Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘La Chascona’

Eu tinha esse plano de narrar a viagem ao Chile que fiz com o meu marido de uma forma ordenada, dia-a-dia, contando todas as nossas experiências de forma organizada e cronológica. Ledo engano. Eu não sou assim tão ordeira, e por conta dessa tentativa frustrada de organização, acabei deixando de escrever sobre a viagem, pois o que deveria ser um prazer virou uma obrigação não tão agradável. Pois bem, abandonei minha meta original e vou contar as visitas a La Chascona – casa de Santiago de Pablo Neruda.

Bom, eu sou uma grande admiradora da poesia apaixonada de Neruda. Me encanta a forma como ele valoriza as coisas mais simples da vida, como uma cebola por exemplo. Ele escreveu poemas para coisas simples e telúricas e consegue tocar a minha alma com suas palavras.

 Na Calle Fernando Marquez de la Plata 0192 Barrio Bellavista, Santiago fica La Chascona, primeira casa de Neruda que visitamos. Só de ver a placa externa que mostra a localização da casa, com um sol com olhos e boca, já fiquei emocionada. O sol estilizado, assim como o nome da casa,  são uma referência aos cabelos ruivos e encaracolados de sua terceira esposa, Matilde Urrutia. Chascona quer dizer despenteada ou desgrenhada, mas também é uma alusão à forma como os cabelos de uma mulher se parecem assim que ela acorda depois de uma noite de amor.

A casa esbanja um romantismo lírico do amor de Pablo e Matilde. Ela foi sua amante antes de se casar com Neruda e La Chascona foi o ninho de amor de ambos durante algum tempo. O amor escondido de ambos aparece em dedicatórias de livros de poesia (Ele dedicava ‘Para Rosário’, já que este era o segundo nome de Matilde), na tela de Diego Rivera na qual Matilde aparece com duas cabeças e o perfil de Neruda aparece em seus cabelos (há também uma dedicatória na tela que diz: Para Pablo e Rosário) e nas iniciais P e M do armário de roupas de ambos.

A casa só pode ser visitada com um guia e o nosso tour foi exclusivo o que tornou a vista muito íntima, pois fomos batendo papo com a guia.

Visitar os cômodos repletos das coisas que Neruda colecionou e amou foi a realização de uma das minhas fantasias de fã que beira à tietagem.  Vi algumas das coisas mais magnificas, como a coleção de objetos gigantes que Pablo Neruda trouxe de Temuco – cidade de sua infância. A guia nos contou que, como a maior parte da população era analfabeta, o marketing do comércio consistia em colocar objetos grandes em frente às lojas para que os clientes soubessem o que ali se comercializava. No bar da Chascona estão um par de sapatos  e um relógio despertador imensos.

No seu escritório há um astrolábio belíssimo, mas o que mais me chamou a atenção foi uma edição de ‘Confesso que he vivido’ – autobiografia de Neruda com a capa de ‘Tereza Cristina cansada de guerra’ de Jorge Amado. A história por trás do livro é a seguinte: a morte de Neruda deu-se poucos dias após o golpe de Estado que depôs Salvador Allende e a publicação das memórias de Pablo Neruda foram proibidas no Chile. Matilde pede ao compadre Jorge Amado (Neruda foi padrinho de Paloma – filha de Jorge Amado e Zélia Gattai) que a ajudasse a publicar a obra no Chile. Jorge Amado e Matilde decidem então fazer uma edição do livro de Neruda com a capa do livro ‘Tereza Cristina cansada de guerra’. É dessa forma clandestina que chegam as memórias ao Chile, em meio à ditadura Pinochet.  Um pouco mais adiante, ainda no armário de vidro do escritório está a medalha de ouro do Nobel. A casa é encantadora. Vi fotos de Neruda com Vinicius de Moraes, com Jorge Amado e Pablo Picasso. Vi outras fotos mais dolorosas, do velório de Neruda na Chascona arruinada pelos militares. A casa foi invadida e destruída enquanto Neruda agonizava no hospital. Essas fotos chocam pela brutalidade. Durante a invasão um quadro de Picasso foi destruído. As lágrimas me vieram aos olhos como se o velório ainda estivesse acontecendo.

Nessa visita aprendi a respeitar Matilde Urrutia. Não foi à toa o grande amor que ela despertou em Pablo Neruda. Que mulher corajosa! Ela insistiu em velar o marido na casa devastada para que o mundo soubesse o que se passava no Chile. Ao contrário de se acovardar ante a opressão, ela se levanta contra a mesma e corajosamente publica as memórias e as traz para o Chile. Ela realmente faz jus aos Cem sonetos de amor e a tantos outros mais. Segue a dedicatória de Cem Sonetos de amor.

“CEM SONETOS DE AMOR – PABLO NERUDA A MATILDE URRUTIA “Senhora minha muito amada, grande padecimento tive ao escrever-te  estes malchamados sonetos e bastante me doeram e custaram mas a alegria de oferecê-los a ti é maior que uma campina. Ao propô-lo bem sabia que ao costado de cada um, por afeição eletiva e elegância, os poetas de todo tempo alinharam rimas que soaram como prataria cristal ou canhonaço. Eu, com muita humildade, fiz estes sonetos de madeira, dei-lhes o som desta opaca e pura substância e assim devem alcançar teus ouvidos. Tu e eu caminhando por bosques e areais, por lagos perdidos, por cinzentas latitudes recolhemos fragmentos de pau puro, de lenhas submetidos ao vaivém da água e de intempérie. De tais suavíssimos vestígios contruí com machado, faca, canivete estes madeirames de amor e edifiquei pequenas casas de quatorze tábuas para que nelas vivam teus olhos que adoro e canto. Assim estabelecidas minhas razões de amor te entrego esta centúria: soneto de madeira que só se levantaram porque lhes deste a vida.  Outubro de 1959”

Sai de La Chascona com aquela impressão que fui visitar um grande amigo. Senti-me uma íntima sua entre as coisas com as quais conviveu e amou. Se antes admirava o poeta, hoje admiro também o homem que escreveu as poesias. Voltamos uma vez mais à La Chascona para levar uns amigos cariocas que conhecemos na nossa viagem à Santiago. E pretendo voltar outras vezes à esta casa quando voltar à Santiago, e visitar Matilde e Pablo outra vez. 

Anúncios

Read Full Post »