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Archive for the ‘Citações’ Category

Eu e meu marido saímos cedo para a viagem com destino a Valparaíso, com a intenção de visitarmos a única casa de Neruda que nos faltava conhecer. Nossa viagem ao Chile estava chegando ao fim e já estávamos mais confiantes ao pegar o ônibus rumo a Valparaíso. Foi realmente fácil, uma vez que tem ônibus saindo de Santiago de 15 em 15 minutos para Valparaíso e a estação rodoviária é integrada ao metrô. A dica é: compre a passagem de ida e volta (é mais barato) e deixe para marcar o horário da volta na rodoviária, um pouco antes de voltar. Bom, pegamos um ônibus bem confortável, tipo leito, com ar condicionado e outras comodidades. A viagem dura em torno de uma hora e meia.

Quando chegamos em Valparaíso um guia local nos abordou logo na saída da rodoviária (acho que temos muita cara de turista…) e perguntou se precisávamos de transporte ou de alguma informação. Não, não era alguém querendo o nosso dinheiro, era um guia pago pelo governo, muito prestativo, que nos deu um mapa da cidade e nos disse como deveríamos fazer para ir até a La Sebastiana. Ele nos indicou que pegássemos um trolebus – um ônibus elétrico dos anos 40 – que funciona desde 1952. Como só existe uma linha, pegamos esse tipo de ônibus junto com crianças que voltavam da escola e outros habitantes da cidade. Foi bem bacana, embora eu estivesse um pouco preocupada em parar no lugar certo para pegar o “colectivo 38” que nos levaria até a porta da casa de Pablo Neruda. O guia nos disse que na nossa parada haveria outro ponto de informações para turistas (que funcionam super bem lá) e lá a funcionária nos perguntou: Sabem o que é um colectivo? Eu, super confiante, respondi que sim, pensando que era a forma como eles chamavam os ônibus. Bom… não era. Quando chegamos ao local indicado, umas duas quadras do posto de informações, o que havia era um tipo de beco, cheio de carros parados, no qual não caberia um ônibus. Fiquei confusa e resolvi perguntar para uma mulher que aguardava com uma criança no colo no lugar onde se indicava o número 40 onde eu poderia apanhar o “colectivo 38”. Ela me indicou um carro velho com o número 38 na porta e disse: aproveite que já tem dois passageiros! Só então eu entendi que o tal “colectivo” era um táxi coletivo! Embarcamos rindo e descobrimos que, como Valparaíso é uma cidade com muitas ladeiras (os

Taxis coletivos de Valparaíso

chilenos dizem que é uma cidade em dois andares) as pessoas usam esses táxis coletivos que fazem rotas fixas. Aprendi que um pouco de humildade não faz mal a ninguém, mas preciso confessar, foi muito , muito divertido. Descemos na esquina da La Sebastiana e, quando entramos meu marido me olhou e disse: “Se chegamos aqui por nossa própria conta, chegaremos em qualquer lugar que quisermos!”

A casa de Valaparaíso reflete a personalidade de Neruda, assim como as outras. A particularidade dessa em especial é que esta casa foi comprada por ele e Matilda em parceria com um casal de amigos – Marie Martner e seu marido Francisco Velasco (foi ela que fez todos os lindos mosaicos de pedra nas casas de Isla Negra e na Chascona também). Os dois casais dividiram a casa da seguinte forma: Velasco e Martner ficaram com o subterrâneo, o pátio e os dois primeiros pisos. Neruda e Matilde ficaram com o terceiro e quarto pisos e a torre. A Fundação Pablo Neruda comprou a parte dos amigos de Neruda para transformar a casa em Museu.

Como todas as casas do poeta, essa também tem um nome e a história do nome vem do antigo proprietário, o espanhol Sebastián Collado, que havia iniciado a obra, mas morreu antes de concluí-la. Neruda gostou daquela casa meio estranha e cheia de escadas, cuja torre Dom Sebastián queria que fosse um viveiro de pássaros.

Conta-se que, quando estava decorando a casa, Neruda colocou uma grande foto de Walt Whitman na parede e um dos pedreiros que terminavam a reforma perguntou se era o seu pai. Ele respondeu: Sim, é meu pai na poesia.

Na sala redonda há um cavalo de carrossel antigo e, na sala contígua, junto à janela, está a famosa poltrona Las Nubes na qual se sentava o poeta para olhar o belíssimo céu de Valparaíso.

Las Nubes

Olhar todos esses objetos que cercaram a vida do poeta foi muito emocionante, mas, quando encontrei a poesia “As coisas” naquela sala não pude conter as lágrimas. Neruda se autodefinia como um “coisista”. Ele gostava de coisas, de objetos. E eu me identifico imensamente com ele. Minha casa é cheia de quinquilharias trazidas de viagens, de lojinhas, de lugares. Por isso me emocionei tanto ao conhecer as coisas da vida do Neruda. Porque elas não eram só objetos inanimados. Ele as amava, as nomeava e se importava com elas. Ele impregnou a sua marca nessas coisas e, com essa marca, elas passaram a ser únicas e valiosas. A estrofe final da Ode às coisas deixa esse sentimento muito claro:

“O irrevogável
rio
das coisas:
ninguém pode dizer
que eu amei
apenas
peixes,
ou as plantas da floresta e do campo,
que eu amei
apenas
aquelas coisas que salto e subo, desejo, e sobrevivo.
Não é verdade:
muitas coisas conspiraram
para me contar a história toda.
Eles não só me tocam,
ou a minha mão tocou-lhes:
eles foram

Bar de La Sebastiana

tão perto
que eles eram uma parte
do meu ser,
eles eram tão vivos em mim
que vivi metade da minha vida
e morri metade de mim.”

Quando chegamos no alto da torre vimos o escritório onde Neruda escrevia em uma pequena escrivaninha com a fantástica vista do porto de Valparaíso. Lá estavam alguns escritos a mão (creio que cópias), em tinta verde e eu li “Para Sebastiana”. Só de me lembrar já começo a chorar novamente. Fiquei imaginando o poeta salvando as portas condenadas e usando-as na sua nova casa. Compreendi o amor e o cuidado envolvido em cada uma das coisas que estavam naquele lugar onde Neruda e Matilde passaram o seu derradeiro reveillon juntos.

As casas de Neruda são fascinantes.  E são lugares onde viveu o amor nas suas mais variadas formas: o amor romântico, o amor à beleza, o amor aos amigos, o amor às coisas. Neruda não foi só o poeta do amor às mulheres. Ele escreveu e viveu o amor em sua plenitude. Eu adorei conhecer as suas casas, as suas coisas e a sua intimidade. Gostei ainda mais de dividir essas experiências com o homem que amo e que me compreende e me acompanhou nessa peregrinação pelas casas do meu poeta favorito. Do agora nosso poeta favorito. Sugiro que, quando visitarem o Chile de Neruda, o façam com o seu amor.

Escritório da torre de La Sebastiana

Para “A Sebastiana”

Eu construí a casa.                                                                                                                             Primeiramente fi-la  de ar.

Depois hasteei a bandeira
e deixei-a pendurada
no firmamento, na estrela,
na claridade e na escuridão.                                                                                                                        Cimento, ferro, vidro,
eram a fábula,
valiam mais que o trigo e como o ouro,
era preciso procurar e vender,
e assim um camião chegou:
desceram sacos e mais sacos,
a torre fincou-se na terra dura                                                                                                                                – mas isto não basta, disse o construtor,
falta cimento, vidro, ferro, portas – ,
e nessa noite não dormi.

Mas crescia,
cresciam as janelas
e com pouca coisa,
projetando, trabalhando,
arremetendo-lhe com o joelho e o ombro
cresceria até ficar completada,
até poder olhar pela janela,
e parecia que com tanto saco
poderia ter teto e subir
e agarrar-se, por fim, à bandeira
que suspensa do céu agitava ainda as suas cores.

Dediquei-me às portas mais baratas,
às que morreram
e foram arrancadas das suas casas,
portas sem parede, rachadas,
amontoadas nas demolições,
portas já sem memória,
sem recordação de chave,                                                                                                                                        e disse: “Vinde
a mim, portas perdidas:
dar-vos-ei casa e parede
e mão que bate,
oscilareis de novo abrindo a alma,
velareis o sono de Matilde
com as vossas asas que voaram tanto.”

Então a pintura
chegou também lambendo as paredes,
vestiu-as de azul-celeste e cor-de-rosa
para que se pusessem a bailar.
Assim a torre baila,
cantam as escadas e as portas,
sobe a casa até tocar o mastro,
mas o dinheiro falta:                                                                                                                                         faltam pregos,
faltam aldrabas, fechaduras, mármore.
Contudo, a casa
vai subindo
e algo acontece, um latejo
circula nas suas artérias:
é talvez um serrote que navega
como um peixe na água dos sonhos
ou um martelo que pica
como um pérfido pica-pau
as tábuas do pinhal que pisaremos.

Algo acontece e a vida continua.

A casa cresce e fala,
aguenta-se nos pés,
tem roupa pendurada num andaime,
e como pelo mar a primavera
nadando como uma ninfa marinha
beija a areia de Valparaíso,

não se pense mais: esta é a casa:
tudo o que lhe falta será azul,
agora só precisa de florir.
E isso é trabalho da Primavera.

(Neruda, Pablo, Plenos Poderes, Tradução de Luís Pignatelli, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1962, p.73)

 

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Minha adoração pela poesia de Pablo Neruda é antiga. E quando ouvi falar pela primeira vez de Isla Negra sempre imaginei que fosse uma ilha próxima à costa do Pacífico onde o  poeta escrevia seus poemas de amor inesquecíveis com suas canetas de tinta verde. Mas não. Isla Negra é o nome que Neruda deu à casa (ela se chamava Las Gaivotas antes, mas ele mudou o seu nome por causa dos rochedos escuros do entorno), ele gostava de nomear  casas e coisas, tornando-as, assim, únicas e valiosas.

Eu e meu marido resolvemos nos aventurar e ir sozinhos (quero dizer fora de excursões turísticas) para Isla Negra. A casa fica num pequeno balneário chamado El Quisco, mas precisamos pegar um ônibus de turismo cujo destino final se chamava Algarrobo. Pedimos ao motorista que nos deixasse em Isla Negra (há uma parada na esquina da casa – na Calle Poeta Neruda). De Santiago a viagem dura cerca de uma hora e meia.

A casa de Isla Negra é a principal casa-museu da Fundacion Neruda (http://www.fundacionneruda.org) e para lá vão muitos turistas. Senti a diferença do ambiente aconchegante de La Chascona. Na casa de Santiago me senti uma visita querida. Em Isla Negra não tem como não se sentir um turista. A culpa desse sentimento deve ser minha, uma vez que tinha tantas expectativas.

A casa , todavia, é formidável. Quando pus meus olhos  nos objetos dos quais já havia lido antes fiquei deslumbrada. O passeio revela a essência de Neruda e os detalhes revelam o seu espírito bem humorado.

É nesta casa que estão as numerosas coleções do poeta. Logo na entrada, na sala da lareira, estão a maior parte dos ‘mascarones de proa’ – não consigo chamá-las de carrancas, por isso escolhi usar o termo em espanhol mesmo.  Essa sala é impressionante, com todas essas figuras suspensas ao longo do cômodo. A mais famosa de todas, Maria Celeste, está lá.  Neruda se refere à ela em suas memórias – Confesso que vivi – assim:

“Tenho carrancas e mais carrancas. A menor e mais deliciosa, que muitas vezes Salvador Allende tentou me arrebatar, chama-se Maria Celeste. Pertenceu a um navio francês, de tamanho menor, e provavelmente não navegou senão nas águas do Sena. De cor escuram esculpida em madeira de azinheira, com tantos anos e viagens virou morena para sempre. É uma mulher pequena que parece voar com os sinais do vento talhando suas belas vestes do Segundo Império. Acima das covinhas das faces, os olhos de louça olham o horizonte. E ainda que pareça estranho, estes olhos choram durante o inverno, todos os anos. Não há explicação para isso. A madeira tostada  terá talvez alguma impregnação que recolhe a umidade. Mas o certo é que esses olhos franceses choram no inverno e que eu vejo todos os anos as preciosas lágrimas descerem pelo pequeno rosto de Maria Celeste.” (Confesso que vivi – 14ª edição – Ed. Difel – 1981 – p. 272/273)

Nós visitamos a casa percorrendo sozinhos os seus cômodos, com um audioguia – que se parecia com uma espécie de telefone e falava em um português engraçado.  Quando Neruda a comprou era uma pequena casa de pedra e ela a foi aumentando até o tamanho atual – mais de 500 metros quadrados.

Os cômodos da casa me despertaram as mais variadas emoções. A coleção de escaravelhos é, com toda a certeza, a que menos me atraiu. O bar em cujas vigas de madeira Neruda gravava os nomes dos amigos me deixou emocionada. Ouvi lá que ele dizia que só perdia seus amigos para a morte. Não duvido.

Lágrimas escorreram dos meus olhos quando vi o cavalo em tamanho natural. A história por traz desse ‘brinquedo’ é fascinante. Na cidade da infância de Neruda havia uma loja que vendia artigos de couro. Em frente à este estabelecimento ficava esse cavalo que o poeta, ainda menino, admirava todos os dias. Dizia para o dono da loja que um dia compraria aquele cavalo. Muitos anos depois, Neruda ficou sabendo que a loja havia pego fogo e que haveria um leilão do que se havia salvado. Cumprindo sua promessa infantil, ele arremata o cavalo cuja cauda havia sido queimada. Para celebrar o fato, Neruda convida vários amigos para uma festa à fantasia e diz aos amigos que tragam presentes para o seu cavalo. Muitas pessoas trazem celas, arreios e outros acessórios, mas três de seus amigos trazem um rabo para o cavalo. Não querendo desapontar nenhum amigo, Neruda coloca os três rabos no cavalo, dois na cauda e o outro na crina. E depois declara que este deve ser o cavalo mais feliz do mundo, pois tem três caudas.

Saindo da ‘baia’ do cavalo chega-se ao pequeno escritório onde ele escrevia. O telhado é de zinco, pois ele gostava de ouvir o som da chuva batendo no teto. Lá está a mesa que ele ganhou de presente do mar. Conta-se que Neruda observava o mar numa manhã, depois de uma noite de tempestade.  Ele mirava o horizonte  viu uma madeira flutuando perto dos rochedos  chamou sua mulher e disse: “Matilde, venha ver a mesa que o mar trouxe para o poeta!” Existem duas versões para esta história. Uma conta que eles ficaram sentados na praia junto aos rochedos esperando para resgatar a tábua o dia todo. A outra versão é a de que Matilde teria mergulhado e trazido a porta que se transformou na mesa do escritório. É nessa mesa que repousa  uma das mãos de Matilde que Neruda mandou forjar em bronze.

Esse é o último cômodo que Neruda e Matilde construíram na casa de Isla Negra. Anexo à ele há uma sala que a Fundación Neruda construiu para realizar um dos últimos desejos dele: uma sala que abrigasse sua coleção de ‘caracolas mariñas’. Eu que já estava emocionadíssima chorei ao ver o desejo realizado postumamente. 

Da sala das caracolas tivemos acesso ao túmulo onde repousam Pablo e Matilde. Apesar de seu desejo expresso de ser enterrado em Isla Negra, os restos mortais de Neruda só foram trasladados para lá em 1992, quase vinte anos após a sua morte. Ele havia escrito, há quase cinquenta anos, no seu ‘Canto General’:

“Compañeros, enterradme en Isla Negra, / frente al mar que conozco, a cada área rugosa de piedras/ y de olas que mis ojos perdidos/ no volverán a ver…”

Agora Pablo e Matilde descansam na casa que amaram graças ao fim da ditadura no Chile. Preciso dizer que precisei de muita coragem para me acercar do túmulo. Apesar de Pablo Neruda ter morrido antes mesmo do meu nascimento, ter a certeza absoluta de sua morte me foi doloroso. Racionalmente é inexplicável, eu sei. Mas eu sou assim mesmo. Até hoje não consegui terminar de ler Solo de Clarineta pois sei que Érico Veríssimo morreu antes de concluir suas memórias. A verdade é que sentamos num banco e ficamos fitando a sepultura em um silêncio emocionado.

Em frente ao túmulo, a vista do mar gelado do Pacífico é de tirar o fôlego. Saímos abraçados, tristes, porém reconfortados pelo último desejo do poeta se realizar.

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Eu tinha esse plano de narrar a viagem ao Chile que fiz com o meu marido de uma forma ordenada, dia-a-dia, contando todas as nossas experiências de forma organizada e cronológica. Ledo engano. Eu não sou assim tão ordeira, e por conta dessa tentativa frustrada de organização, acabei deixando de escrever sobre a viagem, pois o que deveria ser um prazer virou uma obrigação não tão agradável. Pois bem, abandonei minha meta original e vou contar as visitas a La Chascona – casa de Santiago de Pablo Neruda.

Bom, eu sou uma grande admiradora da poesia apaixonada de Neruda. Me encanta a forma como ele valoriza as coisas mais simples da vida, como uma cebola por exemplo. Ele escreveu poemas para coisas simples e telúricas e consegue tocar a minha alma com suas palavras.

 Na Calle Fernando Marquez de la Plata 0192 Barrio Bellavista, Santiago fica La Chascona, primeira casa de Neruda que visitamos. Só de ver a placa externa que mostra a localização da casa, com um sol com olhos e boca, já fiquei emocionada. O sol estilizado, assim como o nome da casa,  são uma referência aos cabelos ruivos e encaracolados de sua terceira esposa, Matilde Urrutia. Chascona quer dizer despenteada ou desgrenhada, mas também é uma alusão à forma como os cabelos de uma mulher se parecem assim que ela acorda depois de uma noite de amor.

A casa esbanja um romantismo lírico do amor de Pablo e Matilde. Ela foi sua amante antes de se casar com Neruda e La Chascona foi o ninho de amor de ambos durante algum tempo. O amor escondido de ambos aparece em dedicatórias de livros de poesia (Ele dedicava ‘Para Rosário’, já que este era o segundo nome de Matilde), na tela de Diego Rivera na qual Matilde aparece com duas cabeças e o perfil de Neruda aparece em seus cabelos (há também uma dedicatória na tela que diz: Para Pablo e Rosário) e nas iniciais P e M do armário de roupas de ambos.

A casa só pode ser visitada com um guia e o nosso tour foi exclusivo o que tornou a vista muito íntima, pois fomos batendo papo com a guia.

Visitar os cômodos repletos das coisas que Neruda colecionou e amou foi a realização de uma das minhas fantasias de fã que beira à tietagem.  Vi algumas das coisas mais magnificas, como a coleção de objetos gigantes que Pablo Neruda trouxe de Temuco – cidade de sua infância. A guia nos contou que, como a maior parte da população era analfabeta, o marketing do comércio consistia em colocar objetos grandes em frente às lojas para que os clientes soubessem o que ali se comercializava. No bar da Chascona estão um par de sapatos  e um relógio despertador imensos.

No seu escritório há um astrolábio belíssimo, mas o que mais me chamou a atenção foi uma edição de ‘Confesso que he vivido’ – autobiografia de Neruda com a capa de ‘Tereza Cristina cansada de guerra’ de Jorge Amado. A história por trás do livro é a seguinte: a morte de Neruda deu-se poucos dias após o golpe de Estado que depôs Salvador Allende e a publicação das memórias de Pablo Neruda foram proibidas no Chile. Matilde pede ao compadre Jorge Amado (Neruda foi padrinho de Paloma – filha de Jorge Amado e Zélia Gattai) que a ajudasse a publicar a obra no Chile. Jorge Amado e Matilde decidem então fazer uma edição do livro de Neruda com a capa do livro ‘Tereza Cristina cansada de guerra’. É dessa forma clandestina que chegam as memórias ao Chile, em meio à ditadura Pinochet.  Um pouco mais adiante, ainda no armário de vidro do escritório está a medalha de ouro do Nobel. A casa é encantadora. Vi fotos de Neruda com Vinicius de Moraes, com Jorge Amado e Pablo Picasso. Vi outras fotos mais dolorosas, do velório de Neruda na Chascona arruinada pelos militares. A casa foi invadida e destruída enquanto Neruda agonizava no hospital. Essas fotos chocam pela brutalidade. Durante a invasão um quadro de Picasso foi destruído. As lágrimas me vieram aos olhos como se o velório ainda estivesse acontecendo.

Nessa visita aprendi a respeitar Matilde Urrutia. Não foi à toa o grande amor que ela despertou em Pablo Neruda. Que mulher corajosa! Ela insistiu em velar o marido na casa devastada para que o mundo soubesse o que se passava no Chile. Ao contrário de se acovardar ante a opressão, ela se levanta contra a mesma e corajosamente publica as memórias e as traz para o Chile. Ela realmente faz jus aos Cem sonetos de amor e a tantos outros mais. Segue a dedicatória de Cem Sonetos de amor.

“CEM SONETOS DE AMOR – PABLO NERUDA A MATILDE URRUTIA “Senhora minha muito amada, grande padecimento tive ao escrever-te  estes malchamados sonetos e bastante me doeram e custaram mas a alegria de oferecê-los a ti é maior que uma campina. Ao propô-lo bem sabia que ao costado de cada um, por afeição eletiva e elegância, os poetas de todo tempo alinharam rimas que soaram como prataria cristal ou canhonaço. Eu, com muita humildade, fiz estes sonetos de madeira, dei-lhes o som desta opaca e pura substância e assim devem alcançar teus ouvidos. Tu e eu caminhando por bosques e areais, por lagos perdidos, por cinzentas latitudes recolhemos fragmentos de pau puro, de lenhas submetidos ao vaivém da água e de intempérie. De tais suavíssimos vestígios contruí com machado, faca, canivete estes madeirames de amor e edifiquei pequenas casas de quatorze tábuas para que nelas vivam teus olhos que adoro e canto. Assim estabelecidas minhas razões de amor te entrego esta centúria: soneto de madeira que só se levantaram porque lhes deste a vida.  Outubro de 1959”

Sai de La Chascona com aquela impressão que fui visitar um grande amigo. Senti-me uma íntima sua entre as coisas com as quais conviveu e amou. Se antes admirava o poeta, hoje admiro também o homem que escreveu as poesias. Voltamos uma vez mais à La Chascona para levar uns amigos cariocas que conhecemos na nossa viagem à Santiago. E pretendo voltar outras vezes à esta casa quando voltar à Santiago, e visitar Matilde e Pablo outra vez. 

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“Tropeçou no sol da manhã
e mergulhou no azul do outono.”
(Helena Kolody)
Obra: Campo de Trigo com Corvos (Wheatfield with Crows)
Vincent van Gogh, 1890
óleo sobre tela
50,5 x 103 cm
Van Gogh Museum, Amsterdam

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A melhor coisa de ler é se encontrar. Ou se perder. Ou discordar. Ou se irritar e esbravejar. Sentir, enfim. Estava lendo a Clarice Lispector descrevendo o seu modo de agir e me vi nela, o que me trouxe um sorriso ao rosto. É tão reconfortante saber que outros agem da mesma forma que eu. Positiva e negativamente. Eu sou extremamente impulsiva e o resultado na minha vida é exatamente igual ao descrito pela grande escritora que admiro.

“Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.

Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. […] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.” (Texto extraído do livro Aprendendo a viver, Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2004)

Cena do filme Emma - baseado no livro homônimo de Jane Austen

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“Não quero viver num mundo sem catedrais. Preciso de sua beleza e de sua transcendência. Preciso delas contra a vulgaridade do mundo. Quero erguer o meu olhar para seus vitrais brilhantes e me deixar cegar pelas cores etéreas. Preciso do seu esplendor. Preciso dele contra a gritaria no pátio da caserna e a conversa frívola dos oportunistas. Quero escutar o som oceânico do órgão, essa inundação de sons sobrenaturais. Preciso dele contra a estridência ridícula das marchas. Amo as pessoas que rezam. Preciso de sua imagem. Preciso dela contra o veneno traiçoeiro do supérfluo e da negligência. Quero ler as poderosas palavras da Bíblia. Preciso da força irreal de sua poesia. Preciso dela contra o abandono da linguagem e a ditadura das palavras de ordem. Um mundo sem essas coisas seria um mundo no qual eu não gostaria de viver.

Mas existe ainda um outro mundo no qual eu não quero viver: um mundo em que se demoniza o corpo e o pensamento independente e onde as melhores coisas que podemos experimentar são estigmatizadas e consideradas pecado. O mundo em que nos é exigido amar os tiranos, os opressores e assassinos, mesmo quando seus brutais passos marciais ecoam atordoantes pelas vielas ou quando se esgueiram, silenciosos e felinos, como sombras covardes pelas ruas e travessas para enterrar, por trás, o aço faiscante no coração de suas vítimas. Entre todas as afrontas que se lançaram do alto dos púlpitos às pessoas, uma das mais absurdas é, sem dúvida, a exigência de perdoar e até de amar essas criaturas. Mesmo se alguém o conseguisse, isso significaria uma falsidade sem igual e um esforço de abnegação desumano que teria que ser pago com a mais completa atrofia. Esse mandamento, esse desvairado e absurdo mandamento do amor para com o inimigo, serve apenas para quebrar as pessoas, para lhes roubar toda a coragem e toda a autoconfiança e para torná-las maleáveis nas mãos dos tiranos, para que não consigam encontrar forças para se levantar contra eles, se necessário, com armas.

Venero a palavra de Deus, pois amo a sua força poética. Abomino a palavra de Deus, pois odeio a sua crueldade. Este amor é um amor difícil, pois tem que distinguir constantemente entre o brilho das palavras e a subjugação verborrágica a uma divindade presumida. Este ódio é um ódio difícil, pois como é que podemos nos permitir odiar palavras que fazem parte da própria melodia da vida nessa parte da Terra? Palavras que para nós foram dadas como finais, quando começamos a pressentir que a vida visível não pode ser toda a vida? Palavras sem as quais não seríamos aquilo que somos?

Mas não nos esqueçamos: são palavras que exigem de Abraão que sacrifique o seu próprio filho como se fosse um animal. O que fazer com a nossa ira quando lemos isto? Um Deus que acusa Jó de disputar com ele quando nada sabe e nada entende? Quem foi que o criou assim? E por que seria menos injusto quando Deus lança alguém no infortúnio sem motivo do que quando um comum mortal o faz? E Jó não teve todos os motivos para a sua queixa?

Livro: Trem Noturno para LisboaA poesia da Palavra divina é tão avassaladora que cala tudo e reduz toda e qualquer contestação a um uivo lastimável. É por isso que não se pode simplesmente pôr a Bíblia de lado, mas ela deve ser jogada fora assim que estejamos fartos de suas exigências e do jugo que ela nos impõe. Nela, manifesta-se um Deus avesso à vida, sem alegria, um Deus que quer restringir a poderosa dimensão de uma vida humana – o grande círculo que descreve quando está em plena liberdade – a um só e limitado ponto de obediência. Carregados com o fardo da mágoa e o peso do pecado, ressequidos pela subjugação e pela falta de dignidade da confissão, a testa marcada pela cruz de cinza, devemos marchar em direção à sepultura, na esperança mil vezes contestada de uma vida melhor a Seu lado; mas como pode ser melhor ao lado de alguém que antes nos privou de todos os prazeres e de todas as liberdades?

E, no entanto, as palavras que vêm de Deus e para ele se dirigem são de uma beleza avassaladora. Como as amei nos tempos de coroinha! Como me embriagaram no brilho das velas do altar! Como pareceu claro, tão claro quanto a luz do sol, que aquelas palavras fossem a medida de todas as coisas! Como parecia incompreensível, para mim, que as pessoas dessem importância também para outras palavras, quando cada uma delas não podia significar mais do que dispersão desprezível e perda da essência! Ainda hoje paro quando escuto um canto gregoriano, e durante um instante irrefletido fico triste que este estado de embriaguez tenha dado lugar irremediavelmente à rebelião. Uma rebelião que se ateou em mim como uma labareda quando, pela primeira vez, escutei estas palavras: sacrificium entellectus.

Como podemos ser felizes sem a curiosidade, sem questionamentos, dúvidas e argumentos? Sem o prazer de pensar? As duas palavras que são como um golpe de espada que nos decapita não significam nada menos senão a exigência de vivenciar nossos sentimentos e nossas ações contra o nosso pensar, são um convite para uma dilaceração ampla, a ordem de sacrificar precisamente o núcleo da felicidade: a harmonia interior e a concordância interna de nossa vida. O escravo na galé está acorrentado, mas pode pensar o que quiser. Mas o que Ele, o nosso Deus, exige de nós, é que interiorizemos com nossas próprias mãos a escravidão nas profundezas mais profundas e que, ainda por cima, o façamos voluntariamente e com alegria. Pode haver escárnio maior?

Em sua onipresença, o Senhor é alguém que nos observa dia e noite, que a cada hora, cada minuto, cada segundo registra nossas ações e nossos pensamentos, nunca nos deixa em paz, nunca nos permite um momento sequer em que possamos estar a sós conosco. Mas o que é um ser humano sem segredos? Sem pensamentos e desejos que apenas ele próprio conhece? Os torturadores, os da Inquisição e os atuais, sabem: corte-lhe a possibilidade de se retirar para dentro, nunca apague a luz, nunca o deixe a sós, negue-lhe o sono e o sossego, e ele falará. O fato de a tortura nos roubar a alma significa: ela destrói a solidão com nós mesmos, da qual necessitamos como do ar para respirar. O Senhor, nosso Deus, nunca percebeu que, com sua desenfreada curiosidade e sua repugnante indiscrição, nos rouba uma alma que, ainda por cima, deve ser imortal?

Quem é que realmente quer ser imortal? Quem quer viver por toda a eternidade? Como deve ser tedioso e vazio saber que não tem a menor importância o que acontece hoje, este mês, este ano, pois ainda sucederão infinitos dias, meses, anos. Infinitos no sentido literal da palavra. Alguma coisa ainda contaria, neste caso? Não precisaríamos mais contar com o tempo, não perderíamos mais oportunidades, não teríamos mais que nos apressar. Seria indiferente se fizéssemos alguma coisa hoje ou amanhã, totalmente indiferente. Diante da eternidade, negligências milhões de vezes repetidas se tornariam um nada e não faria mais sentido lamentar alguma coisa, pois sempre haveria tempo para recuperar. Não poderíamos nem mesmo nos entregar à simples fruição do dia, pois essa sensação de bem-estar decorre da consciência do tempo que se esvai, o ocioso é um aventureiro perante a morte, um cruzado contra o ditado da pressa. Onde ainda existe espaço para o prazer em esbanjar tempo quando existe tempo sempre, em todo lugar, para tudo e para todos?

Um sentimento não é idêntico quando se repete. Tinge-se de outras nuances pela percepção do seu retorno. Cansamo-nos dos nossos sentimentos quando se repetem muitas vezes ou duram demais. Na alma imortal surgiria, portanto, um tédio gigantesco e um desespero gritante perante a certeza de que aquilo nunca acabará, nunca. Os sentimentos querem evoluir, e nós com eles. São o que são porque repelem o que já foram e porque fluem em direção a um futuro onde mais uma vez se afastarão de nós. Se esse caudal desaguasse no infinito, milhares de sensações teriam que surgir dentro de nós, que, acostumados a uma dimensão limitada de tempo, nunca conseguiríamos imaginar. De modo que, pura e simplesmente, nem sabemos o que nos é prometido quando ouvimos falar da vida eterna. Como seria sermos nós próprios na eternidade, sem o consolo de podermos, um dia, vir a ser redimidos da obrigação de sermos nós? Não o sabemos, e o fato de nunca o virmos a saber representa uma bênção. Pois uma coisa podemos estar certos: seria um inferno, esse paraíso da imortalidade.

É a morte que confere o instante a sua beleza e o seu pavor. Só através da morte é que o tempo se transforma num tempo vivo. Por que e que o Senhor, Deus onisciente, não sabe disso? Por que nos ameaça com uma imortalidade que só poderia significar um vazio insuportável?

Não quero viver num mundo sem catedrais. Preciso do brilho de seus vitrais, de sua calma gelada, de seu silêncio imperioso. Preciso das marés sonoras do órgão e do sagrado ritual das pessoas em oração. Preciso da santidade das palavras, da elevação da grande poesia. Preciso de tudo isso. Mas não menos necessito da liberdade e do combate a toda a crueldade. Pois uma coisa não é nada sem a outra. E que ninguém me obrigue a escolher.

(“Reverência e Aversão Perante a Palavra de Deus”. Discurso de Amadeu de Prado. O Trem Noturno para Lisboa. Capítulo 19)

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Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos 
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado,
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até à exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.

Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,

a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.
No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.”

Carlos Drummond de Andrade, in ‘As Impurezas do Branco’

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