Feeds:
Posts
Comentários

Archive for abril \20\UTC 2012

Eu e meu marido estamos a  semanas da nossa viagem ao Chile. O destino foi escolhido em virtude do nosso amor aos vinhos e a minha grande admiração pelo poeta chileno Pablo Neruda.

Estou tão empolgada com a preparação das coisas de viagem que ontem ele me dizia que parece que estou mais feliz com a preparação do que com a viagem em si. Não é bem assim, claro. Gosto de aproveitar as coisas na sua plenitude e, principalmente, detesto viajar arrebanhada. Por mais cômodos e fáceis que sejam esses pacotes turísticos sempre me sinto meio “tocada” como gado, sabe? E esses city tour me parecem meio pasteurizados. Gosto de ver a realidade como ela é. Gosto de escolher meus destinos e acima de tudo, gosto da liberdade e das surpresas que se apresentam para os que se mostram receptivos à elas.

Bom, a preparação incluiu a atualização da carteira de identidade. É preciso ter uma identidade com menos de 10 anos para entrar nos países integrantes do Mercosul. É uma incomodação necessária, mas preciso confessar que foi bem mais fácil que eu pensei que seria. O sistema (em Curitiba) está todo informatizado, não é preciso mais sujar os dedos com tinta pois uma leitora ótica lê as digitais e a foto é tirada ali mesmo. Disseram que a nova identidade chega em 5 dias. Ótima surpresa.

Mas, como eu ia dizendo antes, detesto viajar arrebanhada. Assim, comprei um guia visual da Folha de São Paulo e estou fazendo o nosso próprio roteiro. Além do guia há informações em abundância na internet, blogs contam as suas experiências e eu mergulhei fundo na busca pela Santiago que quero conhecer.

 

Já escolhi três Viñas para visitar, mas confesso que é difícil, pois são todas tão lindas nas fotos dos sites…  Gostaria de conhecer mais, mas assim ficaríamos borrachos a viagem inteira… Tracei 3 objetivos para essa viagem: vinhos, Neruda e neve.

O primeiro objetivo já está planificado. Escolhi  viñas da região do Valle do Maipo, em Pirque:  uma pequena e artesanal e duas maiores e mais conhecidas. Mas quero conhecer as viñas da região do Vale de Colchagua também. A minha única frustração foi descobrir que o trem del vino está temporariamente sem fazer passeios, pois gostaria muito de fazer o passeio entre Santa Cruz e San Fernando. Minha esperança é descobrir lá que o trem voltou a fazer o passeio. Preciso fazer o roteiro da visita às Viñas de Colchagua ainda.

O segundo objetivo é a peregrinação pelas casas de Pablo Neruda. É um sonho antigo conhecer a casa de Isla Negra (não é em uma ilha como eu imaginava!!!!). Isla Negra é um pequeno povoado de pescadores a quase 100km de Valparaíso. O poeta fala da compra de Isla Negra assim:

Pensei entregar-me a meu trabalho literário com mais dedicação e mais força. O contato com a Espanha tinha me fortificado e amadurecido. As horas amargas de minha poesia deviam terminar. O subjetivismo melancólico de meus 20 poemas de Amor ou a comoção dolorosa de Residencia em la Tierra chegavam ao fim. Pareceu-me encontrar um veio enterrado, não sob as rochas subterrâneas mas sob as folhas dos livros. Pode a poesia servir aos nossos semelhantes? Pode acompanhar as lutas dos homens? Já tinha caminhado bastante pelo terreno do irracional e do negativo. Devia deter-me e buscar o caminho do humanismo, banido da literatura contemporânea mas enraizado profundamente nas aspirações do ser humano. 

Comecei a trabalhar em meu Canto general.

Para isto precisava de um lugar de trabalho. Encontrei uma casa de pedra defronte do mar num lugar desconhecido para todo o mundo, chamado Isla Negra. Dom Eladio Sobrino, o proprietário, um velho socialista espanhol, capitão de navio, estava construindo-a para a sua família, mas quis vender. Como compraria? Ofereci o projeto do meu livro Canto general mas fui rechaçado pela Editora Ercilla, que então publicava as minhas obras. Com ajuda de outros editores, que pagaram diretamente ao proprietário, pude finalmente comprar, no ano de 1939, minha casa de trabalho em Isla Negra.

A idéia de um poema central que agrupasse as incidências históricas, as condições geográficas, a vida de nossos povos, apresentava-se a mim como uma tarefa urgente. A costa selvagem da Isla Negra, com o tumultuoso movimento oceânico, permitia que eu me entregasse com paixão à empresa de meu novo canto.” Neruda, Pablo  – Confesso que he vivido- Memórias – Difel difusão editorial – São Paulo – 1983 p. 139)

Exitem mais duas casas, uma em Santiago conhecida como La Chascona (em português seria a descabelada – é uma homenagem do poeta à sua terceira mulher – Matilde Urrutia – que lá viveu um ano enquanto era sua amante) e La Sebastiana, em Valparaíso.  Neruda separou-se da esposa e casou-se com ela em 1966. O livro cem sonetos de amor é dedicado à Matilde, que, me parece, foi o grande amor de Neruda.  Ele fala da sua mulher, carinhosamente em suas memórias assim:

Matilde Urrutia, minha mulher.

Minha mulher é da província como eu. Nasceu em uma cidade do Sul, Chillán, famosa de maneira feliz por sua cerâmica camponesa e de maneira desgraçada pelos seus terríveis terremotos. Ao falar-lhe disse tudo em meus Cem sonetos de amor.

Talvez esses versos definam o que ela significa para mim. A terra e a vida nos reuniu.

Ainda que isto não interesse a ninguém, somos felizes. Dividimos nosso tempo comum em longas temporadas na solitária costa do Chile. Não no verão porque o litoral, ressequido pelo sol, mostra-se então amarelo e desértico; mas no inverno sim, quando uma estranha floração se veste com as chuvas e o frio, de verde e amarelo, de azul e purpúreo. Algumas vezes subimos do selvagem e solitário oceano para a trepidante cidade de Santiago, na qual juntos padecemos com a complicada existência dos demais.

Matilde canta com voz poderosa as minhas canções.

Dedico-lhe tudo quer escrevo e tudo que tenho. Não é muito mas ela está contente.

Diviso-a agora como afunda os sapatos minúsculos no barro do jardim e depois também afunda suas mãos minúsculas na profundidade da planta.

Da terra, com pés e mãos e olhos e voz, trouxe para mim todas as raízes, todas as flores, todos os frutos fragrantes da felicidade.” (op cit. p. 277/278)

Minha irmã disse que a melhor parte da viagem é planejar. É verdade. Sonhar com esse futuro feliz, de descobertas e encontros com a diversidade de cultura e realidade é fantástico! Estou muito animada estudando o Chile e montando o nosso roteiro.

Soneto XLVIII

Dois amantes ditosos fazem um só pão,
uma só gota de lua na erva,
deixam andando duas sombras que se reúnem,
deixam um só sol vazio numa cama.

De todas as verdades escolheram o dia:
não se ataram com fios senão com um aroma,
e não despedaçaram a paz nem as palavras.
A ventura é uma torre transparente.

O ar, o vinho vão com os dois amantes,
a noite lhes oferta suas ditosas pétalas,
têm direito a todos os cravos.

Dois amantes felizes não têm fim nem morte,
nascem e morrem muitas vezes enquanto vivem.
têm da natureza a eternidade.”

Como falta planificar as visitas a La Sebastiana e La Chascona vou ficando por aqui. Volto com as impressões do planejamento das outras casas de Neruda e do Valle Nevado.

Anúncios

Read Full Post »

Estive acompanhando nessa semana a votação histórica do Superior Tribunal Federal (STF) da ADPF (Arguição de descumprimento de preceito fundamental) 54 que decidiu, por 8 votos a 2, que o feto anencefálico não tem vida e, portanto, a interrupção de gravidez nesses termos não é considerado aborto. “Aborto é crime contra a vida. Tutela-se a vida em potencial. No caso do anencéfalo, não existe vida possível”, afirmou o relator do processo, ministro Marco Aurélio Mello.

A matéria é controversa, pois toca em questões regulamentadas não só pelo Direito Penal, mas também é pautada por questões éticas, filosóficas e religiosas.

Eu, desde que comecei os meus estudos na área do Direito, sempre fui a favor do aborto. Não do aborto de anencéfalo, do aborto fruto de estupro, do aborto terapêutico… do aborto e ponto. Na verdade, eu sou  a favor da escolha.

Tenho mil razões para justificar o meu posicionamento e, antes que me digam que eu sou contra a vida, satânica, cruel e outros desses rótulos quero contar uma história pessoal.

Eu sou mãe de uma garotinha de 9 anos e amo a maternidade e a minha filha e tudo o que lhes é afeito. Dois anos antes da minha menina nascer eu sofri um aborto espontâneo. Sofrer é o verbo certo para descrever o que se passou. Não foi uma gravidez planejada, mas foi aceita, querida e esperada ansiosamente por mim. Fiz muitos planos, pois um filho significa uma mudança radical na vida de qualquer mulher. E são planos envolvidos em minúsculas roupas debruadas de rendas, ursinhos e bonequinhas em tons pastéis e belos berços brancos em vitrines. E embora eu acalentasse carinhosamente esses sonhos, eles se perderam tragicamente, e como todas as mortes repentinas e violentas, findaram-se em uma poça de sangue. A tristeza dos sonhos perdidos é imensa, mas a sensação de carregar a morte dentro de si é difícil de se por em palavras. A culpa é enorme, e muito embora muitos venham te consolar com estatísticas frias, nenhuma palavra de conforto é suficiente para aplacar essa dor lancinante. Na minha cabeça era preciso ter um culpado pela morte daquela vida tão recente, mas já tão amada, e como ela estava dentro de mim eu parecia ser a escolha mais óbvia. É uma dor profunda, silenciosa, solitária e sem remédio. Então, quando falo que sou a favor do aborto falo como a mãe que sou hoje e como a mulher que vivenciou essa situação em concreto.

Primeiramente é preciso que se diga que nenhuma mulher em sã consciência pratica o aborto alegremente. A insigne Ministra Cármem Lúcia foi muito feliz ao dizer em seu voto da ADPF 54 que “Não é escolha fácil. É escolha trágica. Sempre é escolha do possível dentro de um situação extremamente difícil. Por isso, acho que todas as opções são de dor. Exatamente fundado na dignidade da vida neste caso acho que esta interrupção não é criminalizável.”  Uma pequena digressão é necessária para que se compreenda o porque da necessidade de escolha e porque essa escolha, ao contrário de se diz não é egoísta.

O mundo é extremamente cruel com as mulheres. De nós muito é exigido e muito pouco é ofertado. Quando a questão é a maternidade essa realidade é ainda mais perversa. Uma das primeiras perguntas que temos que responder em uma entrevista de emprego é se temos filhos, se pretendemos ter mais filhos e se não os temos se os pretendemos ter. Ora, o que a fertilidade feminina tem a ver com a sua eficiência laboral? Por que nunca se faz esse tipo de pergunta para os homens? Uma mulher grávida é vista, imediatamente, como um estorvo para o empregador que se apressa em demiti-la se ela estiver em contrato de experiência (única exceção à garantia de emprego da gestante). Ressalvadas as raríssimas exceções que confirmam a regra, mesmo se casadas os ônus da maternidade são majoritariamente femininos. Não raro os pais dizem em sua defesa: “mas eu a ajudo tanto” como se a criação dos filhos fosse uma tarefa dela e a tarefa dele fosse ajudar de vez em quando.  A criação dos filhos é de ambos os pais, mas recai majoritariamente sobre as mulheres. Se há um divórcio ou se a mulher é mãe solteira a situação é ainda pior. O pai da criança, quando paga os alimentos – vulgarmente conhecida como pensão – diz que não aguenta mais dar dinheiro “para aquela mulher”. Se esse mesmo pai descumpre seu dever a mulher precisa abalar-se aos tribunais para buscar uma tutela jurisdicional. Na ação de alimentos os homens lutam para pagar o quanto menos, esquecendo-se que a finalidade dos alimentos é atender aos seus próprios filhos. Mesmo sendo a execução de alimentos uma ação na teoria urgente, os processos arrastam-se nos tribunais e a mãe é obrigada a suportar sozinha todos os encargos financeiros de se ter um filho. E, deve sofrer calada, pois se uma palavra negativa disser sobre o pai descumpridor de sua obrigação incorre em alienação parental. Isso tudo e ainda cuidar da casa, da alimentação da família, dar banho, levar à escola,  ver se escovou os dentes, buscar da escola, ajudar na tarefa de casa… Agora me diga: assumir tal encargo não deve ser uma escolha consciente de quem o vai suportar?

O mui sábio Ministro Ayres Britto, a respeito da gestação de anencéfalo disse que: “Obrigar a manutenção da gestação, seria impor a outra pessoa que se assuma como mártir. “O martírio é voluntário”, afirmou. “O que se pede é o reconhecimento desse direito que tem a mulher de se rebelar contra um tipo de gravidez tão anômala, correspondente a um desvario da natureza”

A verdade é que toda a gestação e a consequente criação de um filho é um exercício de doação extremada. E tal doação não pode ser uma imposição estatal. Deve ser uma escolha! O Estado não deveria poder, nem por força do pacto social, dispor sobre o corpo de seus cidadãos. Muito menos de como estes irão viver até o fim dos seus dias, pois os filhos farão parte da vida de suas mães até o fim da mesma.

Os grupos religiosos que me perdoem, mas nunca vi tamanha falta de caridade e piedade. Sim, porque a caridade e a piedade também devem ser exercidas em favor dessas mulheres, cuja vida muda completamente. São elas que levam em seu corpo, no caso dos anencéfalos, um ser condenado desde a sua gênese, um “morto-vivo”. São elas que carregam a dor e a culpa de gestarem a morte em iminência. Onde está a caridade por parte dos religiosos para com essas mulheres que sofrem? Essa caridade e essa piedade deveriam ser a obrigação dos cristãos, cujo mestre pregou “Amai-vos uns aos outros” e “Atire a primeira pedra quem nunca errou”. O que vejo para com essas mães sofredoras é só  o julgamento (e condenação) desses religiosos que ainda as ameaçam com o fogo eterno do inferno. Onde está o Deus de piedade e perdão que tanto pregam então?

Empiricamente pensando creio que jamais faria um aborto. Melhor, gostaria nunca mais passar por essa experiência. Mas ao pensar em um filho meu, recém nascido, agonizando e sem a menor possibilidade viável de vida é doloroso demais. Creio que eu escolheria, pelo feto e por amor à ele, o sofrimento menor, de morrer enquanto ainda não está formado na sua completude. E, não seria uma escolha por mim, pois eu, como mãe e mulher não teria outro caminho senão sofrer até o fim dos meus dias, assim como faço pelo aborto que sofri há mais de dez anos e que ainda ainda me traz lágrimas aos olhos.

Penso que o inferno com o qual os grupos religiosos ameaçam as mulheres já está instalado e é aqui mesmo. Um mundo desigual e preconceituoso no qual muitos se apressam em julgar e apontar e poucos  estendem a mão aos sofredores deve ser assemelhado ao inferno. Mas a decisão de ontem do Supremo Tribunal Federal nos põe alguns passos para fora dele.

(Illustration 25 of Divine Comedy: Inferno by Paul Gustave Doré (1832-1883)

Read Full Post »