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Posts Tagged ‘Pablo Neruda’

Minha adoração pela poesia de Pablo Neruda é antiga. E quando ouvi falar pela primeira vez de Isla Negra sempre imaginei que fosse uma ilha próxima à costa do Pacífico onde o  poeta escrevia seus poemas de amor inesquecíveis com suas canetas de tinta verde. Mas não. Isla Negra é o nome que Neruda deu à casa (ela se chamava Las Gaivotas antes, mas ele mudou o seu nome por causa dos rochedos escuros do entorno), ele gostava de nomear  casas e coisas, tornando-as, assim, únicas e valiosas.

Eu e meu marido resolvemos nos aventurar e ir sozinhos (quero dizer fora de excursões turísticas) para Isla Negra. A casa fica num pequeno balneário chamado El Quisco, mas precisamos pegar um ônibus de turismo cujo destino final se chamava Algarrobo. Pedimos ao motorista que nos deixasse em Isla Negra (há uma parada na esquina da casa – na Calle Poeta Neruda). De Santiago a viagem dura cerca de uma hora e meia.

A casa de Isla Negra é a principal casa-museu da Fundacion Neruda (http://www.fundacionneruda.org) e para lá vão muitos turistas. Senti a diferença do ambiente aconchegante de La Chascona. Na casa de Santiago me senti uma visita querida. Em Isla Negra não tem como não se sentir um turista. A culpa desse sentimento deve ser minha, uma vez que tinha tantas expectativas.

A casa , todavia, é formidável. Quando pus meus olhos  nos objetos dos quais já havia lido antes fiquei deslumbrada. O passeio revela a essência de Neruda e os detalhes revelam o seu espírito bem humorado.

É nesta casa que estão as numerosas coleções do poeta. Logo na entrada, na sala da lareira, estão a maior parte dos ‘mascarones de proa’ – não consigo chamá-las de carrancas, por isso escolhi usar o termo em espanhol mesmo.  Essa sala é impressionante, com todas essas figuras suspensas ao longo do cômodo. A mais famosa de todas, Maria Celeste, está lá.  Neruda se refere à ela em suas memórias – Confesso que vivi – assim:

“Tenho carrancas e mais carrancas. A menor e mais deliciosa, que muitas vezes Salvador Allende tentou me arrebatar, chama-se Maria Celeste. Pertenceu a um navio francês, de tamanho menor, e provavelmente não navegou senão nas águas do Sena. De cor escuram esculpida em madeira de azinheira, com tantos anos e viagens virou morena para sempre. É uma mulher pequena que parece voar com os sinais do vento talhando suas belas vestes do Segundo Império. Acima das covinhas das faces, os olhos de louça olham o horizonte. E ainda que pareça estranho, estes olhos choram durante o inverno, todos os anos. Não há explicação para isso. A madeira tostada  terá talvez alguma impregnação que recolhe a umidade. Mas o certo é que esses olhos franceses choram no inverno e que eu vejo todos os anos as preciosas lágrimas descerem pelo pequeno rosto de Maria Celeste.” (Confesso que vivi – 14ª edição – Ed. Difel – 1981 – p. 272/273)

Nós visitamos a casa percorrendo sozinhos os seus cômodos, com um audioguia – que se parecia com uma espécie de telefone e falava em um português engraçado.  Quando Neruda a comprou era uma pequena casa de pedra e ela a foi aumentando até o tamanho atual – mais de 500 metros quadrados.

Os cômodos da casa me despertaram as mais variadas emoções. A coleção de escaravelhos é, com toda a certeza, a que menos me atraiu. O bar em cujas vigas de madeira Neruda gravava os nomes dos amigos me deixou emocionada. Ouvi lá que ele dizia que só perdia seus amigos para a morte. Não duvido.

Lágrimas escorreram dos meus olhos quando vi o cavalo em tamanho natural. A história por traz desse ‘brinquedo’ é fascinante. Na cidade da infância de Neruda havia uma loja que vendia artigos de couro. Em frente à este estabelecimento ficava esse cavalo que o poeta, ainda menino, admirava todos os dias. Dizia para o dono da loja que um dia compraria aquele cavalo. Muitos anos depois, Neruda ficou sabendo que a loja havia pego fogo e que haveria um leilão do que se havia salvado. Cumprindo sua promessa infantil, ele arremata o cavalo cuja cauda havia sido queimada. Para celebrar o fato, Neruda convida vários amigos para uma festa à fantasia e diz aos amigos que tragam presentes para o seu cavalo. Muitas pessoas trazem celas, arreios e outros acessórios, mas três de seus amigos trazem um rabo para o cavalo. Não querendo desapontar nenhum amigo, Neruda coloca os três rabos no cavalo, dois na cauda e o outro na crina. E depois declara que este deve ser o cavalo mais feliz do mundo, pois tem três caudas.

Saindo da ‘baia’ do cavalo chega-se ao pequeno escritório onde ele escrevia. O telhado é de zinco, pois ele gostava de ouvir o som da chuva batendo no teto. Lá está a mesa que ele ganhou de presente do mar. Conta-se que Neruda observava o mar numa manhã, depois de uma noite de tempestade.  Ele mirava o horizonte  viu uma madeira flutuando perto dos rochedos  chamou sua mulher e disse: “Matilde, venha ver a mesa que o mar trouxe para o poeta!” Existem duas versões para esta história. Uma conta que eles ficaram sentados na praia junto aos rochedos esperando para resgatar a tábua o dia todo. A outra versão é a de que Matilde teria mergulhado e trazido a porta que se transformou na mesa do escritório. É nessa mesa que repousa  uma das mãos de Matilde que Neruda mandou forjar em bronze.

Esse é o último cômodo que Neruda e Matilde construíram na casa de Isla Negra. Anexo à ele há uma sala que a Fundación Neruda construiu para realizar um dos últimos desejos dele: uma sala que abrigasse sua coleção de ‘caracolas mariñas’. Eu que já estava emocionadíssima chorei ao ver o desejo realizado postumamente. 

Da sala das caracolas tivemos acesso ao túmulo onde repousam Pablo e Matilde. Apesar de seu desejo expresso de ser enterrado em Isla Negra, os restos mortais de Neruda só foram trasladados para lá em 1992, quase vinte anos após a sua morte. Ele havia escrito, há quase cinquenta anos, no seu ‘Canto General’:

“Compañeros, enterradme en Isla Negra, / frente al mar que conozco, a cada área rugosa de piedras/ y de olas que mis ojos perdidos/ no volverán a ver…”

Agora Pablo e Matilde descansam na casa que amaram graças ao fim da ditadura no Chile. Preciso dizer que precisei de muita coragem para me acercar do túmulo. Apesar de Pablo Neruda ter morrido antes mesmo do meu nascimento, ter a certeza absoluta de sua morte me foi doloroso. Racionalmente é inexplicável, eu sei. Mas eu sou assim mesmo. Até hoje não consegui terminar de ler Solo de Clarineta pois sei que Érico Veríssimo morreu antes de concluir suas memórias. A verdade é que sentamos num banco e ficamos fitando a sepultura em um silêncio emocionado.

Em frente ao túmulo, a vista do mar gelado do Pacífico é de tirar o fôlego. Saímos abraçados, tristes, porém reconfortados pelo último desejo do poeta se realizar.

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Eu tinha esse plano de narrar a viagem ao Chile que fiz com o meu marido de uma forma ordenada, dia-a-dia, contando todas as nossas experiências de forma organizada e cronológica. Ledo engano. Eu não sou assim tão ordeira, e por conta dessa tentativa frustrada de organização, acabei deixando de escrever sobre a viagem, pois o que deveria ser um prazer virou uma obrigação não tão agradável. Pois bem, abandonei minha meta original e vou contar as visitas a La Chascona – casa de Santiago de Pablo Neruda.

Bom, eu sou uma grande admiradora da poesia apaixonada de Neruda. Me encanta a forma como ele valoriza as coisas mais simples da vida, como uma cebola por exemplo. Ele escreveu poemas para coisas simples e telúricas e consegue tocar a minha alma com suas palavras.

 Na Calle Fernando Marquez de la Plata 0192 Barrio Bellavista, Santiago fica La Chascona, primeira casa de Neruda que visitamos. Só de ver a placa externa que mostra a localização da casa, com um sol com olhos e boca, já fiquei emocionada. O sol estilizado, assim como o nome da casa,  são uma referência aos cabelos ruivos e encaracolados de sua terceira esposa, Matilde Urrutia. Chascona quer dizer despenteada ou desgrenhada, mas também é uma alusão à forma como os cabelos de uma mulher se parecem assim que ela acorda depois de uma noite de amor.

A casa esbanja um romantismo lírico do amor de Pablo e Matilde. Ela foi sua amante antes de se casar com Neruda e La Chascona foi o ninho de amor de ambos durante algum tempo. O amor escondido de ambos aparece em dedicatórias de livros de poesia (Ele dedicava ‘Para Rosário’, já que este era o segundo nome de Matilde), na tela de Diego Rivera na qual Matilde aparece com duas cabeças e o perfil de Neruda aparece em seus cabelos (há também uma dedicatória na tela que diz: Para Pablo e Rosário) e nas iniciais P e M do armário de roupas de ambos.

A casa só pode ser visitada com um guia e o nosso tour foi exclusivo o que tornou a vista muito íntima, pois fomos batendo papo com a guia.

Visitar os cômodos repletos das coisas que Neruda colecionou e amou foi a realização de uma das minhas fantasias de fã que beira à tietagem.  Vi algumas das coisas mais magnificas, como a coleção de objetos gigantes que Pablo Neruda trouxe de Temuco – cidade de sua infância. A guia nos contou que, como a maior parte da população era analfabeta, o marketing do comércio consistia em colocar objetos grandes em frente às lojas para que os clientes soubessem o que ali se comercializava. No bar da Chascona estão um par de sapatos  e um relógio despertador imensos.

No seu escritório há um astrolábio belíssimo, mas o que mais me chamou a atenção foi uma edição de ‘Confesso que he vivido’ – autobiografia de Neruda com a capa de ‘Tereza Cristina cansada de guerra’ de Jorge Amado. A história por trás do livro é a seguinte: a morte de Neruda deu-se poucos dias após o golpe de Estado que depôs Salvador Allende e a publicação das memórias de Pablo Neruda foram proibidas no Chile. Matilde pede ao compadre Jorge Amado (Neruda foi padrinho de Paloma – filha de Jorge Amado e Zélia Gattai) que a ajudasse a publicar a obra no Chile. Jorge Amado e Matilde decidem então fazer uma edição do livro de Neruda com a capa do livro ‘Tereza Cristina cansada de guerra’. É dessa forma clandestina que chegam as memórias ao Chile, em meio à ditadura Pinochet.  Um pouco mais adiante, ainda no armário de vidro do escritório está a medalha de ouro do Nobel. A casa é encantadora. Vi fotos de Neruda com Vinicius de Moraes, com Jorge Amado e Pablo Picasso. Vi outras fotos mais dolorosas, do velório de Neruda na Chascona arruinada pelos militares. A casa foi invadida e destruída enquanto Neruda agonizava no hospital. Essas fotos chocam pela brutalidade. Durante a invasão um quadro de Picasso foi destruído. As lágrimas me vieram aos olhos como se o velório ainda estivesse acontecendo.

Nessa visita aprendi a respeitar Matilde Urrutia. Não foi à toa o grande amor que ela despertou em Pablo Neruda. Que mulher corajosa! Ela insistiu em velar o marido na casa devastada para que o mundo soubesse o que se passava no Chile. Ao contrário de se acovardar ante a opressão, ela se levanta contra a mesma e corajosamente publica as memórias e as traz para o Chile. Ela realmente faz jus aos Cem sonetos de amor e a tantos outros mais. Segue a dedicatória de Cem Sonetos de amor.

“CEM SONETOS DE AMOR – PABLO NERUDA A MATILDE URRUTIA “Senhora minha muito amada, grande padecimento tive ao escrever-te  estes malchamados sonetos e bastante me doeram e custaram mas a alegria de oferecê-los a ti é maior que uma campina. Ao propô-lo bem sabia que ao costado de cada um, por afeição eletiva e elegância, os poetas de todo tempo alinharam rimas que soaram como prataria cristal ou canhonaço. Eu, com muita humildade, fiz estes sonetos de madeira, dei-lhes o som desta opaca e pura substância e assim devem alcançar teus ouvidos. Tu e eu caminhando por bosques e areais, por lagos perdidos, por cinzentas latitudes recolhemos fragmentos de pau puro, de lenhas submetidos ao vaivém da água e de intempérie. De tais suavíssimos vestígios contruí com machado, faca, canivete estes madeirames de amor e edifiquei pequenas casas de quatorze tábuas para que nelas vivam teus olhos que adoro e canto. Assim estabelecidas minhas razões de amor te entrego esta centúria: soneto de madeira que só se levantaram porque lhes deste a vida.  Outubro de 1959”

Sai de La Chascona com aquela impressão que fui visitar um grande amigo. Senti-me uma íntima sua entre as coisas com as quais conviveu e amou. Se antes admirava o poeta, hoje admiro também o homem que escreveu as poesias. Voltamos uma vez mais à La Chascona para levar uns amigos cariocas que conhecemos na nossa viagem à Santiago. E pretendo voltar outras vezes à esta casa quando voltar à Santiago, e visitar Matilde e Pablo outra vez. 

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