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Com o final do ano vem esse monte de comemorações. Comemoramos datas fixas do calendário, como se a alegria e a felicidade marcassem a hora para acontecer. As festas são legais e encontrar a família, promover a comilança e o consumo é bacana, mas, penso se isso tudo não nos é meio imposto, meio protocolar. Digo isso porque antes da Ceia da véspera do dia 25 de dezembro vivi um stress de compras, o dia 24 foi destinado à cozinha (começou no dia 23 à noite quando coloquei o pernil para marinar no tempero), depois assar e decorar os pratos, se arrumar, arrumar as crianças e chegar na casa da mãe, onde a festa teria lugar. Foi tanto stress que na hora da ceia eu estava exausta!

No dia 26, já meio refeitos das festas, eu e o meu marido nos vimos sozinhos em casa. Ele me disse: “Vamos dar uma voltinha?” E saímos meio sem rumo (eu desconfio que ele já tinha o roteiro em mente, mas esse palpite ainda não está confirmado). Fomos ao centro da cidade, que, essa época do ano está vazio, quase às moscas. Estacionamos na rua mesmo (o que é um feito heroico nos dias de hoje)  e saímos andando de mãos dadas em meio ao fim de tarde surpreendentemente fresco para dezembro.

bar_stuartEle me levou ao Bar Stuart e aqui cabe um parênteses. O bar Stuart foi fundado em 1904, e é o bar mais antigo da cidade de Curitiba, fato este reconhecido pela Prefeitura Municipal através de um marco histórico em frente ao bar, por fazer parte da história da cidade. Este bar fica a poucas quadras do calçadão da Rua XV de Novembro e muito perto da menor Avenida do Mundo, que conta com somente uma quadra, a Avenida Luiz Xavier. Explico isso tudo porque meu pai tinha escritório no Edifício Moreira Garcez, o primeiro “arranha céu” de Curitiba, com seus impressionantes 8 andares.

As lembranças mais caras da minha infância envolvem o grande elevador que possuía um gradil de ferro retrátil e fazia um barulho imenso. Do escritório em si me lembro muito pouco, quase nada, na verdade. Lembro-me bem da sorveteria da Barion que tinha sorvetes italianos e de ficar no Bondinho desenhando com giz-de-cera aquecido na vela.
Conto tudo isso, pois eu andava pelo centro da cidade e me lembro bem do meu pai dizer que aquele lugar (o Bar Stuart) era um lugar onde só os homens iam. Essa frase ficou fortemente gravada na minha memória e eu ficava pensando, nas minhas elucubrações infantis, que aquele era um lugar Edifício Moreira Garcezabsolutamente  proibido para as mulheres.
O que me causa estranheza hoje é o fato de eu nunca haver questionado o porquê da proibição das mulheres frequentarem o local. O que sei dizer é que esse fato ficou gravado na minha memória e que eu nunca havia entrado no Bar Stuart, dada a minha condição feminina.
Contei essa história para o meu marido e ele, que já queria provar as iguarias exóticas do cardápio me levou lá nesse fim de tarde pós natalino.
Foi inevitável, me senti uma infratora. Uma infratora bem contente, diga-se de passagem. Ele me disse, antes de entrarmos, que lá dentro tinham apenas 3 mulheres ao que eu retruquei, agora serão quatro. Sentamos em uma mesa do centro do pequeno bar, próxima ao balcão. No telão passava um filme do Elvis, “Viva Las Vegas”. Pedimos dois chopps, uma porção de carne de jacaré e uma porção de batatas fritas (eu queria ter algo seguro para o qual fugir, caso não gostasse do jacaré).
Eu permanecia com aquela sensação de estar fazendo algo proibido, o que tornou toda a experiência ainda mais agradável e intensa. Como diria o Santo Agostinho séculos atrás em suas Confissões, o proibido é o que é saboroso, o resultado, no caso dele as peras, nem interessa tanto. E eu fiquei observando aquele lugar antes proibido às pessoas do meu gênero. E o bar era pequeno, com mesas e cadeiras e pessoas simples. Era tudo absoluta e completamente trivial, mas eu permanecia com aquele grande sorriso no rosto e um pouco de receio aguardando a chegada do jacaré.
Jacaré do Stuart

Jacaré do Stuart

E sabe o que mais? O jacaré tem a consistência de peixe e o sabor de peito de frango. Meu corajoso marido ainda pediu uma porção de rã. No início eu disse que nem provaria, mas ele me convenceu. A rã parece asa de galinha.

Saímos do Bar e caminhamos pela praça Osório de mãos dadas, depois paramos numa banca de sucos naturais. Passeamos sem pressa até começar uma chuva fina, tão característica da capital paranaense.
Voltei para casa pensando que esses momentos triviais de felicidade simples é que tornam a vida prazerosa. Não tenho nada contra as grandes comemorações com toda a sua pompa, mas, confesso, os pequenos prazeres da vida são os que me atraem mais.

Eu e meu marido saímos cedo para a viagem com destino a Valparaíso, com a intenção de visitarmos a única casa de Neruda que nos faltava conhecer. Nossa viagem ao Chile estava chegando ao fim e já estávamos mais confiantes ao pegar o ônibus rumo a Valparaíso. Foi realmente fácil, uma vez que tem ônibus saindo de Santiago de 15 em 15 minutos para Valparaíso e a estação rodoviária é integrada ao metrô. A dica é: compre a passagem de ida e volta (é mais barato) e deixe para marcar o horário da volta na rodoviária, um pouco antes de voltar. Bom, pegamos um ônibus bem confortável, tipo leito, com ar condicionado e outras comodidades. A viagem dura em torno de uma hora e meia.

Quando chegamos em Valparaíso um guia local nos abordou logo na saída da rodoviária (acho que temos muita cara de turista…) e perguntou se precisávamos de transporte ou de alguma informação. Não, não era alguém querendo o nosso dinheiro, era um guia pago pelo governo, muito prestativo, que nos deu um mapa da cidade e nos disse como deveríamos fazer para ir até a La Sebastiana. Ele nos indicou que pegássemos um trolebus – um ônibus elétrico dos anos 40 – que funciona desde 1952. Como só existe uma linha, pegamos esse tipo de ônibus junto com crianças que voltavam da escola e outros habitantes da cidade. Foi bem bacana, embora eu estivesse um pouco preocupada em parar no lugar certo para pegar o “colectivo 38” que nos levaria até a porta da casa de Pablo Neruda. O guia nos disse que na nossa parada haveria outro ponto de informações para turistas (que funcionam super bem lá) e lá a funcionária nos perguntou: Sabem o que é um colectivo? Eu, super confiante, respondi que sim, pensando que era a forma como eles chamavam os ônibus. Bom… não era. Quando chegamos ao local indicado, umas duas quadras do posto de informações, o que havia era um tipo de beco, cheio de carros parados, no qual não caberia um ônibus. Fiquei confusa e resolvi perguntar para uma mulher que aguardava com uma criança no colo no lugar onde se indicava o número 40 onde eu poderia apanhar o “colectivo 38”. Ela me indicou um carro velho com o número 38 na porta e disse: aproveite que já tem dois passageiros! Só então eu entendi que o tal “colectivo” era um táxi coletivo! Embarcamos rindo e descobrimos que, como Valparaíso é uma cidade com muitas ladeiras (os

Taxis coletivos de Valparaíso

chilenos dizem que é uma cidade em dois andares) as pessoas usam esses táxis coletivos que fazem rotas fixas. Aprendi que um pouco de humildade não faz mal a ninguém, mas preciso confessar, foi muito , muito divertido. Descemos na esquina da La Sebastiana e, quando entramos meu marido me olhou e disse: “Se chegamos aqui por nossa própria conta, chegaremos em qualquer lugar que quisermos!”

A casa de Valaparaíso reflete a personalidade de Neruda, assim como as outras. A particularidade dessa em especial é que esta casa foi comprada por ele e Matilda em parceria com um casal de amigos – Marie Martner e seu marido Francisco Velasco (foi ela que fez todos os lindos mosaicos de pedra nas casas de Isla Negra e na Chascona também). Os dois casais dividiram a casa da seguinte forma: Velasco e Martner ficaram com o subterrâneo, o pátio e os dois primeiros pisos. Neruda e Matilde ficaram com o terceiro e quarto pisos e a torre. A Fundação Pablo Neruda comprou a parte dos amigos de Neruda para transformar a casa em Museu.

Como todas as casas do poeta, essa também tem um nome e a história do nome vem do antigo proprietário, o espanhol Sebastián Collado, que havia iniciado a obra, mas morreu antes de concluí-la. Neruda gostou daquela casa meio estranha e cheia de escadas, cuja torre Dom Sebastián queria que fosse um viveiro de pássaros.

Conta-se que, quando estava decorando a casa, Neruda colocou uma grande foto de Walt Whitman na parede e um dos pedreiros que terminavam a reforma perguntou se era o seu pai. Ele respondeu: Sim, é meu pai na poesia.

Na sala redonda há um cavalo de carrossel antigo e, na sala contígua, junto à janela, está a famosa poltrona Las Nubes na qual se sentava o poeta para olhar o belíssimo céu de Valparaíso.

Las Nubes

Olhar todos esses objetos que cercaram a vida do poeta foi muito emocionante, mas, quando encontrei a poesia “As coisas” naquela sala não pude conter as lágrimas. Neruda se autodefinia como um “coisista”. Ele gostava de coisas, de objetos. E eu me identifico imensamente com ele. Minha casa é cheia de quinquilharias trazidas de viagens, de lojinhas, de lugares. Por isso me emocionei tanto ao conhecer as coisas da vida do Neruda. Porque elas não eram só objetos inanimados. Ele as amava, as nomeava e se importava com elas. Ele impregnou a sua marca nessas coisas e, com essa marca, elas passaram a ser únicas e valiosas. A estrofe final da Ode às coisas deixa esse sentimento muito claro:

“O irrevogável
rio
das coisas:
ninguém pode dizer
que eu amei
apenas
peixes,
ou as plantas da floresta e do campo,
que eu amei
apenas
aquelas coisas que salto e subo, desejo, e sobrevivo.
Não é verdade:
muitas coisas conspiraram
para me contar a história toda.
Eles não só me tocam,
ou a minha mão tocou-lhes:
eles foram

Bar de La Sebastiana

tão perto
que eles eram uma parte
do meu ser,
eles eram tão vivos em mim
que vivi metade da minha vida
e morri metade de mim.”

Quando chegamos no alto da torre vimos o escritório onde Neruda escrevia em uma pequena escrivaninha com a fantástica vista do porto de Valparaíso. Lá estavam alguns escritos a mão (creio que cópias), em tinta verde e eu li “Para Sebastiana”. Só de me lembrar já começo a chorar novamente. Fiquei imaginando o poeta salvando as portas condenadas e usando-as na sua nova casa. Compreendi o amor e o cuidado envolvido em cada uma das coisas que estavam naquele lugar onde Neruda e Matilde passaram o seu derradeiro reveillon juntos.

As casas de Neruda são fascinantes.  E são lugares onde viveu o amor nas suas mais variadas formas: o amor romântico, o amor à beleza, o amor aos amigos, o amor às coisas. Neruda não foi só o poeta do amor às mulheres. Ele escreveu e viveu o amor em sua plenitude. Eu adorei conhecer as suas casas, as suas coisas e a sua intimidade. Gostei ainda mais de dividir essas experiências com o homem que amo e que me compreende e me acompanhou nessa peregrinação pelas casas do meu poeta favorito. Do agora nosso poeta favorito. Sugiro que, quando visitarem o Chile de Neruda, o façam com o seu amor.

Escritório da torre de La Sebastiana

Para “A Sebastiana”

Eu construí a casa.                                                                                                                             Primeiramente fi-la  de ar.

Depois hasteei a bandeira
e deixei-a pendurada
no firmamento, na estrela,
na claridade e na escuridão.                                                                                                                        Cimento, ferro, vidro,
eram a fábula,
valiam mais que o trigo e como o ouro,
era preciso procurar e vender,
e assim um camião chegou:
desceram sacos e mais sacos,
a torre fincou-se na terra dura                                                                                                                                – mas isto não basta, disse o construtor,
falta cimento, vidro, ferro, portas – ,
e nessa noite não dormi.

Mas crescia,
cresciam as janelas
e com pouca coisa,
projetando, trabalhando,
arremetendo-lhe com o joelho e o ombro
cresceria até ficar completada,
até poder olhar pela janela,
e parecia que com tanto saco
poderia ter teto e subir
e agarrar-se, por fim, à bandeira
que suspensa do céu agitava ainda as suas cores.

Dediquei-me às portas mais baratas,
às que morreram
e foram arrancadas das suas casas,
portas sem parede, rachadas,
amontoadas nas demolições,
portas já sem memória,
sem recordação de chave,                                                                                                                                        e disse: “Vinde
a mim, portas perdidas:
dar-vos-ei casa e parede
e mão que bate,
oscilareis de novo abrindo a alma,
velareis o sono de Matilde
com as vossas asas que voaram tanto.”

Então a pintura
chegou também lambendo as paredes,
vestiu-as de azul-celeste e cor-de-rosa
para que se pusessem a bailar.
Assim a torre baila,
cantam as escadas e as portas,
sobe a casa até tocar o mastro,
mas o dinheiro falta:                                                                                                                                         faltam pregos,
faltam aldrabas, fechaduras, mármore.
Contudo, a casa
vai subindo
e algo acontece, um latejo
circula nas suas artérias:
é talvez um serrote que navega
como um peixe na água dos sonhos
ou um martelo que pica
como um pérfido pica-pau
as tábuas do pinhal que pisaremos.

Algo acontece e a vida continua.

A casa cresce e fala,
aguenta-se nos pés,
tem roupa pendurada num andaime,
e como pelo mar a primavera
nadando como uma ninfa marinha
beija a areia de Valparaíso,

não se pense mais: esta é a casa:
tudo o que lhe falta será azul,
agora só precisa de florir.
E isso é trabalho da Primavera.

(Neruda, Pablo, Plenos Poderes, Tradução de Luís Pignatelli, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1962, p.73)

 

Minha adoração pela poesia de Pablo Neruda é antiga. E quando ouvi falar pela primeira vez de Isla Negra sempre imaginei que fosse uma ilha próxima à costa do Pacífico onde o  poeta escrevia seus poemas de amor inesquecíveis com suas canetas de tinta verde. Mas não. Isla Negra é o nome que Neruda deu à casa (ela se chamava Las Gaivotas antes, mas ele mudou o seu nome por causa dos rochedos escuros do entorno), ele gostava de nomear  casas e coisas, tornando-as, assim, únicas e valiosas.

Eu e meu marido resolvemos nos aventurar e ir sozinhos (quero dizer fora de excursões turísticas) para Isla Negra. A casa fica num pequeno balneário chamado El Quisco, mas precisamos pegar um ônibus de turismo cujo destino final se chamava Algarrobo. Pedimos ao motorista que nos deixasse em Isla Negra (há uma parada na esquina da casa – na Calle Poeta Neruda). De Santiago a viagem dura cerca de uma hora e meia.

A casa de Isla Negra é a principal casa-museu da Fundacion Neruda (http://www.fundacionneruda.org) e para lá vão muitos turistas. Senti a diferença do ambiente aconchegante de La Chascona. Na casa de Santiago me senti uma visita querida. Em Isla Negra não tem como não se sentir um turista. A culpa desse sentimento deve ser minha, uma vez que tinha tantas expectativas.

A casa , todavia, é formidável. Quando pus meus olhos  nos objetos dos quais já havia lido antes fiquei deslumbrada. O passeio revela a essência de Neruda e os detalhes revelam o seu espírito bem humorado.

É nesta casa que estão as numerosas coleções do poeta. Logo na entrada, na sala da lareira, estão a maior parte dos ‘mascarones de proa’ – não consigo chamá-las de carrancas, por isso escolhi usar o termo em espanhol mesmo.  Essa sala é impressionante, com todas essas figuras suspensas ao longo do cômodo. A mais famosa de todas, Maria Celeste, está lá.  Neruda se refere à ela em suas memórias – Confesso que vivi – assim:

“Tenho carrancas e mais carrancas. A menor e mais deliciosa, que muitas vezes Salvador Allende tentou me arrebatar, chama-se Maria Celeste. Pertenceu a um navio francês, de tamanho menor, e provavelmente não navegou senão nas águas do Sena. De cor escuram esculpida em madeira de azinheira, com tantos anos e viagens virou morena para sempre. É uma mulher pequena que parece voar com os sinais do vento talhando suas belas vestes do Segundo Império. Acima das covinhas das faces, os olhos de louça olham o horizonte. E ainda que pareça estranho, estes olhos choram durante o inverno, todos os anos. Não há explicação para isso. A madeira tostada  terá talvez alguma impregnação que recolhe a umidade. Mas o certo é que esses olhos franceses choram no inverno e que eu vejo todos os anos as preciosas lágrimas descerem pelo pequeno rosto de Maria Celeste.” (Confesso que vivi – 14ª edição – Ed. Difel – 1981 – p. 272/273)

Nós visitamos a casa percorrendo sozinhos os seus cômodos, com um audioguia – que se parecia com uma espécie de telefone e falava em um português engraçado.  Quando Neruda a comprou era uma pequena casa de pedra e ela a foi aumentando até o tamanho atual – mais de 500 metros quadrados.

Os cômodos da casa me despertaram as mais variadas emoções. A coleção de escaravelhos é, com toda a certeza, a que menos me atraiu. O bar em cujas vigas de madeira Neruda gravava os nomes dos amigos me deixou emocionada. Ouvi lá que ele dizia que só perdia seus amigos para a morte. Não duvido.

Lágrimas escorreram dos meus olhos quando vi o cavalo em tamanho natural. A história por traz desse ‘brinquedo’ é fascinante. Na cidade da infância de Neruda havia uma loja que vendia artigos de couro. Em frente à este estabelecimento ficava esse cavalo que o poeta, ainda menino, admirava todos os dias. Dizia para o dono da loja que um dia compraria aquele cavalo. Muitos anos depois, Neruda ficou sabendo que a loja havia pego fogo e que haveria um leilão do que se havia salvado. Cumprindo sua promessa infantil, ele arremata o cavalo cuja cauda havia sido queimada. Para celebrar o fato, Neruda convida vários amigos para uma festa à fantasia e diz aos amigos que tragam presentes para o seu cavalo. Muitas pessoas trazem celas, arreios e outros acessórios, mas três de seus amigos trazem um rabo para o cavalo. Não querendo desapontar nenhum amigo, Neruda coloca os três rabos no cavalo, dois na cauda e o outro na crina. E depois declara que este deve ser o cavalo mais feliz do mundo, pois tem três caudas.

Saindo da ‘baia’ do cavalo chega-se ao pequeno escritório onde ele escrevia. O telhado é de zinco, pois ele gostava de ouvir o som da chuva batendo no teto. Lá está a mesa que ele ganhou de presente do mar. Conta-se que Neruda observava o mar numa manhã, depois de uma noite de tempestade.  Ele mirava o horizonte  viu uma madeira flutuando perto dos rochedos  chamou sua mulher e disse: “Matilde, venha ver a mesa que o mar trouxe para o poeta!” Existem duas versões para esta história. Uma conta que eles ficaram sentados na praia junto aos rochedos esperando para resgatar a tábua o dia todo. A outra versão é a de que Matilde teria mergulhado e trazido a porta que se transformou na mesa do escritório. É nessa mesa que repousa  uma das mãos de Matilde que Neruda mandou forjar em bronze.

Esse é o último cômodo que Neruda e Matilde construíram na casa de Isla Negra. Anexo à ele há uma sala que a Fundación Neruda construiu para realizar um dos últimos desejos dele: uma sala que abrigasse sua coleção de ‘caracolas mariñas’. Eu que já estava emocionadíssima chorei ao ver o desejo realizado postumamente. 

Da sala das caracolas tivemos acesso ao túmulo onde repousam Pablo e Matilde. Apesar de seu desejo expresso de ser enterrado em Isla Negra, os restos mortais de Neruda só foram trasladados para lá em 1992, quase vinte anos após a sua morte. Ele havia escrito, há quase cinquenta anos, no seu ‘Canto General’:

“Compañeros, enterradme en Isla Negra, / frente al mar que conozco, a cada área rugosa de piedras/ y de olas que mis ojos perdidos/ no volverán a ver…”

Agora Pablo e Matilde descansam na casa que amaram graças ao fim da ditadura no Chile. Preciso dizer que precisei de muita coragem para me acercar do túmulo. Apesar de Pablo Neruda ter morrido antes mesmo do meu nascimento, ter a certeza absoluta de sua morte me foi doloroso. Racionalmente é inexplicável, eu sei. Mas eu sou assim mesmo. Até hoje não consegui terminar de ler Solo de Clarineta pois sei que Érico Veríssimo morreu antes de concluir suas memórias. A verdade é que sentamos num banco e ficamos fitando a sepultura em um silêncio emocionado.

Em frente ao túmulo, a vista do mar gelado do Pacífico é de tirar o fôlego. Saímos abraçados, tristes, porém reconfortados pelo último desejo do poeta se realizar.

Eu tinha esse plano de narrar a viagem ao Chile que fiz com o meu marido de uma forma ordenada, dia-a-dia, contando todas as nossas experiências de forma organizada e cronológica. Ledo engano. Eu não sou assim tão ordeira, e por conta dessa tentativa frustrada de organização, acabei deixando de escrever sobre a viagem, pois o que deveria ser um prazer virou uma obrigação não tão agradável. Pois bem, abandonei minha meta original e vou contar as visitas a La Chascona – casa de Santiago de Pablo Neruda.

Bom, eu sou uma grande admiradora da poesia apaixonada de Neruda. Me encanta a forma como ele valoriza as coisas mais simples da vida, como uma cebola por exemplo. Ele escreveu poemas para coisas simples e telúricas e consegue tocar a minha alma com suas palavras.

 Na Calle Fernando Marquez de la Plata 0192 Barrio Bellavista, Santiago fica La Chascona, primeira casa de Neruda que visitamos. Só de ver a placa externa que mostra a localização da casa, com um sol com olhos e boca, já fiquei emocionada. O sol estilizado, assim como o nome da casa,  são uma referência aos cabelos ruivos e encaracolados de sua terceira esposa, Matilde Urrutia. Chascona quer dizer despenteada ou desgrenhada, mas também é uma alusão à forma como os cabelos de uma mulher se parecem assim que ela acorda depois de uma noite de amor.

A casa esbanja um romantismo lírico do amor de Pablo e Matilde. Ela foi sua amante antes de se casar com Neruda e La Chascona foi o ninho de amor de ambos durante algum tempo. O amor escondido de ambos aparece em dedicatórias de livros de poesia (Ele dedicava ‘Para Rosário’, já que este era o segundo nome de Matilde), na tela de Diego Rivera na qual Matilde aparece com duas cabeças e o perfil de Neruda aparece em seus cabelos (há também uma dedicatória na tela que diz: Para Pablo e Rosário) e nas iniciais P e M do armário de roupas de ambos.

A casa só pode ser visitada com um guia e o nosso tour foi exclusivo o que tornou a vista muito íntima, pois fomos batendo papo com a guia.

Visitar os cômodos repletos das coisas que Neruda colecionou e amou foi a realização de uma das minhas fantasias de fã que beira à tietagem.  Vi algumas das coisas mais magnificas, como a coleção de objetos gigantes que Pablo Neruda trouxe de Temuco – cidade de sua infância. A guia nos contou que, como a maior parte da população era analfabeta, o marketing do comércio consistia em colocar objetos grandes em frente às lojas para que os clientes soubessem o que ali se comercializava. No bar da Chascona estão um par de sapatos  e um relógio despertador imensos.

No seu escritório há um astrolábio belíssimo, mas o que mais me chamou a atenção foi uma edição de ‘Confesso que he vivido’ – autobiografia de Neruda com a capa de ‘Tereza Cristina cansada de guerra’ de Jorge Amado. A história por trás do livro é a seguinte: a morte de Neruda deu-se poucos dias após o golpe de Estado que depôs Salvador Allende e a publicação das memórias de Pablo Neruda foram proibidas no Chile. Matilde pede ao compadre Jorge Amado (Neruda foi padrinho de Paloma – filha de Jorge Amado e Zélia Gattai) que a ajudasse a publicar a obra no Chile. Jorge Amado e Matilde decidem então fazer uma edição do livro de Neruda com a capa do livro ‘Tereza Cristina cansada de guerra’. É dessa forma clandestina que chegam as memórias ao Chile, em meio à ditadura Pinochet.  Um pouco mais adiante, ainda no armário de vidro do escritório está a medalha de ouro do Nobel. A casa é encantadora. Vi fotos de Neruda com Vinicius de Moraes, com Jorge Amado e Pablo Picasso. Vi outras fotos mais dolorosas, do velório de Neruda na Chascona arruinada pelos militares. A casa foi invadida e destruída enquanto Neruda agonizava no hospital. Essas fotos chocam pela brutalidade. Durante a invasão um quadro de Picasso foi destruído. As lágrimas me vieram aos olhos como se o velório ainda estivesse acontecendo.

Nessa visita aprendi a respeitar Matilde Urrutia. Não foi à toa o grande amor que ela despertou em Pablo Neruda. Que mulher corajosa! Ela insistiu em velar o marido na casa devastada para que o mundo soubesse o que se passava no Chile. Ao contrário de se acovardar ante a opressão, ela se levanta contra a mesma e corajosamente publica as memórias e as traz para o Chile. Ela realmente faz jus aos Cem sonetos de amor e a tantos outros mais. Segue a dedicatória de Cem Sonetos de amor.

“CEM SONETOS DE AMOR – PABLO NERUDA A MATILDE URRUTIA “Senhora minha muito amada, grande padecimento tive ao escrever-te  estes malchamados sonetos e bastante me doeram e custaram mas a alegria de oferecê-los a ti é maior que uma campina. Ao propô-lo bem sabia que ao costado de cada um, por afeição eletiva e elegância, os poetas de todo tempo alinharam rimas que soaram como prataria cristal ou canhonaço. Eu, com muita humildade, fiz estes sonetos de madeira, dei-lhes o som desta opaca e pura substância e assim devem alcançar teus ouvidos. Tu e eu caminhando por bosques e areais, por lagos perdidos, por cinzentas latitudes recolhemos fragmentos de pau puro, de lenhas submetidos ao vaivém da água e de intempérie. De tais suavíssimos vestígios contruí com machado, faca, canivete estes madeirames de amor e edifiquei pequenas casas de quatorze tábuas para que nelas vivam teus olhos que adoro e canto. Assim estabelecidas minhas razões de amor te entrego esta centúria: soneto de madeira que só se levantaram porque lhes deste a vida.  Outubro de 1959”

Sai de La Chascona com aquela impressão que fui visitar um grande amigo. Senti-me uma íntima sua entre as coisas com as quais conviveu e amou. Se antes admirava o poeta, hoje admiro também o homem que escreveu as poesias. Voltamos uma vez mais à La Chascona para levar uns amigos cariocas que conhecemos na nossa viagem à Santiago. E pretendo voltar outras vezes à esta casa quando voltar à Santiago, e visitar Matilde e Pablo outra vez. 

Chegamos a Santiago depois de uma noite mal dormida, pois o nosso voo da TAM saía de Curitiba às 06h17 da madrugada. A viagem de avião foi tranquila, com as encheções normais de conexões, troca de aeronaves, etc… Uma coisa boa que fiz foi contratar pela internet o transfer do aeroporto para o hotel. Mal saímos a empresa Transvip (fica na saída do aeroporto) já pegou as nossas malas e nos conduziu a uma van. Me pareceu ser o meio de transporte normalmente usado por chilenos, pois mais dois chilenos se uniram à nós na van e rumamos ao centro da cidade, onde fica o nosso hotel. O nosso hotel foi escolhido no Booking.com. Era a algumas quadras do metro Universidad do Chile. Tudo parecia ótimo pela net, mas ficamos um pouco decepcionados. Era na verdade um prédio de apartamentos, no qual haviam alguns apartamentos que eram locados como quartos de hotel. O quarto em si era excelente, contava com uma sala com um sofá e duas poltronas, varanda, cozinha, closet, banheiro com banheira e uma boa cama queen size. Mas um bom café da manhã e uma recepção com funcionários treinados faz muita falta! Como eu já estudava o Chile havia vários dias (principalmente Santiago e havia comprado 3 bons guias de viagem) driblamos facilmente a ausência da recepção do hotel. Mal fizemos o check in no nosso apartamento (vou deixar dessa coisa de chamar de quarto de hotel) fomos caminhar no centro de Santiago. Fomos a pé mesmo, pois estávamos a 3 quadras do início do Passeo Ahumada (um dos calçadões do centro de Santiago).

Como já passava da hora do almoço queríamos comer algo e fomos até o Bar Nacional que fica na Calle Bandera 317,  esquina com o Passeo Huérfanos (outro calçadão). O lugar é super concorrido, barulhento e um pouco confuso, mas é um dos Bares/Restaurantes mais tradicionais da cidade. De cara notamos que na vitrine da frente haviam pratos montados com o cardápio (tudo cru mesmo) e os preços. É a forma chilena de se mostrar o que e quanto se vai comer e por quanto. Outra coisa interessante é que os garçons traziam grandes babadores e amarravam no pescoço dos clientes. Pedimos duas empanadas assadas de ‘pino’ – um recheio de carne acebolada com ovos cozidos e azeitonas. Gostamos, mas não nos aventuramos mais no cardápio, pois ainda queríamos andar mais pelo centro. Na saída vi um carrinho de rua que vendia o que se intitulava ‘O refresco del Chile’ era da marca Copihue e confesso que não compreendi bem a explicação do vendedor, mas me arrisquei… Era um suco dulcíssimo de pêssego, que vinha com trigo cozido no fundo e duas enormes metades de pêssegos em calda junto. O suco vinha com uma colher para que se pudesse comer os agregados ao suco. A bebida é tão tradicional que há uma expressão que diz  “Más chileno que el mote con huesillos” que mostra bem sua condição.

Voltamos pela Plaza de Armas e entramos na Catedral Metropolitana de Santiago. É uma belíssima construção em estilo neoclássico que já foi reconstruída três vezes por causa de terremotos.  (A construção da atual Catedral foi iniciada no governo de Ortiz de Rosas em 1748).  No seu interior possui três naves. O majestoso  altar-mor, na nave principal, foi construído em Munique, na Alemanha. Foi esculpido em mármore branco com aplicações de bronze e lápis-lazúli. A Catedral possui um lindo órgão de tubos construído em 1756. Uma das imagens mais bonitas na minha opinião é a do santo padroeiro da cidade – Santiago. Durante toda a visita ouvimos música sacra, o que torna a visita ainda mais agradável. Vale a pena visitar esse patrimônio Nacional Chileno. É possível chegar à Catedral de Metrô (o metrô de Santiago é eficiente, limpo e de fácil uso). Pegue a Linha Verde, de número 5, e desça na Estação Plaza de Armas

Voltamos para o nosso apartamento para descansar um pouco pois havíamos feito uma reserva para o Como água para chocolate, um restaurante que fica em Bellavista. Consulte o menu (eles chamam de carta no Chile  no endereço http://www.comoaguaparachocolate.cl/.

O restaurante tem como proposta o romance (dizem possuir uma cocina mágica e afrodisíaca).  A decoração é muito original,  (destaque para a mesa que é uma cama), o atendimento é cortes e o cardápio tem pratos como Filete de vigor y pasión e o Cocimento de Frida y Diego.  Nós pedimos uma entrada de Ostras in nieve e o Salmon a la finas hierbas. O pisco sour é delicioso e o jantar foi regado a um Charddonay nacional.

O Como água para chocolate fica na Calle Constitucion, 88. Esse restaurante é um dos queridinhos dos brasileiros no Chile e não é raro se ouvir uma conversa em português na mesa ao lado. É melhor reservar com antecedência (eu fiz a reserva através do site deles e foi bem fácil) e eu recomendo!!!

Como chegamos cedo demais para a nossa reserva fomos dar uma voltinha no impressionante Patio Bellavista (http://www.patiobellavista.cl/). O lugar é um complexo de bares, restaurantes,  lojas e cultura e é absolutamente encantador. É o ponto de encontro para chilenos e turistas estrangeiros. Pretendo falar mais sobre esse bairro admirável que congrega cultura, arte, natureza e gastronomia quando falar das nossas visitas à casa de Neruda de Santiago – a La Chascona e ao Cerro San Cristobal.

Eu e meu marido estamos a  semanas da nossa viagem ao Chile. O destino foi escolhido em virtude do nosso amor aos vinhos e a minha grande admiração pelo poeta chileno Pablo Neruda.

Estou tão empolgada com a preparação das coisas de viagem que ontem ele me dizia que parece que estou mais feliz com a preparação do que com a viagem em si. Não é bem assim, claro. Gosto de aproveitar as coisas na sua plenitude e, principalmente, detesto viajar arrebanhada. Por mais cômodos e fáceis que sejam esses pacotes turísticos sempre me sinto meio “tocada” como gado, sabe? E esses city tour me parecem meio pasteurizados. Gosto de ver a realidade como ela é. Gosto de escolher meus destinos e acima de tudo, gosto da liberdade e das surpresas que se apresentam para os que se mostram receptivos à elas.

Bom, a preparação incluiu a atualização da carteira de identidade. É preciso ter uma identidade com menos de 10 anos para entrar nos países integrantes do Mercosul. É uma incomodação necessária, mas preciso confessar que foi bem mais fácil que eu pensei que seria. O sistema (em Curitiba) está todo informatizado, não é preciso mais sujar os dedos com tinta pois uma leitora ótica lê as digitais e a foto é tirada ali mesmo. Disseram que a nova identidade chega em 5 dias. Ótima surpresa.

Mas, como eu ia dizendo antes, detesto viajar arrebanhada. Assim, comprei um guia visual da Folha de São Paulo e estou fazendo o nosso próprio roteiro. Além do guia há informações em abundância na internet, blogs contam as suas experiências e eu mergulhei fundo na busca pela Santiago que quero conhecer.

 

Já escolhi três Viñas para visitar, mas confesso que é difícil, pois são todas tão lindas nas fotos dos sites…  Gostaria de conhecer mais, mas assim ficaríamos borrachos a viagem inteira… Tracei 3 objetivos para essa viagem: vinhos, Neruda e neve.

O primeiro objetivo já está planificado. Escolhi  viñas da região do Valle do Maipo, em Pirque:  uma pequena e artesanal e duas maiores e mais conhecidas. Mas quero conhecer as viñas da região do Vale de Colchagua também. A minha única frustração foi descobrir que o trem del vino está temporariamente sem fazer passeios, pois gostaria muito de fazer o passeio entre Santa Cruz e San Fernando. Minha esperança é descobrir lá que o trem voltou a fazer o passeio. Preciso fazer o roteiro da visita às Viñas de Colchagua ainda.

O segundo objetivo é a peregrinação pelas casas de Pablo Neruda. É um sonho antigo conhecer a casa de Isla Negra (não é em uma ilha como eu imaginava!!!!). Isla Negra é um pequeno povoado de pescadores a quase 100km de Valparaíso. O poeta fala da compra de Isla Negra assim:

Pensei entregar-me a meu trabalho literário com mais dedicação e mais força. O contato com a Espanha tinha me fortificado e amadurecido. As horas amargas de minha poesia deviam terminar. O subjetivismo melancólico de meus 20 poemas de Amor ou a comoção dolorosa de Residencia em la Tierra chegavam ao fim. Pareceu-me encontrar um veio enterrado, não sob as rochas subterrâneas mas sob as folhas dos livros. Pode a poesia servir aos nossos semelhantes? Pode acompanhar as lutas dos homens? Já tinha caminhado bastante pelo terreno do irracional e do negativo. Devia deter-me e buscar o caminho do humanismo, banido da literatura contemporânea mas enraizado profundamente nas aspirações do ser humano. 

Comecei a trabalhar em meu Canto general.

Para isto precisava de um lugar de trabalho. Encontrei uma casa de pedra defronte do mar num lugar desconhecido para todo o mundo, chamado Isla Negra. Dom Eladio Sobrino, o proprietário, um velho socialista espanhol, capitão de navio, estava construindo-a para a sua família, mas quis vender. Como compraria? Ofereci o projeto do meu livro Canto general mas fui rechaçado pela Editora Ercilla, que então publicava as minhas obras. Com ajuda de outros editores, que pagaram diretamente ao proprietário, pude finalmente comprar, no ano de 1939, minha casa de trabalho em Isla Negra.

A idéia de um poema central que agrupasse as incidências históricas, as condições geográficas, a vida de nossos povos, apresentava-se a mim como uma tarefa urgente. A costa selvagem da Isla Negra, com o tumultuoso movimento oceânico, permitia que eu me entregasse com paixão à empresa de meu novo canto.” Neruda, Pablo  – Confesso que he vivido- Memórias – Difel difusão editorial – São Paulo – 1983 p. 139)

Exitem mais duas casas, uma em Santiago conhecida como La Chascona (em português seria a descabelada – é uma homenagem do poeta à sua terceira mulher – Matilde Urrutia – que lá viveu um ano enquanto era sua amante) e La Sebastiana, em Valparaíso.  Neruda separou-se da esposa e casou-se com ela em 1966. O livro cem sonetos de amor é dedicado à Matilde, que, me parece, foi o grande amor de Neruda.  Ele fala da sua mulher, carinhosamente em suas memórias assim:

Matilde Urrutia, minha mulher.

Minha mulher é da província como eu. Nasceu em uma cidade do Sul, Chillán, famosa de maneira feliz por sua cerâmica camponesa e de maneira desgraçada pelos seus terríveis terremotos. Ao falar-lhe disse tudo em meus Cem sonetos de amor.

Talvez esses versos definam o que ela significa para mim. A terra e a vida nos reuniu.

Ainda que isto não interesse a ninguém, somos felizes. Dividimos nosso tempo comum em longas temporadas na solitária costa do Chile. Não no verão porque o litoral, ressequido pelo sol, mostra-se então amarelo e desértico; mas no inverno sim, quando uma estranha floração se veste com as chuvas e o frio, de verde e amarelo, de azul e purpúreo. Algumas vezes subimos do selvagem e solitário oceano para a trepidante cidade de Santiago, na qual juntos padecemos com a complicada existência dos demais.

Matilde canta com voz poderosa as minhas canções.

Dedico-lhe tudo quer escrevo e tudo que tenho. Não é muito mas ela está contente.

Diviso-a agora como afunda os sapatos minúsculos no barro do jardim e depois também afunda suas mãos minúsculas na profundidade da planta.

Da terra, com pés e mãos e olhos e voz, trouxe para mim todas as raízes, todas as flores, todos os frutos fragrantes da felicidade.” (op cit. p. 277/278)

Minha irmã disse que a melhor parte da viagem é planejar. É verdade. Sonhar com esse futuro feliz, de descobertas e encontros com a diversidade de cultura e realidade é fantástico! Estou muito animada estudando o Chile e montando o nosso roteiro.

Soneto XLVIII

Dois amantes ditosos fazem um só pão,
uma só gota de lua na erva,
deixam andando duas sombras que se reúnem,
deixam um só sol vazio numa cama.

De todas as verdades escolheram o dia:
não se ataram com fios senão com um aroma,
e não despedaçaram a paz nem as palavras.
A ventura é uma torre transparente.

O ar, o vinho vão com os dois amantes,
a noite lhes oferta suas ditosas pétalas,
têm direito a todos os cravos.

Dois amantes felizes não têm fim nem morte,
nascem e morrem muitas vezes enquanto vivem.
têm da natureza a eternidade.”

Como falta planificar as visitas a La Sebastiana e La Chascona vou ficando por aqui. Volto com as impressões do planejamento das outras casas de Neruda e do Valle Nevado.

Estive acompanhando nessa semana a votação histórica do Superior Tribunal Federal (STF) da ADPF (Arguição de descumprimento de preceito fundamental) 54 que decidiu, por 8 votos a 2, que o feto anencefálico não tem vida e, portanto, a interrupção de gravidez nesses termos não é considerado aborto. “Aborto é crime contra a vida. Tutela-se a vida em potencial. No caso do anencéfalo, não existe vida possível”, afirmou o relator do processo, ministro Marco Aurélio Mello.

A matéria é controversa, pois toca em questões regulamentadas não só pelo Direito Penal, mas também é pautada por questões éticas, filosóficas e religiosas.

Eu, desde que comecei os meus estudos na área do Direito, sempre fui a favor do aborto. Não do aborto de anencéfalo, do aborto fruto de estupro, do aborto terapêutico… do aborto e ponto. Na verdade, eu sou  a favor da escolha.

Tenho mil razões para justificar o meu posicionamento e, antes que me digam que eu sou contra a vida, satânica, cruel e outros desses rótulos quero contar uma história pessoal.

Eu sou mãe de uma garotinha de 9 anos e amo a maternidade e a minha filha e tudo o que lhes é afeito. Dois anos antes da minha menina nascer eu sofri um aborto espontâneo. Sofrer é o verbo certo para descrever o que se passou. Não foi uma gravidez planejada, mas foi aceita, querida e esperada ansiosamente por mim. Fiz muitos planos, pois um filho significa uma mudança radical na vida de qualquer mulher. E são planos envolvidos em minúsculas roupas debruadas de rendas, ursinhos e bonequinhas em tons pastéis e belos berços brancos em vitrines. E embora eu acalentasse carinhosamente esses sonhos, eles se perderam tragicamente, e como todas as mortes repentinas e violentas, findaram-se em uma poça de sangue. A tristeza dos sonhos perdidos é imensa, mas a sensação de carregar a morte dentro de si é difícil de se por em palavras. A culpa é enorme, e muito embora muitos venham te consolar com estatísticas frias, nenhuma palavra de conforto é suficiente para aplacar essa dor lancinante. Na minha cabeça era preciso ter um culpado pela morte daquela vida tão recente, mas já tão amada, e como ela estava dentro de mim eu parecia ser a escolha mais óbvia. É uma dor profunda, silenciosa, solitária e sem remédio. Então, quando falo que sou a favor do aborto falo como a mãe que sou hoje e como a mulher que vivenciou essa situação em concreto.

Primeiramente é preciso que se diga que nenhuma mulher em sã consciência pratica o aborto alegremente. A insigne Ministra Cármem Lúcia foi muito feliz ao dizer em seu voto da ADPF 54 que “Não é escolha fácil. É escolha trágica. Sempre é escolha do possível dentro de um situação extremamente difícil. Por isso, acho que todas as opções são de dor. Exatamente fundado na dignidade da vida neste caso acho que esta interrupção não é criminalizável.”  Uma pequena digressão é necessária para que se compreenda o porque da necessidade de escolha e porque essa escolha, ao contrário de se diz não é egoísta.

O mundo é extremamente cruel com as mulheres. De nós muito é exigido e muito pouco é ofertado. Quando a questão é a maternidade essa realidade é ainda mais perversa. Uma das primeiras perguntas que temos que responder em uma entrevista de emprego é se temos filhos, se pretendemos ter mais filhos e se não os temos se os pretendemos ter. Ora, o que a fertilidade feminina tem a ver com a sua eficiência laboral? Por que nunca se faz esse tipo de pergunta para os homens? Uma mulher grávida é vista, imediatamente, como um estorvo para o empregador que se apressa em demiti-la se ela estiver em contrato de experiência (única exceção à garantia de emprego da gestante). Ressalvadas as raríssimas exceções que confirmam a regra, mesmo se casadas os ônus da maternidade são majoritariamente femininos. Não raro os pais dizem em sua defesa: “mas eu a ajudo tanto” como se a criação dos filhos fosse uma tarefa dela e a tarefa dele fosse ajudar de vez em quando.  A criação dos filhos é de ambos os pais, mas recai majoritariamente sobre as mulheres. Se há um divórcio ou se a mulher é mãe solteira a situação é ainda pior. O pai da criança, quando paga os alimentos – vulgarmente conhecida como pensão – diz que não aguenta mais dar dinheiro “para aquela mulher”. Se esse mesmo pai descumpre seu dever a mulher precisa abalar-se aos tribunais para buscar uma tutela jurisdicional. Na ação de alimentos os homens lutam para pagar o quanto menos, esquecendo-se que a finalidade dos alimentos é atender aos seus próprios filhos. Mesmo sendo a execução de alimentos uma ação na teoria urgente, os processos arrastam-se nos tribunais e a mãe é obrigada a suportar sozinha todos os encargos financeiros de se ter um filho. E, deve sofrer calada, pois se uma palavra negativa disser sobre o pai descumpridor de sua obrigação incorre em alienação parental. Isso tudo e ainda cuidar da casa, da alimentação da família, dar banho, levar à escola,  ver se escovou os dentes, buscar da escola, ajudar na tarefa de casa… Agora me diga: assumir tal encargo não deve ser uma escolha consciente de quem o vai suportar?

O mui sábio Ministro Ayres Britto, a respeito da gestação de anencéfalo disse que: “Obrigar a manutenção da gestação, seria impor a outra pessoa que se assuma como mártir. “O martírio é voluntário”, afirmou. “O que se pede é o reconhecimento desse direito que tem a mulher de se rebelar contra um tipo de gravidez tão anômala, correspondente a um desvario da natureza”

A verdade é que toda a gestação e a consequente criação de um filho é um exercício de doação extremada. E tal doação não pode ser uma imposição estatal. Deve ser uma escolha! O Estado não deveria poder, nem por força do pacto social, dispor sobre o corpo de seus cidadãos. Muito menos de como estes irão viver até o fim dos seus dias, pois os filhos farão parte da vida de suas mães até o fim da mesma.

Os grupos religiosos que me perdoem, mas nunca vi tamanha falta de caridade e piedade. Sim, porque a caridade e a piedade também devem ser exercidas em favor dessas mulheres, cuja vida muda completamente. São elas que levam em seu corpo, no caso dos anencéfalos, um ser condenado desde a sua gênese, um “morto-vivo”. São elas que carregam a dor e a culpa de gestarem a morte em iminência. Onde está a caridade por parte dos religiosos para com essas mulheres que sofrem? Essa caridade e essa piedade deveriam ser a obrigação dos cristãos, cujo mestre pregou “Amai-vos uns aos outros” e “Atire a primeira pedra quem nunca errou”. O que vejo para com essas mães sofredoras é só  o julgamento (e condenação) desses religiosos que ainda as ameaçam com o fogo eterno do inferno. Onde está o Deus de piedade e perdão que tanto pregam então?

Empiricamente pensando creio que jamais faria um aborto. Melhor, gostaria nunca mais passar por essa experiência. Mas ao pensar em um filho meu, recém nascido, agonizando e sem a menor possibilidade viável de vida é doloroso demais. Creio que eu escolheria, pelo feto e por amor à ele, o sofrimento menor, de morrer enquanto ainda não está formado na sua completude. E, não seria uma escolha por mim, pois eu, como mãe e mulher não teria outro caminho senão sofrer até o fim dos meus dias, assim como faço pelo aborto que sofri há mais de dez anos e que ainda ainda me traz lágrimas aos olhos.

Penso que o inferno com o qual os grupos religiosos ameaçam as mulheres já está instalado e é aqui mesmo. Um mundo desigual e preconceituoso no qual muitos se apressam em julgar e apontar e poucos  estendem a mão aos sofredores deve ser assemelhado ao inferno. Mas a decisão de ontem do Supremo Tribunal Federal nos põe alguns passos para fora dele.

(Illustration 25 of Divine Comedy: Inferno by Paul Gustave Doré (1832-1883)