida. Davi ou David ganha notoriedade ao matar em combate o gigante guerreiro filisteu Golias, ganhando o direito de casar com a filha do rei Saul e a isenção de impostos. Depois da morte de Saul, Davi governou a tribo de Judá, enquanto o filho de Saul, Isboset governou o resto de Israel. Com a morte de Isboset, Davi foi escolhido o rei de toda Israel e seu reinado marca uma mudança na realidade dos judeus: de uma confederação de tribos, transformou-se em uma nação estabelecida. Judas Macabeu ou Judas, o Macabeu  foi o terceiro filho do sacerdote judeu Matatias. Liderou a revolta dos Macabeus contra o o Império Salêucida (167 a 160 a. C.). Seu epíteto, Macabeu, vem da palavra do siríaco maqqaba, “martelo”, e este nome foi-lhe concedido em reconhecimento pela sua bravura em combate. Morreu em Elasa  quando estava acampado com apenas três mil homens e foi ele cercado por um exército de 22 mil. Grande parte dos judeus, tomada de pânico, fugiu, deixando Judas com apenas 800 homens. Mesmo estes propuseram fugir para reorganizar o exército. Respondeu o Macabeu: “Longe de mim  fugir à vista deles. Se é chegada a nossa hora, morramos valorosamente por nossos irmãos, e não manchemos nossa glória com esta nódoa”. Apesar do pequeno número, Judas e os seus resistiram da manhã à tarde, até que o Macabeu foi envolvido pelas duas alas do exército inimigo e morto pelos adversários.

               (Os Nove Valorosos na antiga Câmara Municipal de Köln)

O primeiro dos heróis cristãos é Arthur da Bretanha, figura lendária britânica que teria comandado a defesa contra os invasores saxões chegados à Grã Bretanha no início do século VI. Apesar de sua ascendência pagã (filho de Uther, o Pedragon e Igraine) abraça o cristianismo por intermédio de sua esposa Guinevere e busca, com seus cavaleiros da Távola Redonda o Santo Graal.  Carlos Magno  foi sucessivamente rei dos Francos (de 771 a 814), rei dos Lombardos (a partir de 774), e ainda o primeiro Imperador do Sacro Império Romano (coroado em 25 de Dezembro de 800), restaurando assim o antigo Império Romano do Ocidente. Godofredo de Bouillon  foi um nobre, duque da Baixa Lorena 1087-1100), senhor de Bulhão (1076-1096), um dos líderes da Primeira Cruzada e o primeiro soberano do Reino Latino de Jerusalém, apesar de recusar o título de rei. Após a conquista de Jerusalém,  tomou o título de Advocatus Sancti Sepulchri (Protector do Santo Sepulcro), sendo responsável por este. Morreu em 18 de julho de 1100 e foi sepultado na Igreja do Santo Sepulcro.

(Matfré Ermengaud de Béziers (†1322). Lo Breviari d’Amor (c. 1288-1292). Catalunha (Lérida)

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Uma amiga querida, ex-aluna, kardecista, me disse com um tom carinhoso que eu ficaria melhor se abandonasse a minha incredulidade e acreditasse na reencarnação. Com a reencarnação tudo se explicaria.  O universo é lógico, tudo se encaixa, parece bordado, a gente vê o lado avesso, mas tem o direito que a gente não vê, tudo que parece ser desarmonia do lado de cá é harmonia do lado de lá. A certeza disso apazigua a alma. A gente sofre com resignação. O final feliz está sempre garantido.

Aí tive de esclarecer o equívoco sobre a minha religião.

“Pois saiba você que eu acredito muito na reencarnação. Faz muito tempo anunciei a minha conversão num artigo de nome esquisito: ‘oãçanracneeR’. Reencarnação ao contrário: não de trás para adiante, de diante para trás. O futuro não me interessa. Eu nunca o vivi, por isso não posso amá-lo. Não quero ir para o céu: o tempo infinito deve ser um tédio insuportável. E o mais terrível é não ter saída. O céu me dá claustrofobia. Além do que não quero evoluir. Muitas coisas não podem e não devem evoluir.: canto de sabiá, vermelho do sol poente, cheiro de café fresquinho, os poemas de Cecília Meireles, ipês floridos, a sonata Appassionata de Beethoven, uma jabuticaba madura…”

O que seria uma jabuticaba evoluída? Uma jabuticaba cúbica? Uma jabuticabeira florida e perfumada e, depois, coberta de esferas negras brilhantes e túrgidas, aquele “toc” que a jabuticaba faz quando a gente morde – esse objeto é perfeito, divino, sem passado e sem futuro, presente puro destinado à eternidade. Não posso imaginar que alguma evolução lhe possa ser acrescentada.

O que eu quero não é evoluir. O que eu quero é viver dee novo o passado que vivi, com muito mais intensidade, sem os sentimentos de culpa com que minha religião aprisionou o meu corpo, as minhas idéias e os meus sentimentos… Tenho tristeza pelos pecados que não cometi… Eram pecados tão inocentes… Estou até desconfiado de que Deus está me castigando, ele está me castigando porque eu não pequei o tanto que ele queria que eu pecasse. Tentei ser mais espiritual que o próprio Deus e ele ficou bravo comigo… Não acreditei na advertência de Lutero, escrevendo a Melanchton: “Deus não salva falsos pecadores. Seja um pecador e peque fortemente, mas creia e se alegre em Cristo mais fortemente ainda…” Meu pecado foi pecar com timidez… Tive medo de gozar a vida… Assim, quando são poucas as jabuticabas na minha tigela, rezo o meu Pai-Nosso herético – ou erótico: “O prazer nosso de cada dia dá-nos hoje…”. (in ALVES, Rubem – Do universo à jabuticaba – Planeta- 2010 p. 136/137)

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Quiero que sepas

una cosa.

Tú sabes cómo es esto:
si miro
la luna de cristal, la rama roja
del lento otoño en mi ventana,
si toco
junto al fuego
la impalpable ceniza
o el arrugado cuerpo de la leña,
todo me lleva a ti,
como si todo lo que existe:
aromas, luz, metales,
fueran pequeños barcos que navegan
hacia las islas tuyas que me aguardan.

Ahora bien,
si poco a poco dejas de quererme
dejaré de quererte poco a poco.

Si de pronto
me olvidas
no me busques,
que ya te habré olvidado.

Si consideras largo y loco
el viento de banderas
que pasa por mi vida
y te decides
a dejarme a la orilla
del corazón en que tengo raíces,
piensa
que en esa día,
a esa hora
levantaré los brazos
y saldrán mis raíces
a buscar otra tierra.

Pero
si cada día,
cada hora,
sientes que a mí estás destinada
con dulzura implacable,
si cada día sube
una flor a tus labios a buscarme,
ay amor mío, ay mía,
en mí todo ese fuego se repite,
en mí nada se apaga ni se olvida,
mi amor se nutre de tu amor, amada,
y mientras vivas estará en tus brazos
sin salir de los míos.”


 

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Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.
Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enloqueceu, enloquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?
Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.
Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.”

 

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