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Archive for the ‘Poesia’ Category

Eu e meu marido saímos cedo para a viagem com destino a Valparaíso, com a intenção de visitarmos a única casa de Neruda que nos faltava conhecer. Nossa viagem ao Chile estava chegando ao fim e já estávamos mais confiantes ao pegar o ônibus rumo a Valparaíso. Foi realmente fácil, uma vez que tem ônibus saindo de Santiago de 15 em 15 minutos para Valparaíso e a estação rodoviária é integrada ao metrô. A dica é: compre a passagem de ida e volta (é mais barato) e deixe para marcar o horário da volta na rodoviária, um pouco antes de voltar. Bom, pegamos um ônibus bem confortável, tipo leito, com ar condicionado e outras comodidades. A viagem dura em torno de uma hora e meia.

Quando chegamos em Valparaíso um guia local nos abordou logo na saída da rodoviária (acho que temos muita cara de turista…) e perguntou se precisávamos de transporte ou de alguma informação. Não, não era alguém querendo o nosso dinheiro, era um guia pago pelo governo, muito prestativo, que nos deu um mapa da cidade e nos disse como deveríamos fazer para ir até a La Sebastiana. Ele nos indicou que pegássemos um trolebus – um ônibus elétrico dos anos 40 – que funciona desde 1952. Como só existe uma linha, pegamos esse tipo de ônibus junto com crianças que voltavam da escola e outros habitantes da cidade. Foi bem bacana, embora eu estivesse um pouco preocupada em parar no lugar certo para pegar o “colectivo 38” que nos levaria até a porta da casa de Pablo Neruda. O guia nos disse que na nossa parada haveria outro ponto de informações para turistas (que funcionam super bem lá) e lá a funcionária nos perguntou: Sabem o que é um colectivo? Eu, super confiante, respondi que sim, pensando que era a forma como eles chamavam os ônibus. Bom… não era. Quando chegamos ao local indicado, umas duas quadras do posto de informações, o que havia era um tipo de beco, cheio de carros parados, no qual não caberia um ônibus. Fiquei confusa e resolvi perguntar para uma mulher que aguardava com uma criança no colo no lugar onde se indicava o número 40 onde eu poderia apanhar o “colectivo 38”. Ela me indicou um carro velho com o número 38 na porta e disse: aproveite que já tem dois passageiros! Só então eu entendi que o tal “colectivo” era um táxi coletivo! Embarcamos rindo e descobrimos que, como Valparaíso é uma cidade com muitas ladeiras (os

Taxis coletivos de Valparaíso

chilenos dizem que é uma cidade em dois andares) as pessoas usam esses táxis coletivos que fazem rotas fixas. Aprendi que um pouco de humildade não faz mal a ninguém, mas preciso confessar, foi muito , muito divertido. Descemos na esquina da La Sebastiana e, quando entramos meu marido me olhou e disse: “Se chegamos aqui por nossa própria conta, chegaremos em qualquer lugar que quisermos!”

A casa de Valaparaíso reflete a personalidade de Neruda, assim como as outras. A particularidade dessa em especial é que esta casa foi comprada por ele e Matilda em parceria com um casal de amigos – Marie Martner e seu marido Francisco Velasco (foi ela que fez todos os lindos mosaicos de pedra nas casas de Isla Negra e na Chascona também). Os dois casais dividiram a casa da seguinte forma: Velasco e Martner ficaram com o subterrâneo, o pátio e os dois primeiros pisos. Neruda e Matilde ficaram com o terceiro e quarto pisos e a torre. A Fundação Pablo Neruda comprou a parte dos amigos de Neruda para transformar a casa em Museu.

Como todas as casas do poeta, essa também tem um nome e a história do nome vem do antigo proprietário, o espanhol Sebastián Collado, que havia iniciado a obra, mas morreu antes de concluí-la. Neruda gostou daquela casa meio estranha e cheia de escadas, cuja torre Dom Sebastián queria que fosse um viveiro de pássaros.

Conta-se que, quando estava decorando a casa, Neruda colocou uma grande foto de Walt Whitman na parede e um dos pedreiros que terminavam a reforma perguntou se era o seu pai. Ele respondeu: Sim, é meu pai na poesia.

Na sala redonda há um cavalo de carrossel antigo e, na sala contígua, junto à janela, está a famosa poltrona Las Nubes na qual se sentava o poeta para olhar o belíssimo céu de Valparaíso.

Las Nubes

Olhar todos esses objetos que cercaram a vida do poeta foi muito emocionante, mas, quando encontrei a poesia “As coisas” naquela sala não pude conter as lágrimas. Neruda se autodefinia como um “coisista”. Ele gostava de coisas, de objetos. E eu me identifico imensamente com ele. Minha casa é cheia de quinquilharias trazidas de viagens, de lojinhas, de lugares. Por isso me emocionei tanto ao conhecer as coisas da vida do Neruda. Porque elas não eram só objetos inanimados. Ele as amava, as nomeava e se importava com elas. Ele impregnou a sua marca nessas coisas e, com essa marca, elas passaram a ser únicas e valiosas. A estrofe final da Ode às coisas deixa esse sentimento muito claro:

“O irrevogável
rio
das coisas:
ninguém pode dizer
que eu amei
apenas
peixes,
ou as plantas da floresta e do campo,
que eu amei
apenas
aquelas coisas que salto e subo, desejo, e sobrevivo.
Não é verdade:
muitas coisas conspiraram
para me contar a história toda.
Eles não só me tocam,
ou a minha mão tocou-lhes:
eles foram

Bar de La Sebastiana

tão perto
que eles eram uma parte
do meu ser,
eles eram tão vivos em mim
que vivi metade da minha vida
e morri metade de mim.”

Quando chegamos no alto da torre vimos o escritório onde Neruda escrevia em uma pequena escrivaninha com a fantástica vista do porto de Valparaíso. Lá estavam alguns escritos a mão (creio que cópias), em tinta verde e eu li “Para Sebastiana”. Só de me lembrar já começo a chorar novamente. Fiquei imaginando o poeta salvando as portas condenadas e usando-as na sua nova casa. Compreendi o amor e o cuidado envolvido em cada uma das coisas que estavam naquele lugar onde Neruda e Matilde passaram o seu derradeiro reveillon juntos.

As casas de Neruda são fascinantes.  E são lugares onde viveu o amor nas suas mais variadas formas: o amor romântico, o amor à beleza, o amor aos amigos, o amor às coisas. Neruda não foi só o poeta do amor às mulheres. Ele escreveu e viveu o amor em sua plenitude. Eu adorei conhecer as suas casas, as suas coisas e a sua intimidade. Gostei ainda mais de dividir essas experiências com o homem que amo e que me compreende e me acompanhou nessa peregrinação pelas casas do meu poeta favorito. Do agora nosso poeta favorito. Sugiro que, quando visitarem o Chile de Neruda, o façam com o seu amor.

Escritório da torre de La Sebastiana

Para “A Sebastiana”

Eu construí a casa.                                                                                                                             Primeiramente fi-la  de ar.

Depois hasteei a bandeira
e deixei-a pendurada
no firmamento, na estrela,
na claridade e na escuridão.                                                                                                                        Cimento, ferro, vidro,
eram a fábula,
valiam mais que o trigo e como o ouro,
era preciso procurar e vender,
e assim um camião chegou:
desceram sacos e mais sacos,
a torre fincou-se na terra dura                                                                                                                                – mas isto não basta, disse o construtor,
falta cimento, vidro, ferro, portas – ,
e nessa noite não dormi.

Mas crescia,
cresciam as janelas
e com pouca coisa,
projetando, trabalhando,
arremetendo-lhe com o joelho e o ombro
cresceria até ficar completada,
até poder olhar pela janela,
e parecia que com tanto saco
poderia ter teto e subir
e agarrar-se, por fim, à bandeira
que suspensa do céu agitava ainda as suas cores.

Dediquei-me às portas mais baratas,
às que morreram
e foram arrancadas das suas casas,
portas sem parede, rachadas,
amontoadas nas demolições,
portas já sem memória,
sem recordação de chave,                                                                                                                                        e disse: “Vinde
a mim, portas perdidas:
dar-vos-ei casa e parede
e mão que bate,
oscilareis de novo abrindo a alma,
velareis o sono de Matilde
com as vossas asas que voaram tanto.”

Então a pintura
chegou também lambendo as paredes,
vestiu-as de azul-celeste e cor-de-rosa
para que se pusessem a bailar.
Assim a torre baila,
cantam as escadas e as portas,
sobe a casa até tocar o mastro,
mas o dinheiro falta:                                                                                                                                         faltam pregos,
faltam aldrabas, fechaduras, mármore.
Contudo, a casa
vai subindo
e algo acontece, um latejo
circula nas suas artérias:
é talvez um serrote que navega
como um peixe na água dos sonhos
ou um martelo que pica
como um pérfido pica-pau
as tábuas do pinhal que pisaremos.

Algo acontece e a vida continua.

A casa cresce e fala,
aguenta-se nos pés,
tem roupa pendurada num andaime,
e como pelo mar a primavera
nadando como uma ninfa marinha
beija a areia de Valparaíso,

não se pense mais: esta é a casa:
tudo o que lhe falta será azul,
agora só precisa de florir.
E isso é trabalho da Primavera.

(Neruda, Pablo, Plenos Poderes, Tradução de Luís Pignatelli, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1962, p.73)

 

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“Tropeçou no sol da manhã
e mergulhou no azul do outono.”
(Helena Kolody)
Obra: Campo de Trigo com Corvos (Wheatfield with Crows)
Vincent van Gogh, 1890
óleo sobre tela
50,5 x 103 cm
Van Gogh Museum, Amsterdam

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Estou lendo Fernando Pessoa, uma quase autobiografia de José Paulo Cavalcanti Filho, publicado pela editora Record. No prefácio (que o autor chama muito pomposamente de Praeludium) uma historieta sobre as dificuldades de se revisitar os locais importantes na vida de Pessoa me chamou a atenção. Passo a citar:

Assim se deu, mais um exemplo, quando fui pela primeira vez ao local em que nasceu Pessoa.  Informado de que o carrilhão da Basílica dos Mártires tocava ao meio-dia, cheguei lá dez minutos antes. Por querer estar onde ficava seu quarto, para comprovar se de lá era mesmo possível ouvir aqueles sinos e ver o Tejo. No térreo do edifício, então filial da Fidelidade Mutual Seguros, apenas havia um agente de segurança, Fernando José da Costa Araújo. Expliquei-lhe a razão da visita, mostrei o exemplaar provisório do livro e pedi autorização para subir. Comigo estavam Maria Lectícia, minha mulher, e um querido amigo brasileiro, há mais de 30 anos morando em Lisboa, o jornalista Duda Guennes. Mas o dito sr. Araújo, com cara de poucos amigos, apenas disse:

– Não tenho autorização para deixar o sr. dr. subir.

– Então, por favor, gostaria de falar com o diretor da empresa.

-Não tenho autorização para isso.

– Então, por favor, chame sua secretária ou algum outro funcionário que o possa fazer.

– O sr. dr. deve se dirigir à matriz.

– Então, por favor, me informe o telefone dessa Matriz.

– Não tenho autorização.

– Por favor, me empreste – apontei – as Páginas Amarelas.

–  Não tenho autorização.

Como que por uma conspiração do destino, e precisamente após sua última frase, ouvimos tocar o sino – a primeira “pancada tua, vibrante no céu aberto”. Precisava estar lá. Então lhe disse: – Por favor chame a polícia para me prender que, sem a sua autorização, estou subindo ao quarto andar. E subi. Para ver, sobre duas das suas janelas, um tejo brilhante e o som de sinos que tocavam sem parar. Quando voltei, o segurança estava parado, em frente ao elevador, com rosto zangado:

– O sr. dr. subiu sem minha autorização?

-Foi.

– E agora, o que hei de fazer?

– O sr. chama a polícia, vou sentar e esperar que ela venha, explicamos o ocorrido e ela decide se me prende. Ou o sr. me deixa ir.

– Não sei, sr. dr.

– Pois eu sei.

Dito isto, dei-lhe boa-tarde e fui embora. No ar frio daquele meio-dia de inverno, os sinos da aldeia de Pessoa tocaram novamente.” (in Fernando Pessoa: uma quase autobiografia/ José Paulo Cavalcanti Filho – 4ª ed. – Rio de Janeiro: record, 2011- p. 13-14)

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Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos 
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado,
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até à exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.

Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,

a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.
No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.”

Carlos Drummond de Andrade, in ‘As Impurezas do Branco’

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Vou-me Embora pra Pasárgada

Manuel Bandeira


“Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada


Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconseqüente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d’água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcalóide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.”


Texto extraído do livro “
Bandeira a Vida Inteira“, Editora Alumbramento – Rio de Janeiro, 1986, pág. 90

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“No poema

e nas nuvens,

cada qual descobre

o que deseja ver.” (Helena Kolody)

“Praia” 1939 – Fernando Calderari

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Às 16h05 de 19 de setembro de 1887 nascia na cidade do Porto Ricardo Reis, um dos heterônimos mais conhecidos de Fernando Pessoa.

Recebeu uma forte educação clássica num colégio de jesuítas e formou-se em Medicina, profissão que exerce. Vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontaneamente por ser monárquico, na sequência da derrota da rebelião monárquica do Porto contra o regime republicano. É um latinista por educação, e um semi-helenista por educação própria.

Reis é discípulo de Alberto Caeiro, admira a serenidade e a calma com que este encara a vida, por isso, inspirado pela clareza, pelo equilíbrio e ordem do seu espírito clássico greco-latino, procura atingir a paz e o equilíbrio sem sofrer, através da autodisciplina e das doutrinas gregas: Epicurismo

Doutrina baseada num ideal de sabedoria que busca a tranquilidade da alma através das seguintes regras:

Epicurismo

  • Não temer a morte – Levando o poeta ao Fatalismo, tendo a morte como única certeza na vida.
  • Procurar os simples prazeres da vida em todos os sentidos, sem preocupações com o futuro – carpe diem, mas sem excessos – Deste modo aprende a viver cada instante como se fosse o último; e faz da vida simples campestre um ideal (aurea mediocritas);
  • Fugir à dor – Como defesa contra o sofrimento, sobrepõe a razão sobre a emoção.   

Estoicismo

Doutrina que tem como ideal ético a apatia – ausência de envolvimento emocional excessivo que permite a liberdade – , e que propõe as seguintes regras para alcançar a felicidade (relativa, pois não pretende um estado de alegria mas sim de um contentamento inconsciente):

  • Dominar as paixões – Suscita uma atitude de indiferença; Recusa o amor para evitar ter desilusões, de modo a que nada perturbe a serenidade e a razão, e porque este é uma inutilidade e está já condenado, uma vez que tudo na vida tem um fim;
  • Aceitar a ordem universal das coisas, incluindo a morte – Revela a faceta conformista, considerando a vida como efêmera, um fluir para a morte e essa consciência não lhe gera nem angústia nem revolta.

Reis admite a limitação e a fatalidade desta condição humana, e pretende chegar à morte de mãos vazias de modo a não ter nada a perder; e inspirado na mitologia clássica, considera a vida como uma viagem cujo fluir e fim é inevitável.

“Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.”

(Ricardo Reis 14-2-1933)

Antes de nós

“Antes de nós nos mesmos arvoredos
Passou o vento, quando havia vento,
E as folhas não falavam
De outro modo do que hoje.

Passamos e agitamo-nos debalde.
Não fazemos mais ruído no que existe
Do que as folhas das árvores
Ou os passos do vento.

Tentemos pois com abandono assíduo
Entregar nosso esforço à Natureza
E não querer mais vida
Que a das árvores verdes.

Inutilmente parecemos grandes.
Salvo nós nada pelo mundo fora
Nos saúda a grandeza
Nem sem querer nos serve.

Se aqui, à beira-mar, o meu indício
Na areia o mar com ondas três o apaga,
Que fará na alta praia
Em que o mar é o Tempo?”

(Ricardo Reis 08-10-1914)

“Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.

(Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer nao gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassosegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento –
Este momento em que sossegadamente nao cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-as de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim – à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.”

(Ricardo Reis 12-06-1914)

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