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Archive for novembro \28\UTC 2011

Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos 
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado,
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até à exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.

Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,

a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.
No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.”

Carlos Drummond de Andrade, in ‘As Impurezas do Branco’

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Vou-me Embora pra Pasárgada

Manuel Bandeira


“Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada


Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconseqüente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d’água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcalóide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.”


Texto extraído do livro “
Bandeira a Vida Inteira“, Editora Alumbramento – Rio de Janeiro, 1986, pág. 90

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“No poema

e nas nuvens,

cada qual descobre

o que deseja ver.” (Helena Kolody)

“Praia” 1939 – Fernando Calderari

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Quando, algum tempo atrás, matriculei minha filha na aula de piano eu visava algumas coisas para ela. Eu recém havia me separado e uma ruptura desse calibre é algo doloroso para todos os envolvidos. Mas para o fruto da união que se rompeu, pelo menos me parece, é mais dolorido. Só posso falar como expectadora, pois não vivi essa experiência. Mas vi a dor nos olhos azuis da minha pequena. Vi como ela queria ser leal a ambos os pais e como isso era impossível. Vi a dúvida do amor dos pais, pois, se eles não se amavam mais, será que ainda irão amar algo que é parte do outro de quem quero tão desesperadoramente me apartar? Vendo tudo isso se passar dentro dela enquanto ela tentava aparentar uma tranquilidade impossível me dilacerava. Pensei que a música seria uma boa válvula de escape.

E foi. Ela amou logo de cara as aulas de piano. Agora o que não sei dizer é se a paixão foi pelo piano, pela música ou pela professora. Talvez por tudo, mas a professora teve um papel fundamental nisso tudo. Ela é uma dessas pessoas raras, sensível mas não melosa; divertida mas não permissiva; culta e humilde; enfim uma combinação tão completa e complexa de virtudes que é impossível não apaixonar-se por ela em menos de dois minutos.

Minha pequena já estuda com ela há aproximadamente dois anos. Está indo muito bem. Orgulha-se das músicas que toca. Hoje eu fui levá-la e fiquei assistindo a aula. Elas tocaram Bibidi-Bobidi-Boo- tema da Cinderella da Disney. Tocaram La cucaracha e The Bagpipe. Eu não sei se ela se tornará uma concertista, mas tenho certeza que sempre será uma amante da boa música.

Marilza Favorito você é um tesouro. É uma daquelas pessoas raríssimas com as quais topamos na vida sem querer e depois nos perguntamos: Como me foi possível viver sem isso antes? O nome da sua escola não poderia ser mais certo. Magia musical é o que você faz conosco. Nos encanta não só com as suas músicas, mas com a sua pessoa. Eu lhe sou muito grata por tudo o que ensinou para a minha filha e para mim.

 

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O Anjo Mais Velho

“O dia mente a cor da noite

E o diamante a cor dos olhos
Os olhos mentem dia e noite a dor da gente

Enquanto houver você do outro lado
Aqui do outro eu consigo me orientar
A cena repete a cena se inverte
Enchendo a minha alma daquilo que outrora eu deixei de acreditar

Tua palavra, tua história
Tua verdade fazendo escola
E tua ausência fazendo silêncio em todo lugar

Metade de mim
Agora é assim
De um lado a poesia o verbo a saudade
Do outro a luta, a força e a coragem pra chegar no fim
E o fim é belo incerto… depende de como você vê
O novo, o credo, a fé que você deposita em você e só

Só enquanto eu respirar
Vou me lembrar de você
Só enquanto eu respirar..

Enquanto houver você do outro lado
Aqui do outro eu consigo me orientar
A cena repete a cena se inverte
Enchendo a minha alma d’aquilo que outrora eu deixei de acreditar

Tua palavra, tua história
Tua verdade fazendo escola
E tua ausência fazendo silêncio em todo lugar

Metade de mim
Agora é assim
De um lado a poesia o verbo a saudade
Do outro a luta, a força e a coragem pra chegar no fim
E o fim é belo incerto… depende de como você vê
O novo, o credo, a fé que você deposita em você e só

Só enquanto eu respirar
Vou me lembrar de você
Só enquanto eu respirar..

Metade de mim
Agora é assim
De um lado a poesia o verbo a saudade
Do outro a luta, a força e a coragem pra chegar no fim
E o fim é belo incerto… depende de como você vê
O novo, o credo, a fé que você deposita em você e só

Só enquanto eu respirar
Vou me lembrar de você
Só enquanto eu respirar..

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Sou uma grande fã de Tim Burton. Devo ser sincera e creditar à minha irmã gêmea essa paixão. Ela tem um gosto mais gótico do que o meu. Eu sou muito mais romântica que gótica. Mas, dada a grande afinidade que eu e minha irmã temos, ela me converteu parcialmente ao seu gosto gótico e acabou gostando do meu romantismo. Exemplo disso foi o livro que recentemente eu dei à ela da Jane Austen (e ela adorou) – Northanger Abbey. Ok. Esse não vale pois é meio gótico… Mas como é uma mistura dos dois estilos nos abrange.

Voltando ao Tim Burton, foi a minha irmã que me apresentou ao mundo fantástico de filmes sensacionais como Peixe Grande e Edward Mãos de Tesoura. Confesso que este último eu já havia assistido antes, mas sem nem me dar conta que era obra dele. Assisti novamente e foi ainda melhor quando liguei o diretor ao filme.

Bom, não fiquei assim tão fã do gótico a ponto de gostar de A lenda do cavaleiro sem cabeça, mas sou absolutamente apaixonada por seus filmes em Stop-motion.  O estranho mundo de Jack entrou na minha vida quando minha filha era bem pequenininha e adoramos a sua história, com seus personagens cadáveres, monstruosos e cheios de sentimentos e emoções. Penso que ela tinha uns três para quatro anos quando assistimos A noiva cadáver. Ela era tão pequena que pedia: “Tia, põe o filme da Noiva Abracadabra de novo para mim?”

O filme é genial. Mas também é obscuro, um pouco triste e mostra sem piedade a crueldade humana em várias das suas histórias secundárias. A morte do cocheiro é uma delas. Mas eu queria falar mesmo era dos votos do casamento que Victor deveria decorar. Eles são importantíssimos para a história em si, pois se ele não fosse praticar os votos no cemitério não existiria a noiva cadáver.

OK, ok, não vou estragar toda a história para quem não viu o filme. Vou me restringir aos votos. Eles são tão tocantes que ao prestar atenção só à eles eu e a minha irmã fomos às lágrimas. Eles mostram a essência do que deveria ser o casamento verdadeiro, sabe qual, não é? É aquele no qual não se juntam só os corpos, as contas e as escovas de dentes. É aquele no qual as almas se juntam e se tornam cúmplices. E nesse tipo de união, creio que nem a morte consegue separar.

“Com esta mão espantarei as suas tristezas;

Sua taça jamais ficará vazia, pois eu serei o seu vinho;

Com esta vela iluminarei o seu caminho na escuridão;

E com esta aliança eu lhe peço que seja minha.

Digam, sinceramente, que mulher resistiria?

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Um impromptu é uma forma musical livre com caráter de improvisação.  O nome do filme fala muito sobre o conhecido romance do renomado músico Frédéric Chopin e a escritora George Sand. Esse romance não foi algo cultivado, e que aos poucos  floresceu. Foi um sentimento avassalador que tomou conta de George Sand de forma inesperada, exatamente como um improviso. O roteiro foi  escrito por Sarah Kernochan, e o filme  dirigido por James Lapine, produzido por Daniel A. Sherkow e Stuart Oken e estrelado por Hugh Grant, como Chopin, e Judy Davis, como George Sand. Conta ainda com a participação de Emma Thompson. 

A fotografia é bela, mas a trilha sonora que conta com as músicas de Chopin, Lizst e Beethoven é espetacular. O filme valeria a pena só para ouvir as belas obras desses grandes gênios da música. Mas o filme é muito mais do que uma bela fotografia e uma trilha sonora de tirar o fôlego. Mostra a perspectiva de George Sand e o seu esforço por conquistar o retraído e frágil compositor. Ela que sempre fora um espírito livre e forte, e embora fizesse parte da aristocracia escolheu romper com suas origens, usar roupas e nome de homem e escrever; apaixonou-se por esse homem delicado e sua música maravilhosa. Mostra também que Paris era o centro da arte e da cultura da época. A amizade entre Chopin, Lizst e Delacroix é algo extraordinário, três grandes gênios amigos. Você conseguiria imaginar um círculo de amigos assim nos dias de hoje?

Mas o que me impressionou no filme foi essa paixão desesperada que George Sand sente por Chopin, mesmo sem conhecê-lo bem pessoalmente. Ele conquistou o seu espírito primeiro com a sua música. Conquistar não é o termo mais adequado, seria melhor enfeitiçar mesmo. Ela foi atraída de maneira irresistível por aquele jovem compositor polonês e tuberculoso. Quando Marie – amante de Lizst – pergunta à ela o que ela viu num homem à beira do túmulo George Sand responde:

“- Um dia todos nós estaremos em nossos túmulos. Mas Chopin é imortal.” Sábias palavras proféticas.

A carta que George escreve a Chopin e que depois constará de sua autobiografia é tocante:

“Uma palavra gentil sua e eu vivo. Uma palavra rude sua e eu morro. Não importa, pois não mais temo a morte. Eu já visitei o além através de usa música.

Não sou cheia de virtudes e nobres qualidades.  Eu apenas amo, e isso é tudo. Mas eu amo fortemente. Exclusivamente. Inabalavelmente.”

O filme vale a pena pela história. O filme vale a pena pela música e pelo roteiro e pela fotografia. Vale também pela atuação de Judy Davis como George Sand e de Emma Thompson como a duquesa D´Atan. Hugh Grant não me convenceu muito como Chopin, e eu já o vi atuar melhor, mas não chega a comprometer o filme como um todo.

Recomendo aos amantes da música. Eu adorei.

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