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Archive for janeiro \06\UTC 2012

Simples. Áspero. Duro. Cruel. E, ainda assim, formidável. Esse filme é Ethan Frome, obra escondida do diretor John Madden, que existe somente em formato VHS legendado em português, e é transmitido por alguns canais televisão a cabo. Eu assisti há pouco pelo Netflix (Se você não sabe o que é isso, procure na internet, eu achei bem interessante, mas esse blog não se destina ao merchandising).
O protagonista é Ethan (Frome, claro), interpretado magistralmente por Liam Neeson. Ele aparece nos primeiros segundos do filme como uma figura escura e misteriosa com a perna direita deformada vagando sozinho por um campo totalmente branco pela neve justamente quando chega o novo pároco à cidade. Este percebe que os habitantes da cidade o ignoram completamente. Em um diálogo interessante ele chega a comparar a entrada de Ethan num estabelecimento comercial como a abertura do Mar Vermelho, visto que todos os presentes abrem caminho para a sua passagem e o ignoram por completo. Apesar de não saber o porque da situação, o pároco condena a sociedade em seu sermão dominical, usando a famosa Carta de Paulo aos Coríntios como tema e exortando-os à caridade.
Uma das paroquianas, Ruth, resolve levar o religioso à casa dos Frome e lhe contar o que havia ocorrido no passado.
O filme passa a contar com a narração de Ruth, que conta a história de Ethan, um trabalhador muito solitário que morava com sua mãe doente, até a chegada da prima Zeena (Joan Allen) para cuidar da saúde da mãe. A morte da mãe e o inverno fechado acabam por resultar no casamento de ambos, mais por conveniência do que por amor. Com o passar do tempo, Zeena nos é mostrada como uma mulher doente (provavelmente hipocondríaca) e de difícil trato. As “doenças” da esposa obrigam o marido a abrir mão dos seus sonhos de vender a fazenda e continuar os seus estudos na área da engenharia na Flórida. A situação do casal é muito próxima do insuportável, visto que ambos parecem nada ter em comum e a vida ser somente um fardo pesado a carregar. Ela o culpa pela perda da saúde – que sacrificou pela falecida sogra; ao passo que ele ressente-se dos sonhos sacrificados.
Zeena resolve chamar sua prima Mattie (Patricia Arquette) – uma parenta empobrecida pela orfandade – para tomar conta da casa enquanto se recupera. Zeena nunca se recupera e manipula a todos da casa com seu humor irritadiço e sua suposta doença. Frome e Mattie acabam se unindo cada vez mais ante a crueldade e o egoísmo de Zeena.
O amor dos dois é uma coisa que o diretor John Madden soube explorar de maneira delicada. Nada tem de romântico ou meloso, mas advém de um respeito infinito, da admiração, do cuidado e da atenção. No final, o passado obscuro de Ethan mostra-se uma ferida aberta que provavelmente nunca cicatrizará.
O filme é maravilhoso  e foi soberbamente adaptado da obra da vencedora do prêmio Pulitzer – Edith Warthon (de A Época da Inocência). As interpretações  de Liam Neeson e de Joan Allen são magníficas. Neeson mostra muito bem o homem simples que encara a dura realidade da adversa e empobrecida vida rural americana. Allen está excelente no papel da mulher rude, egoísta, cruel e perversa. E Patricia Arquette é a mocinha sofrida e diligente que acaba por despertar a paixão do protagonista, que vê com ela a possibilidade de redenção desse cotidiano viciado e solitário.
A simplicidade da direção está em perfeita consonância com a simplicidade e a rudeza da vida retratada no filme. Os movimentos de câmeras são simples, os closes, muito particulares de Madden. Há também a beleza melancólica das montanhas nevadas. A genialidade de Wharton aparece em passagens absolutamente fantásticas como quando Ruth, a narradora, diz: “Se há algo que uma mulher gosta, é  de sentir-se necessária.”
O final é chocante. Choca ao pároco, chocou à mim e com certeza chocará a você. Chocante e comovente. Digno. Simples. Real. Duro. Áspero. E maravilhoso. E Ethan Frome é um filme magnífico sobre feridas que não se curam jamais. Eu recomendo.
Ethan Frome – Um Amor Para Sempre, de John Madden. Com Liam Neeson, Patricia Arquette, Joan Allen, Tate Donovan. 1993. EUA. 99 min.
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A melhor coisa de ler é se encontrar. Ou se perder. Ou discordar. Ou se irritar e esbravejar. Sentir, enfim. Estava lendo a Clarice Lispector descrevendo o seu modo de agir e me vi nela, o que me trouxe um sorriso ao rosto. É tão reconfortante saber que outros agem da mesma forma que eu. Positiva e negativamente. Eu sou extremamente impulsiva e o resultado na minha vida é exatamente igual ao descrito pela grande escritora que admiro.

“Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.

Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. […] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.” (Texto extraído do livro Aprendendo a viver, Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2004)

Cena do filme Emma - baseado no livro homônimo de Jane Austen

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“Não quero viver num mundo sem catedrais. Preciso de sua beleza e de sua transcendência. Preciso delas contra a vulgaridade do mundo. Quero erguer o meu olhar para seus vitrais brilhantes e me deixar cegar pelas cores etéreas. Preciso do seu esplendor. Preciso dele contra a gritaria no pátio da caserna e a conversa frívola dos oportunistas. Quero escutar o som oceânico do órgão, essa inundação de sons sobrenaturais. Preciso dele contra a estridência ridícula das marchas. Amo as pessoas que rezam. Preciso de sua imagem. Preciso dela contra o veneno traiçoeiro do supérfluo e da negligência. Quero ler as poderosas palavras da Bíblia. Preciso da força irreal de sua poesia. Preciso dela contra o abandono da linguagem e a ditadura das palavras de ordem. Um mundo sem essas coisas seria um mundo no qual eu não gostaria de viver.

Mas existe ainda um outro mundo no qual eu não quero viver: um mundo em que se demoniza o corpo e o pensamento independente e onde as melhores coisas que podemos experimentar são estigmatizadas e consideradas pecado. O mundo em que nos é exigido amar os tiranos, os opressores e assassinos, mesmo quando seus brutais passos marciais ecoam atordoantes pelas vielas ou quando se esgueiram, silenciosos e felinos, como sombras covardes pelas ruas e travessas para enterrar, por trás, o aço faiscante no coração de suas vítimas. Entre todas as afrontas que se lançaram do alto dos púlpitos às pessoas, uma das mais absurdas é, sem dúvida, a exigência de perdoar e até de amar essas criaturas. Mesmo se alguém o conseguisse, isso significaria uma falsidade sem igual e um esforço de abnegação desumano que teria que ser pago com a mais completa atrofia. Esse mandamento, esse desvairado e absurdo mandamento do amor para com o inimigo, serve apenas para quebrar as pessoas, para lhes roubar toda a coragem e toda a autoconfiança e para torná-las maleáveis nas mãos dos tiranos, para que não consigam encontrar forças para se levantar contra eles, se necessário, com armas.

Venero a palavra de Deus, pois amo a sua força poética. Abomino a palavra de Deus, pois odeio a sua crueldade. Este amor é um amor difícil, pois tem que distinguir constantemente entre o brilho das palavras e a subjugação verborrágica a uma divindade presumida. Este ódio é um ódio difícil, pois como é que podemos nos permitir odiar palavras que fazem parte da própria melodia da vida nessa parte da Terra? Palavras que para nós foram dadas como finais, quando começamos a pressentir que a vida visível não pode ser toda a vida? Palavras sem as quais não seríamos aquilo que somos?

Mas não nos esqueçamos: são palavras que exigem de Abraão que sacrifique o seu próprio filho como se fosse um animal. O que fazer com a nossa ira quando lemos isto? Um Deus que acusa Jó de disputar com ele quando nada sabe e nada entende? Quem foi que o criou assim? E por que seria menos injusto quando Deus lança alguém no infortúnio sem motivo do que quando um comum mortal o faz? E Jó não teve todos os motivos para a sua queixa?

Livro: Trem Noturno para LisboaA poesia da Palavra divina é tão avassaladora que cala tudo e reduz toda e qualquer contestação a um uivo lastimável. É por isso que não se pode simplesmente pôr a Bíblia de lado, mas ela deve ser jogada fora assim que estejamos fartos de suas exigências e do jugo que ela nos impõe. Nela, manifesta-se um Deus avesso à vida, sem alegria, um Deus que quer restringir a poderosa dimensão de uma vida humana – o grande círculo que descreve quando está em plena liberdade – a um só e limitado ponto de obediência. Carregados com o fardo da mágoa e o peso do pecado, ressequidos pela subjugação e pela falta de dignidade da confissão, a testa marcada pela cruz de cinza, devemos marchar em direção à sepultura, na esperança mil vezes contestada de uma vida melhor a Seu lado; mas como pode ser melhor ao lado de alguém que antes nos privou de todos os prazeres e de todas as liberdades?

E, no entanto, as palavras que vêm de Deus e para ele se dirigem são de uma beleza avassaladora. Como as amei nos tempos de coroinha! Como me embriagaram no brilho das velas do altar! Como pareceu claro, tão claro quanto a luz do sol, que aquelas palavras fossem a medida de todas as coisas! Como parecia incompreensível, para mim, que as pessoas dessem importância também para outras palavras, quando cada uma delas não podia significar mais do que dispersão desprezível e perda da essência! Ainda hoje paro quando escuto um canto gregoriano, e durante um instante irrefletido fico triste que este estado de embriaguez tenha dado lugar irremediavelmente à rebelião. Uma rebelião que se ateou em mim como uma labareda quando, pela primeira vez, escutei estas palavras: sacrificium entellectus.

Como podemos ser felizes sem a curiosidade, sem questionamentos, dúvidas e argumentos? Sem o prazer de pensar? As duas palavras que são como um golpe de espada que nos decapita não significam nada menos senão a exigência de vivenciar nossos sentimentos e nossas ações contra o nosso pensar, são um convite para uma dilaceração ampla, a ordem de sacrificar precisamente o núcleo da felicidade: a harmonia interior e a concordância interna de nossa vida. O escravo na galé está acorrentado, mas pode pensar o que quiser. Mas o que Ele, o nosso Deus, exige de nós, é que interiorizemos com nossas próprias mãos a escravidão nas profundezas mais profundas e que, ainda por cima, o façamos voluntariamente e com alegria. Pode haver escárnio maior?

Em sua onipresença, o Senhor é alguém que nos observa dia e noite, que a cada hora, cada minuto, cada segundo registra nossas ações e nossos pensamentos, nunca nos deixa em paz, nunca nos permite um momento sequer em que possamos estar a sós conosco. Mas o que é um ser humano sem segredos? Sem pensamentos e desejos que apenas ele próprio conhece? Os torturadores, os da Inquisição e os atuais, sabem: corte-lhe a possibilidade de se retirar para dentro, nunca apague a luz, nunca o deixe a sós, negue-lhe o sono e o sossego, e ele falará. O fato de a tortura nos roubar a alma significa: ela destrói a solidão com nós mesmos, da qual necessitamos como do ar para respirar. O Senhor, nosso Deus, nunca percebeu que, com sua desenfreada curiosidade e sua repugnante indiscrição, nos rouba uma alma que, ainda por cima, deve ser imortal?

Quem é que realmente quer ser imortal? Quem quer viver por toda a eternidade? Como deve ser tedioso e vazio saber que não tem a menor importância o que acontece hoje, este mês, este ano, pois ainda sucederão infinitos dias, meses, anos. Infinitos no sentido literal da palavra. Alguma coisa ainda contaria, neste caso? Não precisaríamos mais contar com o tempo, não perderíamos mais oportunidades, não teríamos mais que nos apressar. Seria indiferente se fizéssemos alguma coisa hoje ou amanhã, totalmente indiferente. Diante da eternidade, negligências milhões de vezes repetidas se tornariam um nada e não faria mais sentido lamentar alguma coisa, pois sempre haveria tempo para recuperar. Não poderíamos nem mesmo nos entregar à simples fruição do dia, pois essa sensação de bem-estar decorre da consciência do tempo que se esvai, o ocioso é um aventureiro perante a morte, um cruzado contra o ditado da pressa. Onde ainda existe espaço para o prazer em esbanjar tempo quando existe tempo sempre, em todo lugar, para tudo e para todos?

Um sentimento não é idêntico quando se repete. Tinge-se de outras nuances pela percepção do seu retorno. Cansamo-nos dos nossos sentimentos quando se repetem muitas vezes ou duram demais. Na alma imortal surgiria, portanto, um tédio gigantesco e um desespero gritante perante a certeza de que aquilo nunca acabará, nunca. Os sentimentos querem evoluir, e nós com eles. São o que são porque repelem o que já foram e porque fluem em direção a um futuro onde mais uma vez se afastarão de nós. Se esse caudal desaguasse no infinito, milhares de sensações teriam que surgir dentro de nós, que, acostumados a uma dimensão limitada de tempo, nunca conseguiríamos imaginar. De modo que, pura e simplesmente, nem sabemos o que nos é prometido quando ouvimos falar da vida eterna. Como seria sermos nós próprios na eternidade, sem o consolo de podermos, um dia, vir a ser redimidos da obrigação de sermos nós? Não o sabemos, e o fato de nunca o virmos a saber representa uma bênção. Pois uma coisa podemos estar certos: seria um inferno, esse paraíso da imortalidade.

É a morte que confere o instante a sua beleza e o seu pavor. Só através da morte é que o tempo se transforma num tempo vivo. Por que e que o Senhor, Deus onisciente, não sabe disso? Por que nos ameaça com uma imortalidade que só poderia significar um vazio insuportável?

Não quero viver num mundo sem catedrais. Preciso do brilho de seus vitrais, de sua calma gelada, de seu silêncio imperioso. Preciso das marés sonoras do órgão e do sagrado ritual das pessoas em oração. Preciso da santidade das palavras, da elevação da grande poesia. Preciso de tudo isso. Mas não menos necessito da liberdade e do combate a toda a crueldade. Pois uma coisa não é nada sem a outra. E que ninguém me obrigue a escolher.

(“Reverência e Aversão Perante a Palavra de Deus”. Discurso de Amadeu de Prado. O Trem Noturno para Lisboa. Capítulo 19)

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Estou lendo Fernando Pessoa, uma quase autobiografia de José Paulo Cavalcanti Filho, publicado pela editora Record. No prefácio (que o autor chama muito pomposamente de Praeludium) uma historieta sobre as dificuldades de se revisitar os locais importantes na vida de Pessoa me chamou a atenção. Passo a citar:

Assim se deu, mais um exemplo, quando fui pela primeira vez ao local em que nasceu Pessoa.  Informado de que o carrilhão da Basílica dos Mártires tocava ao meio-dia, cheguei lá dez minutos antes. Por querer estar onde ficava seu quarto, para comprovar se de lá era mesmo possível ouvir aqueles sinos e ver o Tejo. No térreo do edifício, então filial da Fidelidade Mutual Seguros, apenas havia um agente de segurança, Fernando José da Costa Araújo. Expliquei-lhe a razão da visita, mostrei o exemplaar provisório do livro e pedi autorização para subir. Comigo estavam Maria Lectícia, minha mulher, e um querido amigo brasileiro, há mais de 30 anos morando em Lisboa, o jornalista Duda Guennes. Mas o dito sr. Araújo, com cara de poucos amigos, apenas disse:

– Não tenho autorização para deixar o sr. dr. subir.

– Então, por favor, gostaria de falar com o diretor da empresa.

-Não tenho autorização para isso.

– Então, por favor, chame sua secretária ou algum outro funcionário que o possa fazer.

– O sr. dr. deve se dirigir à matriz.

– Então, por favor, me informe o telefone dessa Matriz.

– Não tenho autorização.

– Por favor, me empreste – apontei – as Páginas Amarelas.

–  Não tenho autorização.

Como que por uma conspiração do destino, e precisamente após sua última frase, ouvimos tocar o sino – a primeira “pancada tua, vibrante no céu aberto”. Precisava estar lá. Então lhe disse: – Por favor chame a polícia para me prender que, sem a sua autorização, estou subindo ao quarto andar. E subi. Para ver, sobre duas das suas janelas, um tejo brilhante e o som de sinos que tocavam sem parar. Quando voltei, o segurança estava parado, em frente ao elevador, com rosto zangado:

– O sr. dr. subiu sem minha autorização?

-Foi.

– E agora, o que hei de fazer?

– O sr. chama a polícia, vou sentar e esperar que ela venha, explicamos o ocorrido e ela decide se me prende. Ou o sr. me deixa ir.

– Não sei, sr. dr.

– Pois eu sei.

Dito isto, dei-lhe boa-tarde e fui embora. No ar frio daquele meio-dia de inverno, os sinos da aldeia de Pessoa tocaram novamente.” (in Fernando Pessoa: uma quase autobiografia/ José Paulo Cavalcanti Filho – 4ª ed. – Rio de Janeiro: record, 2011- p. 13-14)

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