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Archive for the ‘Culinária’ Category

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Com o final do ano vem esse monte de comemorações. Comemoramos datas fixas do calendário, como se a alegria e a felicidade marcassem a hora para acontecer. As festas são legais e encontrar a família, promover a comilança e o consumo é bacana, mas, penso se isso tudo não nos é meio imposto, meio protocolar. Digo isso porque antes da Ceia da véspera do dia 25 de dezembro vivi um stress de compras, o dia 24 foi destinado à cozinha (começou no dia 23 à noite quando coloquei o pernil para marinar no tempero), depois assar e decorar os pratos, se arrumar, arrumar as crianças e chegar na casa da mãe, onde a festa teria lugar. Foi tanto stress que na hora da ceia eu estava exausta!

No dia 26, já meio refeitos das festas, eu e o meu marido nos vimos sozinhos em casa. Ele me disse: “Vamos dar uma voltinha?” E saímos meio sem rumo (eu desconfio que ele já tinha o roteiro em mente, mas esse palpite ainda não está confirmado). Fomos ao centro da cidade, que, essa época do ano está vazio, quase às moscas. Estacionamos na rua mesmo (o que é um feito heroico nos dias de hoje)  e saímos andando de mãos dadas em meio ao fim de tarde surpreendentemente fresco para dezembro.

bar_stuartEle me levou ao Bar Stuart e aqui cabe um parênteses. O bar Stuart foi fundado em 1904, e é o bar mais antigo da cidade de Curitiba, fato este reconhecido pela Prefeitura Municipal através de um marco histórico em frente ao bar, por fazer parte da história da cidade. Este bar fica a poucas quadras do calçadão da Rua XV de Novembro e muito perto da menor Avenida do Mundo, que conta com somente uma quadra, a Avenida Luiz Xavier. Explico isso tudo porque meu pai tinha escritório no Edifício Moreira Garcez, o primeiro “arranha céu” de Curitiba, com seus impressionantes 8 andares.

As lembranças mais caras da minha infância envolvem o grande elevador que possuía um gradil de ferro retrátil e fazia um barulho imenso. Do escritório em si me lembro muito pouco, quase nada, na verdade. Lembro-me bem da sorveteria da Barion que tinha sorvetes italianos e de ficar no Bondinho desenhando com giz-de-cera aquecido na vela.
Conto tudo isso, pois eu andava pelo centro da cidade e me lembro bem do meu pai dizer que aquele lugar (o Bar Stuart) era um lugar onde só os homens iam. Essa frase ficou fortemente gravada na minha memória e eu ficava pensando, nas minhas elucubrações infantis, que aquele era um lugar Edifício Moreira Garcezabsolutamente  proibido para as mulheres.
O que me causa estranheza hoje é o fato de eu nunca haver questionado o porquê da proibição das mulheres frequentarem o local. O que sei dizer é que esse fato ficou gravado na minha memória e que eu nunca havia entrado no Bar Stuart, dada a minha condição feminina.
Contei essa história para o meu marido e ele, que já queria provar as iguarias exóticas do cardápio me levou lá nesse fim de tarde pós natalino.
Foi inevitável, me senti uma infratora. Uma infratora bem contente, diga-se de passagem. Ele me disse, antes de entrarmos, que lá dentro tinham apenas 3 mulheres ao que eu retruquei, agora serão quatro. Sentamos em uma mesa do centro do pequeno bar, próxima ao balcão. No telão passava um filme do Elvis, “Viva Las Vegas”. Pedimos dois chopps, uma porção de carne de jacaré e uma porção de batatas fritas (eu queria ter algo seguro para o qual fugir, caso não gostasse do jacaré).
Eu permanecia com aquela sensação de estar fazendo algo proibido, o que tornou toda a experiência ainda mais agradável e intensa. Como diria o Santo Agostinho séculos atrás em suas Confissões, o proibido é o que é saboroso, o resultado, no caso dele as peras, nem interessa tanto. E eu fiquei observando aquele lugar antes proibido às pessoas do meu gênero. E o bar era pequeno, com mesas e cadeiras e pessoas simples. Era tudo absoluta e completamente trivial, mas eu permanecia com aquele grande sorriso no rosto e um pouco de receio aguardando a chegada do jacaré.
Jacaré do Stuart

Jacaré do Stuart

E sabe o que mais? O jacaré tem a consistência de peixe e o sabor de peito de frango. Meu corajoso marido ainda pediu uma porção de rã. No início eu disse que nem provaria, mas ele me convenceu. A rã parece asa de galinha.

Saímos do Bar e caminhamos pela praça Osório de mãos dadas, depois paramos numa banca de sucos naturais. Passeamos sem pressa até começar uma chuva fina, tão característica da capital paranaense.
Voltei para casa pensando que esses momentos triviais de felicidade simples é que tornam a vida prazerosa. Não tenho nada contra as grandes comemorações com toda a sua pompa, mas, confesso, os pequenos prazeres da vida são os que me atraem mais.

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