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Archive for setembro \29\UTC 2011

Crença

Para nada importa a existência ou não das coisas

“Mas todos vós, que tendes algumas noções, mesmo incertas, de metafísica, conheceis o grande princípio de Kant. Este ultraprofundo filósofo estabeleceu que para nada importa a existência ou não existência das coisas – e só importa a crença ou não crença que os homens têm nas coisas. Assim, é perfeitamente indiferente que Cristo, como Cristo, existisse realmente numa província romana que se chamava Judeia – o que importa, e importou para a transformação do Mundo, foi que os homens acreditassem na existência de Cristo.”

Eça de Queiroz                                                                                          Cartas de Paris

(in Citações e Pensamentos de Eça de Queiroz/ Paulo Neves da Silva (org.) – São Paulo: Leya, 2011 p. 106)

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“Estou quase convencido de que nunca estou desperto. Não sei se não sonho quando vivo, se não vivo quando sonho, ou se o sonho e a vida não são em mim coisas mistas, interseccionadas, de que meu ser consciente se forme por interpenetração.

As vezes, em plena vida activa, em que, evidentemente, estou tão claro de mim como todos os outros, vem até à minha suposição uma sensação estranha de dúvida; não sei se existo, sinto possível o ser um sonho de outrem, afigura-se-me, quase carnalmente, que poderei ser personagem de uma novela, movendo-me, nas ondas longas de um estilo, na verdade feita de uma grande narrativa.
Tenho reparado, muitas vezes, que certas personagens de romance tomam para nós um relevo que nunca poderiam alcançar os que são nossos conhecidos e amigos, os que falam connosco e nos ouvem na vida visível e real. E isto faz com que sonhe a pergunta se não será tudo neste total de mundo uma série entreinserta de sonhos e romances, como caixinhas dentro de caixinhas maiores – umas dentro de outras e estas em mais -, sendo tudo uma história com histórias, como as Mil e Uma Noites, decorrendo falsa na noite eterna.
Se penso, tudo me parece absurdo; se sinto, tudo me parece estranho; se quero, o que quer é qualquer coisa em mim. Sempre que em mim há acção, reconheço que não fui eu. Se sonho, parece que me escrevem. Se sinto, parece que me pintam. Se quero, parece que me põem num veículo, como a mercadoria que se envia, e que sigo com um movimento que julgo próprio para onde não quis que fosse senão depois de lá estar.
Que confusão é tudo! Como ver é melhor que pensar, e ler melhor que escrever! O que vejo, pode ser que me engane, porém não o julgo meu. O que leio, pode ser que me pese, mas não me perturba o tê-lo escrito. Como tudo dói se o pensamos como conscientes de pensar, como seres espirituais em quem se deu aquele segundo desdobramento da consciência pelo qual sabemos que sabemos! Embora o dia esteja lindíssimo, não posso deixar de pensar assim… Pensar ou sentir, ou que coisa terceira entre os cenários postos de parte? Tédios do crepúsculo e do desalinho, leques fechados, cansaço de ter tido que viver…”

 Livro do Desassossego : composto por  Bernando Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa/ Fernando Pessoa; organização Richard Zenith – São Paulo: Companhia das Letras, 2006 p. 280/281

Bernardo Soares é um tipo particular dentre os heterônimos do poeta e escritor português Fernando Pessoa. É o autor do Livro do Desassossego, escrito em forma de fragmentos. Apesar de fragmentário, o livro é considerado uma das obras fundadoras da ficção portuguesa no século XX, ao encenar na linguagem categorias várias que vão desde o pragmatismo da condição humana até o absurdo da própria literatura. Bernardo Soares é, dentro da ficção de seu próprio livro, um simples ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. É considerado um semi-heterónimo porque, como seu próprio criador explica “não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e afectividade.”

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Às 16h05 de 19 de setembro de 1887 nascia na cidade do Porto Ricardo Reis, um dos heterônimos mais conhecidos de Fernando Pessoa.

Recebeu uma forte educação clássica num colégio de jesuítas e formou-se em Medicina, profissão que exerce. Vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontaneamente por ser monárquico, na sequência da derrota da rebelião monárquica do Porto contra o regime republicano. É um latinista por educação, e um semi-helenista por educação própria.

Reis é discípulo de Alberto Caeiro, admira a serenidade e a calma com que este encara a vida, por isso, inspirado pela clareza, pelo equilíbrio e ordem do seu espírito clássico greco-latino, procura atingir a paz e o equilíbrio sem sofrer, através da autodisciplina e das doutrinas gregas: Epicurismo

Doutrina baseada num ideal de sabedoria que busca a tranquilidade da alma através das seguintes regras:

Epicurismo

  • Não temer a morte – Levando o poeta ao Fatalismo, tendo a morte como única certeza na vida.
  • Procurar os simples prazeres da vida em todos os sentidos, sem preocupações com o futuro – carpe diem, mas sem excessos – Deste modo aprende a viver cada instante como se fosse o último; e faz da vida simples campestre um ideal (aurea mediocritas);
  • Fugir à dor – Como defesa contra o sofrimento, sobrepõe a razão sobre a emoção.   

Estoicismo

Doutrina que tem como ideal ético a apatia – ausência de envolvimento emocional excessivo que permite a liberdade – , e que propõe as seguintes regras para alcançar a felicidade (relativa, pois não pretende um estado de alegria mas sim de um contentamento inconsciente):

  • Dominar as paixões – Suscita uma atitude de indiferença; Recusa o amor para evitar ter desilusões, de modo a que nada perturbe a serenidade e a razão, e porque este é uma inutilidade e está já condenado, uma vez que tudo na vida tem um fim;
  • Aceitar a ordem universal das coisas, incluindo a morte – Revela a faceta conformista, considerando a vida como efêmera, um fluir para a morte e essa consciência não lhe gera nem angústia nem revolta.

Reis admite a limitação e a fatalidade desta condição humana, e pretende chegar à morte de mãos vazias de modo a não ter nada a perder; e inspirado na mitologia clássica, considera a vida como uma viagem cujo fluir e fim é inevitável.

“Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.”

(Ricardo Reis 14-2-1933)

Antes de nós

“Antes de nós nos mesmos arvoredos
Passou o vento, quando havia vento,
E as folhas não falavam
De outro modo do que hoje.

Passamos e agitamo-nos debalde.
Não fazemos mais ruído no que existe
Do que as folhas das árvores
Ou os passos do vento.

Tentemos pois com abandono assíduo
Entregar nosso esforço à Natureza
E não querer mais vida
Que a das árvores verdes.

Inutilmente parecemos grandes.
Salvo nós nada pelo mundo fora
Nos saúda a grandeza
Nem sem querer nos serve.

Se aqui, à beira-mar, o meu indício
Na areia o mar com ondas três o apaga,
Que fará na alta praia
Em que o mar é o Tempo?”

(Ricardo Reis 08-10-1914)

“Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.

(Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer nao gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassosegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento –
Este momento em que sossegadamente nao cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-as de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim – à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.”

(Ricardo Reis 12-06-1914)

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“…Mesmo na Europa, pudor de sentimento & pudor corporal tinham significados diferentes entre os diferentes grupos: ricos ou pobres, homens ou mulheres.

(Pietro Santi Bartoli (1635-1700)-‘thermae Agrippae (hot baths of Agrippa)’-etching and engraving-1699 in Romane Magnitudinis Monumenta )

O banho, por exemplo. Ele gozou de grande prestígio entre as civilizações antigas e estava associado ao prazer: vide as termas romanas. Durante o Império, os banhos públicos multiplicaram-se e muitos se tornaram locais de prostituição. Eram chamados “banhos bordéis”, onde as “filhas do banho” ofereciam os seus serviços. Os primeiros cristãos, indignados com a má frequentação, consideravam que uma mulher que fosse aos banhos poderia ser repudiada. O código Justianiano deu respaldo à ação. Concílio após concílio, tentava-se acabar com eles. Proibido aos religiosos, sobretudo quando jovens, abster-se de banho se tornou sinônimo de santidade. Santa Agnes privou-se deles toda a vida. Ordens monásticas os proibiam aos seus monges. O batismo cristão, antes uma cerimônia comunitária de imersão, transformou-se numa simples aspersão.

Contudo, é importante lembrar que, apesar dos prazeres oferecidos pela água, gestos de pudor estavam sempre presentes. Durante a Idade Média, homens e mulheres não se banhavam juntos, salvo nos prostíbulos. Ambos cobriam as partes pudendas. Eles, com um tipo de calção. Elas, com um vestido fino e comprido. Regulamentos austeros coibiam horários e orientavam o uso das estufas. Era terminantemente proibido, por exemplo, que homens entrassem nos banhos femininos e vice-versa. Não faltavam ilustrações – em miniaturas e gravuras – sobre o voyerismo, capaz de quebrar as severas regras que controlavam tais espaços.

Segundo alguns autores, enquanto nossos índios davam exemplo de higiene, banhando-se nos rios, os europeus eram perseguidos pelas leis das reformas católica e protestante que lhes interditavam nadar nus. A visão de rapazes dentro dos rios, mergulhando e nadando em trajes de Adão, causava escândalo, quando não penalidades e multas.

A nudez e a poligamia dos índios ajudavam a demonizar sua imagem. Considerados não civilizados, a tentativa dos jesuítas em cobri-los resultou, muitas vezes, em situações cômicas, como a relatada por padre Anchieta:

“Os índios da terra de ordinário andam nus e quando muito vestem alguma roupa de algodão ou pano baixo e nisto usam de primores a seu modo, porque um dia saem  com gorro, carapuça ou chapéu na cabeça e o mais nu; outro dia saem com seus sapatos ou botas e o mais nu […] e se vão passear somente com o gorro na cabeça sem outra roupa e lhes parece que vão assim mui galantes.” (Histórias íntimas – Mary del Priore: sexualidade e erotismo na história do Brasil – São Paulo: Editora Planeta do Brail, 2011 – p. 19/20)

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How can I just let you walk away,
Just let you leave without a trace?
When I stand here taking every breath
With you, hmm hmm
You’re the only one
Who really knew me at all
How can you just walk away from me?
When all I can do is watch you leave
‘Cause we shared the laughter and the pain
And even shared the tears
You’re the only one
Who really knew me at all
So, take a look at me now
‘Cause there’s just an empty space
And there’s nothing left here to remind me
Just the memory of your face
So, take a look at me now
When there’s just an empty space
And you’re coming back to me
Is against all odds
And that’s what I’ve got to face
I wish I could just make you turn around
Turn around to see me cry
There’s so much I need to say to you
So many reasons why
You’re the only one who really knew me at all
So, take a look at me now
‘Cause there’s just an empty space
And there’s nothing left here to remind me
Just the memory of your face
So take a look at me now
Still there’s just an empty space
But to wait for you is all I can do
And that’s what I’ve got to face
Take a good look at me now
‘Cause I’ll still be standing here
And you comin’ back to me
Is against all odds
It’s the chance I’ve got to take…
Hey yeah
Take a look at me now
 (“Against All Odds (Take a Look at Me Now)” foi composta e originalmente gravada por Phil Collins em 1983. A música é o tema principal da trilha sonora do  filme homônimo”Against All Odds” (Paixões Violentas no Brasil), de 1984. Foi indicada ao Oscar na categoria de melhor canção de 1985.

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O coração humano deve apenas sentir uma única afeição, sempre moça e sempre imutável, preenchendo toda a vida, e sendo, por assim dizer, a vida ela mesma. Somente essa idéia é puramente literária: isto é, é uma ideia criada por nós outros, artistas, e pelos poetas, para apresentar a vida não como ela é, mas como deveria ser para que tivesse uma beleza absoluta e quase divina. É pois verdadeiramente uma ideia ideal – e não corresponde de modo nenhum aos fatos da natureza. Nunca houve numa vida única uma afeição única: e se não parece que há casos em que houve é que essa vida vida não durou o bastante para que a desilusão e a mudança se produzissem, ou quando se produziram ficaram orgulhosamente guardadas no segredo do coração que as sentiu.  Desde que há mundo, a história de todo o coração forte e leal é sempre a mesma. O coração começa por despertar, e necessitar afeição, como o resto do corpo precisa alimento: à primeira emoção que sente, ou que lhe fazem sentir, fica deslumbrado de alegria, vê chegado o alimento apetecido, triunfa, imagina que vai ficar satisfeito para sempre e que c´est fini. Depois, à menor desilusão que sente, um belo dia, ou que lhe fazem sentir, sente uma estranha mudança em si, e fica pasmado, fica aflito, vendo que esse sentimento que parecia eterno, que parecia ter raízes até às profundidades do ser (e que não tinha raízes nenhumas) se evapora, desaparece como um pouco de fumo. Lágrimas: vontade de morrer: juramento sincero de nunca mais amar etc. Depois, numa manhã, por qualquer motivo o coração que se julgava tristemente uma folha seca percebe que tem ainda em si vida, calor, capacidade de querer. Começa a nova afeição.  Somente esta não aparece com os mesmos sintomas das primeiras: não vem com a mesma exaltação, o mesmo fogacho, o mesmo ardor de sacrifício; pelo contrário, parece serena, e ordinariamente apresenta-se com as formas da amizade de da simples admiração. O coração mesmo às vezes diz para si, baixinho e desconsolado – “oh ce n´est plus la même chose!” Espera um bocadinho, coração, e tu verás!  E com efeito essa calma, fria afeição vai penetrando, vai-se enraizando, vai-se aquecendo e aquecendo tudo em redor, torna-se forte, torna-se dominante, mistura-se a cada pensamento, enlaça-se a cada emoção, abrasa a alma – e essa é que dura, e que acompanha a vida toda.”

Correspondência (1885)

in Citações e Pensamentos de Eça de Queiroz/Paulo Neves da Silva (org.) – São Paulo: Leya, 2011, p. 85/86

(On The Beach ,Eduard Manet, 1873, Private collection)

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