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Archive for the ‘Artes’ Category

“Tropeçou no sol da manhã
e mergulhou no azul do outono.”
(Helena Kolody)
Obra: Campo de Trigo com Corvos (Wheatfield with Crows)
Vincent van Gogh, 1890
óleo sobre tela
50,5 x 103 cm
Van Gogh Museum, Amsterdam
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Acabei de assistir novamente o absolutamente fantástico filme O clube de leitura de Jane Austen. Eu sinto algo de reconfortante em rever um filme que gostei desde a primeira vez. Mas é um encantamento renovado, sem os grandes mistérios e revelações. É algo como reencontrar uma velha amiga que não via há muito, sentar e conversar sobre os velhos tempos ao lado de uma lareira tomando um bom vinho.

É estranho como tive vontade de escrever tão logo terminei de rever o filme. Assisti filmes fantásticos sobre os quais tenho tido dificuldade de terminar um post. Ágora foi um deles – filme belíssimo sobre a vida de Hipácia de Alexandria. Mas esse será outro post. Quero falar de Jane Austen e esse efeito que seus livros têm sobre as pessoas.

Eu me identifico muito com esse filme, acho que é porque compartilho da opinião de Bernadette sobre os livros de Austen. Uma de suas falas é a minha favorita do filme quando ela diz que os livros de Jane Austen são o antídoto perfeito para a vida.

O filme é sobre esse grupo de leitura que reúne seis pessoas em seis meses para que leiam os seis livros de Jane Austen.   Enquanto eles lêem os livros o filme se desenrola mostrando as vidas dos leitores e a influência dos enredos em suas vidas. E, nas reuniões as discussões sempre extrapolam os limites dos romances.

Sensível. Poético. Divertido. Tocante. Recomendo.

Título no Brasil:  O Clube de Leitura de Jane Austen
Título Original:  The Jane Austen Book Club
País de Origem:  EUA
Gênero:  Drama
Tempo de Duração: 106 minutos
Ano de Lançamento:  2007
Site Oficial:  http://www.sonyclassics.com/thejane austenbookclub/
Estúdio/Distrib.:  Sony Pictures
Direção:  Robin Swicord

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Simples. Áspero. Duro. Cruel. E, ainda assim, formidável. Esse filme é Ethan Frome, obra escondida do diretor John Madden, que existe somente em formato VHS legendado em português, e é transmitido por alguns canais televisão a cabo. Eu assisti há pouco pelo Netflix (Se você não sabe o que é isso, procure na internet, eu achei bem interessante, mas esse blog não se destina ao merchandising).
O protagonista é Ethan (Frome, claro), interpretado magistralmente por Liam Neeson. Ele aparece nos primeiros segundos do filme como uma figura escura e misteriosa com a perna direita deformada vagando sozinho por um campo totalmente branco pela neve justamente quando chega o novo pároco à cidade. Este percebe que os habitantes da cidade o ignoram completamente. Em um diálogo interessante ele chega a comparar a entrada de Ethan num estabelecimento comercial como a abertura do Mar Vermelho, visto que todos os presentes abrem caminho para a sua passagem e o ignoram por completo. Apesar de não saber o porque da situação, o pároco condena a sociedade em seu sermão dominical, usando a famosa Carta de Paulo aos Coríntios como tema e exortando-os à caridade.
Uma das paroquianas, Ruth, resolve levar o religioso à casa dos Frome e lhe contar o que havia ocorrido no passado.
O filme passa a contar com a narração de Ruth, que conta a história de Ethan, um trabalhador muito solitário que morava com sua mãe doente, até a chegada da prima Zeena (Joan Allen) para cuidar da saúde da mãe. A morte da mãe e o inverno fechado acabam por resultar no casamento de ambos, mais por conveniência do que por amor. Com o passar do tempo, Zeena nos é mostrada como uma mulher doente (provavelmente hipocondríaca) e de difícil trato. As “doenças” da esposa obrigam o marido a abrir mão dos seus sonhos de vender a fazenda e continuar os seus estudos na área da engenharia na Flórida. A situação do casal é muito próxima do insuportável, visto que ambos parecem nada ter em comum e a vida ser somente um fardo pesado a carregar. Ela o culpa pela perda da saúde – que sacrificou pela falecida sogra; ao passo que ele ressente-se dos sonhos sacrificados.
Zeena resolve chamar sua prima Mattie (Patricia Arquette) – uma parenta empobrecida pela orfandade – para tomar conta da casa enquanto se recupera. Zeena nunca se recupera e manipula a todos da casa com seu humor irritadiço e sua suposta doença. Frome e Mattie acabam se unindo cada vez mais ante a crueldade e o egoísmo de Zeena.
O amor dos dois é uma coisa que o diretor John Madden soube explorar de maneira delicada. Nada tem de romântico ou meloso, mas advém de um respeito infinito, da admiração, do cuidado e da atenção. No final, o passado obscuro de Ethan mostra-se uma ferida aberta que provavelmente nunca cicatrizará.
O filme é maravilhoso  e foi soberbamente adaptado da obra da vencedora do prêmio Pulitzer – Edith Warthon (de A Época da Inocência). As interpretações  de Liam Neeson e de Joan Allen são magníficas. Neeson mostra muito bem o homem simples que encara a dura realidade da adversa e empobrecida vida rural americana. Allen está excelente no papel da mulher rude, egoísta, cruel e perversa. E Patricia Arquette é a mocinha sofrida e diligente que acaba por despertar a paixão do protagonista, que vê com ela a possibilidade de redenção desse cotidiano viciado e solitário.
A simplicidade da direção está em perfeita consonância com a simplicidade e a rudeza da vida retratada no filme. Os movimentos de câmeras são simples, os closes, muito particulares de Madden. Há também a beleza melancólica das montanhas nevadas. A genialidade de Wharton aparece em passagens absolutamente fantásticas como quando Ruth, a narradora, diz: “Se há algo que uma mulher gosta, é  de sentir-se necessária.”
O final é chocante. Choca ao pároco, chocou à mim e com certeza chocará a você. Chocante e comovente. Digno. Simples. Real. Duro. Áspero. E maravilhoso. E Ethan Frome é um filme magnífico sobre feridas que não se curam jamais. Eu recomendo.
Ethan Frome – Um Amor Para Sempre, de John Madden. Com Liam Neeson, Patricia Arquette, Joan Allen, Tate Donovan. 1993. EUA. 99 min.

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A melhor coisa de ler é se encontrar. Ou se perder. Ou discordar. Ou se irritar e esbravejar. Sentir, enfim. Estava lendo a Clarice Lispector descrevendo o seu modo de agir e me vi nela, o que me trouxe um sorriso ao rosto. É tão reconfortante saber que outros agem da mesma forma que eu. Positiva e negativamente. Eu sou extremamente impulsiva e o resultado na minha vida é exatamente igual ao descrito pela grande escritora que admiro.

“Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.

Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. […] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.” (Texto extraído do livro Aprendendo a viver, Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2004)

Cena do filme Emma - baseado no livro homônimo de Jane Austen

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Estou lendo Fernando Pessoa, uma quase autobiografia de José Paulo Cavalcanti Filho, publicado pela editora Record. No prefácio (que o autor chama muito pomposamente de Praeludium) uma historieta sobre as dificuldades de se revisitar os locais importantes na vida de Pessoa me chamou a atenção. Passo a citar:

Assim se deu, mais um exemplo, quando fui pela primeira vez ao local em que nasceu Pessoa.  Informado de que o carrilhão da Basílica dos Mártires tocava ao meio-dia, cheguei lá dez minutos antes. Por querer estar onde ficava seu quarto, para comprovar se de lá era mesmo possível ouvir aqueles sinos e ver o Tejo. No térreo do edifício, então filial da Fidelidade Mutual Seguros, apenas havia um agente de segurança, Fernando José da Costa Araújo. Expliquei-lhe a razão da visita, mostrei o exemplaar provisório do livro e pedi autorização para subir. Comigo estavam Maria Lectícia, minha mulher, e um querido amigo brasileiro, há mais de 30 anos morando em Lisboa, o jornalista Duda Guennes. Mas o dito sr. Araújo, com cara de poucos amigos, apenas disse:

– Não tenho autorização para deixar o sr. dr. subir.

– Então, por favor, gostaria de falar com o diretor da empresa.

-Não tenho autorização para isso.

– Então, por favor, chame sua secretária ou algum outro funcionário que o possa fazer.

– O sr. dr. deve se dirigir à matriz.

– Então, por favor, me informe o telefone dessa Matriz.

– Não tenho autorização.

– Por favor, me empreste – apontei – as Páginas Amarelas.

–  Não tenho autorização.

Como que por uma conspiração do destino, e precisamente após sua última frase, ouvimos tocar o sino – a primeira “pancada tua, vibrante no céu aberto”. Precisava estar lá. Então lhe disse: – Por favor chame a polícia para me prender que, sem a sua autorização, estou subindo ao quarto andar. E subi. Para ver, sobre duas das suas janelas, um tejo brilhante e o som de sinos que tocavam sem parar. Quando voltei, o segurança estava parado, em frente ao elevador, com rosto zangado:

– O sr. dr. subiu sem minha autorização?

-Foi.

– E agora, o que hei de fazer?

– O sr. chama a polícia, vou sentar e esperar que ela venha, explicamos o ocorrido e ela decide se me prende. Ou o sr. me deixa ir.

– Não sei, sr. dr.

– Pois eu sei.

Dito isto, dei-lhe boa-tarde e fui embora. No ar frio daquele meio-dia de inverno, os sinos da aldeia de Pessoa tocaram novamente.” (in Fernando Pessoa: uma quase autobiografia/ José Paulo Cavalcanti Filho – 4ª ed. – Rio de Janeiro: record, 2011- p. 13-14)

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“No poema

e nas nuvens,

cada qual descobre

o que deseja ver.” (Helena Kolody)

“Praia” 1939 – Fernando Calderari

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Sou uma grande fã de Tim Burton. Devo ser sincera e creditar à minha irmã gêmea essa paixão. Ela tem um gosto mais gótico do que o meu. Eu sou muito mais romântica que gótica. Mas, dada a grande afinidade que eu e minha irmã temos, ela me converteu parcialmente ao seu gosto gótico e acabou gostando do meu romantismo. Exemplo disso foi o livro que recentemente eu dei à ela da Jane Austen (e ela adorou) – Northanger Abbey. Ok. Esse não vale pois é meio gótico… Mas como é uma mistura dos dois estilos nos abrange.

Voltando ao Tim Burton, foi a minha irmã que me apresentou ao mundo fantástico de filmes sensacionais como Peixe Grande e Edward Mãos de Tesoura. Confesso que este último eu já havia assistido antes, mas sem nem me dar conta que era obra dele. Assisti novamente e foi ainda melhor quando liguei o diretor ao filme.

Bom, não fiquei assim tão fã do gótico a ponto de gostar de A lenda do cavaleiro sem cabeça, mas sou absolutamente apaixonada por seus filmes em Stop-motion.  O estranho mundo de Jack entrou na minha vida quando minha filha era bem pequenininha e adoramos a sua história, com seus personagens cadáveres, monstruosos e cheios de sentimentos e emoções. Penso que ela tinha uns três para quatro anos quando assistimos A noiva cadáver. Ela era tão pequena que pedia: “Tia, põe o filme da Noiva Abracadabra de novo para mim?”

O filme é genial. Mas também é obscuro, um pouco triste e mostra sem piedade a crueldade humana em várias das suas histórias secundárias. A morte do cocheiro é uma delas. Mas eu queria falar mesmo era dos votos do casamento que Victor deveria decorar. Eles são importantíssimos para a história em si, pois se ele não fosse praticar os votos no cemitério não existiria a noiva cadáver.

OK, ok, não vou estragar toda a história para quem não viu o filme. Vou me restringir aos votos. Eles são tão tocantes que ao prestar atenção só à eles eu e a minha irmã fomos às lágrimas. Eles mostram a essência do que deveria ser o casamento verdadeiro, sabe qual, não é? É aquele no qual não se juntam só os corpos, as contas e as escovas de dentes. É aquele no qual as almas se juntam e se tornam cúmplices. E nesse tipo de união, creio que nem a morte consegue separar.

“Com esta mão espantarei as suas tristezas;

Sua taça jamais ficará vazia, pois eu serei o seu vinho;

Com esta vela iluminarei o seu caminho na escuridão;

E com esta aliança eu lhe peço que seja minha.

Digam, sinceramente, que mulher resistiria?

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