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Archive for maio \25\UTC 2011

“Se você é deste século, já sabe que há duas tribos que definem o que é um relacionamento moderno.
Uma é a tribo dos ficantes. O ficante é o cara que te namora por duas horas numa festa, se não tiver se inscrito no campeonato “Quem pega mais numa única noite”, quando então ele será seu ficante por bem menos tempo — dois minutos — e irá à procura de outra para bater o próprio recorde. É natural que garotos e garotas queiram conhecer pessoas, ter uma história, um romance, uma ficada, duas ficadas, três ficadas, quatro ficadas… Esquece, não acho natural coisa nenhuma. Considero um desperdício de energia.

Pegar sete caras. Pegar nove “mina”. A gente está falando de quê, de catadores de lixo? Pegar, pega-se uma caneta, um táxi, uma gripe. Não pessoas. Pegue-e-leve, pegue-e-largue, pegueeuse, pegue-e-chute, pegue-e-conte-para-os-amigos.

Pegar, cá pra nós, é um verbo meio cafajeste. Em vez de pegar, poderíamos adotar algum outro verbo menos frio. Porque, quando duas bocas se unem, nada é assim tão frio, na maioria das vezes esse “não estou nem aí” é jogo de cena. Vão todos para a balada fingindo que deixaram o coração em casa, mas deixaram nada. Deixaram a personalidade em casa, isso sim.

No entanto, quem pode contra o avanço (???) dos costumes e contra a vulgarização do vocabulário? Falando nisso, a segunda tribo a que me referia é a dos namoridos, a palavra mais medonha que já inventaram. Trata-se de um homem híbrido, transgênico.

Em tese, ele vale mais do que um namorado e menos que um marido. Assim que a relação começa, juntam-se os trapos e parte-se para um casamento informal, sem papel passado, sem compromisso de estabilidade, sem planos de uma velhice compartilhada — namoridos não foram escolhidos para serem parceiros de artrite, reumatismo e pressão alta, era só o que faltava.

Pois então. A idéia é boa e prática. Só que o índice de príncipes e princesas virando sapo é alta, não se evita o tédio conjugal (comum a qualquer tipo de acasalamento sob o mesmo teto) e pula-se uma etapa quentíssima, a melhor que há.

Trata-se do namoro, alguns já ouviram falar. É quando cada um mora na sua casa e tem rotinas distintas e poucos horários para se encontrar, e esse pouco ganha a importância de uma celebração.

Namoro é quando não se tem certeza absoluta de nada, a cada dia um segredo é revelado, brotam informações novas de onde menos se espera. De manhã, um silêncio inquietante. À tarde, um mal-entendido. À noite, um torpedo reconciliador e uma declaração de amor.

Namoro é teste, é amostra, é ensaio, e por isso a dedicação é intensa, a sedução é ininterrupta, os minutos são contados, os meses são comemorados, a vontade de surpreender não cessa — e é a única relação que dá o devido espaço para a saudade, que é fermento e afrodisíaco. Depois de passar os dias se vendo só de vez em quando, viajar para um fim de semana juntos vira o céu na Terra: nunca uma sexta-feira nasce tão aguardada, nunca uma segunda-feira é enfrentada com tanta leveza.

Namoro é como o disco “Sgt. Peppers”, dos Beatles: parece antigo e, no entanto, não há nada mais novo e revolucionário. O poeta Carlos Drummond de Andrade também é de outro tempo e é para sempre. É ele quem encerra esta crônica, dando-nos uma ordem para a vida: “Cumpra sua obrigação de namorar, sob pena de viver apenas na aparência. De ser o seu cadáver itinerante”.

(Martha Medeiros (Porto Alegre 20 de agosto de 1961) é uma jornalista e escritora e 
colunista do jornal Zero Hora de Porto Alegre, e do O Globo do Rio de Janeiro.)

(Cenas do Filme Possessão (Possession) 2001 dirigido por Neil LaBute)
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(Early Sailing Ship 1850’s by Gordon Grant)

“Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear…

No movimento (eu mesmo me desloco
nesta cadeira, só de o imaginar)
o mar abandonado fica em foco
nos músculos cansados de parar.

Há saudades nas pernas e nos braços.
Há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.

Mas — esta é boa! — era do coração
que eu falava… e onde diabo estou eu agora
com almirante em vez de sensação? … ”

Álvaro de Campos, in “Poemas”
Heterónimo de Fernando Pessoa

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            (Starlight over the Rhone, 1888 by Vincent Van Gogh)

SÃO VELHAS AS ESTRELAS, e elas são

Grandes. Velho e pequeno é o coração,

E contém mais do que as estrelas todas,

Sendo, sem espaço, mais que a imensidão.”

(não datada)

in Fernando Pessoa – Poesia 1931-1935 e não datada. São Paulo. Companhia das Letras. 2009 p. 496-497

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A um passarinho

“Para que vieste
Na minha janela
Meter o nariz?
Se foi por um verso
Não sou mais poeta
Ando tão feliz!
Se é para uma prosa
Não sou Anchieta
Nem venho de Assis.

Deixa-te de histórias
Some-te daqui!”

in Poemas, sonetos e baladas
in Antologia Poética
in Poesia completa e prosa: “O encontro do cotidiano”

(Wisteria in Provence de Jeanne Rosier Smith)


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William Turner. Snow Storm: Hannibal and His Army Crossing the Alps. 1812. Oil on canvas. Tate Gallery, London, UK.

Cântico negro

(post em homenagem à Dra. Maria Noeli Faé, amiga a quem encontro no café e em aeroportos, sempre disposta a discutir arte, poesia, filosofia e dividir o seu grande conhecimento com generosidade.)

“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!”


José Régio
pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira, nasceu em Vila do Conde em 1901. Licenciado em Letras em Coimbra, ensinou durante mais de 30 anos no Liceu de Portalegre. Foi um dos fundadores da revista “Presença”, e o seu principal animador. Romancista, dramaturgo, ensaísta e crítico, foi, no entanto, como poeta. que primeiramente se impôs e a mais larga audiência depois atingiu. Com o livro de estréia — “Poemas de Deus e do Diabo” (1925) — apresentou quase todo o elenco dos temas que viria a desenvolver nas obras posteriores: os conflitos entre Deus e o Homem, o espírito e a carne, o indivíduo e a sociedade, a consciência da frustração de todo o amor humano, o orgulhoso recurso à solidão, a problemática da sinceridade e do logro perante os outros e perante a si mesmos.

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Quem acompanhou o casamento real inglês no último dia 29 de abril pode observar que o Príncipe William usou a insígnia da Ordem da Jarreteira. As origens dessa Ordem remontam a Idade Média, seus nobres ideais cristãos, as cruzadas e essa necessidade dos homens (que existe desde os povos selvagens) de reunir-se em bandos. Claro, há além da religiosidade e dos nobres ideais um forte conteúdo político envolvido.

As primeiras Ordens advieram da aliança entre o ideal monástico e o cavaleiresco numa época em que a luta contra os mouros era uma realidade.

A Mais Nobre Ordem da Jarreteira, Também Conhecida como Ordem da Jarreteira, cuja tradução para o português mais correta seria antes Ordem da Liga (em inglês Order of the Garter) tal como em português tem o mesmo significado. Tanto é assim que em Portugal era primitivamente chamada Ordem da Garrotea que significava “Ordem do Laço” (ordem do garrote). Só assim se explica que esta ordem militar, criada por Eduardo III da Inglaterra com o espírito medieval de então e baseada nos nobres ideais da demanda ao santo Graal  e da corte do Rei Arthur da Bretanha, seja vista como a mais importante comenda do sistema honorífico do Reino Unido até aos dias de hoje.  Foi criada para destacar os esforços da Inglaterra e aliados, nos quais se destacam nobres e reis portugueses, para conquistar a Terra Santa e um  “Império Cristão” nas subsequentes cruzadas.

Jarreteira é uma fita ou tecido elástico usado para sustentar a meia; uma espécie de liga.  A palavra vem de “jarrete”, a parte da perna que fica atrás do joelho. Seu nome original que traduzia uma estreita “liga entre homens” ou um apertado “enlace entre homens”, através de um pacto entre pares nobres e amigos, trocado por uma ordinária liga para segurar as meias, advém de uma fantasiosa história,que está associada à criação desta Ordem, possivelmente com a pretensão de a denegrir e aos movimentos ou pessoas que a defendiam e aos seus ideais cavalheirescos. Uma das lendas sobre a Ordem da Jarreteira conta que Eduardo III estava dançando com a Condessa de Salisbury numa grande festa da corte, quando esta deixou cair a sua liga (ou melhor dizendo jarreteira). O rei apanhou-a do chão e a amarrou de volta à perna e então reparou que os presentes os fitavam com sorrisos e murmúrios. Irado, exclamou: ‘Honni soit qui mal y pense’ (“envergonhe-se quem nisto vê o mal”), frase que se tornou o lema da ordem; disse ele ainda que tornaria aquela pequena jarreteira azul tão gloriosa que todos a haveriam de desejar. Sendo esta história verdadeira ou não, a Ordem da Jarreteira foi, de facto, criada por Eduardo III, o seu símbolo é uma jarreteira azul escuro, de rebordo dourado, em que aparecem inscritas, em francês, as palavras ditas pelo rei.

Outra possibilidade, apresentada por alguns, é que a Ordem tenha tomado o seu nome do pendente ou jóia mostrada tradicionalmente nas representações de São Jorge. A insígnia da Ordem inclui um colar e uma insígnia pendurada, conhecida como Jorge, de ouro e esmalte, em que aparece São Jorge a cavalo, matando o dragão. Ainda existe uma segunda medalha, conhecida como Jorge menor.

O monarca reinante do Reino Unido é, enquanto soberano, sempre o grão mestre da Ordem. Isso e desde a sua fundação, até 1786. Tal tradição remete à Távola Redonda do rei Arthur,na qual havia uma liga de 25 cavaleiros apenas nos quais ele se incluía. Hoje, além do grão-mestre existem os cavaleiros reais (nos quais se inclui sempre o Príncipe de Gales, podendo o monarca ainda nomear vários membros da família real, os cavaleiros extranumerários (vários monarcas reinantes de países estrangeiros nomeados pelo monarca britânico) e os cavaleiros ou damas-companheiras (24 personalidades nomeadas pelo monarca britânico).

As nomeações são vitalícias e intransmissíveis (não são hereditárias). Quando falece um cavaleiro-companheiro os demais têm o dever de propor nomes de personalidades que considerem deter suficiente honra e merecimento para ocupar a vaga do falecido; contudo, a decisão final relativa à nomeação cabe de forma exclusiva e livre ao monarca britânico. Os cavaleiros são nomeados a 23 de Abril, dia de São Jorge, e o dia está associado com uma rosa vermelha, embora a cor de São Jorge seja azul, e é tradição vestir algo azul para a cerimônia. Nessa ocasião, deverá usar-se a jarreteira na perna esquerda, logo abaixo da cintura.

Os antigos arquivos da Ordem foram destruídos pelo fogo, embora se pense que em 1344 ou 1348 o rei Eduardo III tenha proclamado São Jorge como patrono da Inglaterra. Apesar do seu culto ter sido proibido à época da reforma, a capela de São Jorge, em Windsor manteve-se como sede da Ordem.

Alguns personagens históricos importantes para o Brasil tiveram a honra de serem agraciados com esta ordem.  Dom João VI é um deles, mas o mais famoso membro da  Ordem da Jarreteira foi o imperador Dom Pedro II. Os trajes e a condecoração da Ordem da Jarreteira a ele pertencentes estão em exposição no Museu Imperial, em  Petrópolis.

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“O cara diz que te ama, então tá. Ele te ama.

Sua mulher diz que te ama, então assunto encerrado.

Você sabe que é amado porque lhe disseram isso, as três palavrinhas mágicas. Mas saber-se amado é uma coisa, sentir-se amado é outra, uma diferença de milhas, um espaço enorme para a angústia instalar-se.

A demonstração de amor requer mais do que beijos, sexo e verbalização, apesar de não sonharmos com outra coisa: se o cara beija, transa e diz que me ama, tenha a santa paciência, vou querer que ele faça pacto de sangue também?

Pactos. Acho que é isso. Não de sangue nem de nada que se possa ver e tocar. É um pacto silencioso que tem a força de manter as coisas enraizadas, um pacto de eternidade, mesmo que o destino um dia venha a dividir o caminho dos dois.

Sentir-se amado é sentir que a pessoa tem interesse real na sua vida, que zela pela sua felicidade, que se preocupa quando as coisas não estão dando certo, que sugere caminhos para melhorar, que coloca-se a postos para ouvir suas dúvidas e que dá uma sacudida em você, caso você esteja delirando. “Não seja tão severa consigo mesma, relaxe um pouco. Vou te trazer um cálice de vinho”.

Sentir-se amado é ver que ela lembra de coisas que você contou dois anos atrás, é vê-la tentar reconciliar você com seu pai, é ver como ela fica triste quando você está triste e como sorri com delicadeza quando diz que você está fazendo uma tempestade em copo d´água. “Lembra que quando eu passei por isso você disse que eu estava dramatizando? Então, chegou sua vez de simplificar as coisas. Vem aqui, tira este sapato.”

Sentem-se amados aqueles que perdoam um ao outro e que não transformam a mágoa em munição na hora da discussão. Sente-se amado aquele que se sente aceito, que se sente bem-vindo, que se sente inteiro. Sente-se amado aquele que tem sua solidão respeitada, aquele que sabe que não existe assunto proibido, que tudo pode ser dito e compreendido. Sente-se amado quem se sente seguro para ser exatamente como é, sem inventar um personagem para a relação, pois personagem nenhum se sustenta muito tempo. Sente-se amado quem não ofega, mas suspira; quem não levanta a voz, mas fala; quem não concorda, mas escuta.

Agora sente-se e escute: eu te amo não diz tudo.”

(cenas dos filmes O diário de uma paixão, De-Lovely, O amor nos tempos do cólera e novamente O diário de uma paixão)

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